Como me sinto quando exerço assistência sexual e afetiva?


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“Sá, você nunca me contou sobre isso e sou uma das suas melhores amigas! Como assim?”

“Imagina sofrer um acidente e por conta disso, não conseguir ter mais uma relação sexual? Em decorrência disso, passar por depressão, tentativa de suicídio. Ou pior, nascer com alguma doença congênita que a condene além de bullying na escola por anos a fio, a ver todos seus amigos namorando e você ser a única a sequer experimentar um beijo na boca?”, essa foi minha resposta, sob o olhar curioso da minha amiga desde época de colégio! rs

Confesso que esta pergunta me provocou e decidi finalmente deixar pública esta opção de voluntariado que faço há alguns anos. Sei que no Brasil, geralmente é exercida por profissionais do sexo, mas aqui na Espanha, na França, Alemanha e outros países europeus, existe a profissão terapêutica de assistência sexual à pessoas com diversidade funcional (paraplegia, paralisia cerebral, amputados, queimados, etc) e as pessoas que não exercem por profissão remunerada, como eu, são denominados voluntários. Principalmente, porque nem todo mundo tem dinheiro para pagar por este serviço. Para mim, é uma forma de prevenir suicídios ou pensamentos suicidas em pessoas com menos oportunidades que eu.

Algumas ong´s se dedicam a colocar voluntários e profissionais da área em contato com pessoas que por sua situação tem poucas ou nulas as possibilidades de afeto íntimo ou sexo. Existe também o reconhecido movimento internacional “Yes, We Fuck!” que tem como objetivo desmistificar o assunto sobre a expressão sexual de pessoas com baixa ou nenhuma mobilidade física e outras doenças.

Bom, minha primeira experiência neste sentido, foi com um grande amigo, que quase aos seus 30 anos era virgem. Nunca nenhuma mulher o havia tocado, nem beijado. Ele sofria uma série de doenças, além de falta de mobilidade, que o incapacitava de ter as mesmas oportunidades que eu ou você de se relacionar com outras pessoas. Minha atitude foi por amor e amizade! Conservo uma das cartas mais lindas como tesouro e memórias especialmente ternas de abraços infinitos. Infelizmente, ele faleceu este ano.

Depois me envolvi afetivamente com dois atletas paralímpicos. Ele amputado e ela aspirante às paralimpíadas, com paraplegia. Foi a primeira vez que alguém a tocava. Ele já tinha experiência, mas não conseguia se relacionar afetivamente por baixa autoestima. Trabalhei esta questão com ele, até que se sentisse pronto para buscar uma companheira. Hoje sou madrinha de duas crianças lindas e conservo a amizade com ambos.

Não, este texto não pretende ser erótico. Somente uma forma de compartilhar que todas as pessoas adultas, que tem necessidade de afeto e intimidade poderiam ter este tipo de assistência de forma mais ampla. Estou segura que cada um que me lê, tem um amigo, amiga, parente com algum tipo de desfunção física, sensorial ou intelectual. Muitos pais cuidadores, tratam seus filhos como “bebês” e não percebem as necessidades sexuais deles. Segundo estudos europeus, adultos acidentados, que passam pelo processo de transição de aceitação da sua nova realidade, tendem a diminuir pela metade a incidência de depressão e tentativas de suicídio, quando tem pessoas que se relacionam intimamente com eles.

Pelo fato de trabalhar em rede e em várias cidades, quando sei que passarei mais de 15 dias em algum lugar, entro em contato com as organizações de apoio e pergunto quem precisa mais urgentemente deste tipo de assistência (em geral mulheres acidentadas ou alguém com depressão) Nem sempre há sexo. Às vezes passo uma noite fazendo massagem ou dormindo abraçada. Outras, cozinho semi nua, arrancando risadas. De vez em quando, gravo um vídeo enaltecendo todas as qualidades humanas das pessoas que conheço nesta condição. Outras, participo de experiências sexuais com casais que deixaram de fazer sexo porque um dos parceiros se acidentou e a outra parte não sabe como agir mais e anulou sua sexualidade. Já organizei festas de aniversário eróticas para amigas e desconhecidas nesta condição com grupo de artistas também voluntários. Às vezes, sexo virtual, com pessoas que mantenho contato há anos.

Existem muitas formas de doar e receber afeto. Essa é uma das formas que encontrei… Não faço por caridade. Faço por prazer do meu corpo servir e receber amor de forma não convencional. Desfruto muito destes momentos e todos os corpos humanos tem a sua beleza e encanto! Recebo muito mais que dou. Não sei se seria capaz de sorrir novamente se passasse por muitas situações que conheci literalmente de forma nua e crua. Aprendo. Aprendo. Aprendo. (10 anos de experiência não são 10 dias…)

Para quem tiver interesse em saber mais sobre este movimento, co-criar iniciativas no Brasil (que desconheço a existência) ou até mesmo se inspirar em projetos sérios, aqui tem links de organizações espanholas e filmes que tratam do tema:

http://www.ccma.cat/tv3/alacarta/sense-ficcio/jo-tambe-vull-sexe/video/5634098/#

www.tandemteambcn.com

http://sainternacional.blogspot.com.es/

http://www.yeswefuck.org/

(Compartilhe! Quem sabe mais pessoas se mobilizam para amar de forma incondicional… e se descobrem nesta atividade)

*por Sabrina Bittencourt, originalmente para o site https://www.cinicas.com.br/como-me-sinto-quando-exerco-assistencia-sexual-e-afetiva/

Reprodução autorizada – Foto: Sabrina Bittencourt

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