Excomungado da Igreja Católica por defender casamento gay, padre funda religião humanista


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Em um período nebuloso onde se discute sobre a cura gay, ainda temos no Brasil exemplos de pessoas que não medem esforços para abraçar e acolher a diversidade. É o caso do bauruense Roberto Francisco Daniel, ou simplesmente Beto, padre excomungado da Igreja Católica por defender o casamento homoafetivo e confrontar a interpretação bíblica. O tal pecado acabou abrindo caminhos para que ele fundasse a religião Humanidade Livre, onde todos são não apenas aceitos, mas celebrados.


Ouça a matéria e a entrevista! Clique no play acima!

Antes de o padre Beto ter sido expulso pelo Vaticano em 2013, apenas o filósofo italiano Giordano Bruno havia recebido a pena máxima da igreja católica, a mais de 400 anos atrás. O motivo? Disrupção. Por pregar o amor, o respeito e a igualdade, colocando em debate público assuntos relacionados à moral sexual cristã. O sacerdote também já foi alvo de muitas polêmicas ao ser franco, afirmando coisas como: “se viesse hoje, Jesus Cristo seria mulher, preta, pobre e lésbica”.

Mas, o que poderia ter sido uma lástima para ele acabou se tornando um manto de liberdade para que seguisse com suas convicções, pregando a compaixão acima de tudo e, consequentemente, realizando a benção religiosa nos casamentos entre pessoas do mesmo sexo e de quem já passou pelo divórcio.

Formado em Direito e em História, é também professor e cursou Teologia enquanto viveu na Alemanha, no seminário Herzoglichen Georgianum, onde morou também o Papa Bento 16. Tem alguns livros publicados e foi tema de um documentário premiado no Estados Unidos. Em uma conversa com o Razões para Acreditar, ele fala abertamente sobre suas escolhas, sua jornada dentro e fora da igreja, divagando sobre a fé e a existência de Deus.

O dramaturgo grego Sófocles já nos apontava, em meados de 420 a.C, que “é tolo quem se quer opor ao amor, como se pudesse lutar com ele”. O sentimento mais supremo da vida é invencível nas batalhas, é o que pode tudo e cura tudo, inclusive o preconceito.

Razões: Depois de estudar tantas coisas, porque você quis se tornar padre?

Padre Beto: Primeiro fiz Magistério, como curso profissionalizante, depois fiz História e Direito. Agora, três fatores me ajudaram a refletir muito sobre o sentido da vida. O primeiro foi a morte de uma pessoa querida na família, que me fez refletir sobre a finitude da existência. Quer dizer, um dia vou partir daqui. O que eu quero ver, o que eu quero presenciar ao olhar pra trás? Isso me levou a uma reflexão séria. Depois, meu curso de história foi muito marcado pelo marxismo, que nos leva a uma reflexão de sermos sujeito da história; de transformar a história. De não ter simplesmente uma história individual. E depois também nos retiros espirituais que eram dados em Itaici (Centro de espiritualidade da Igreja Católica Romana no Brasil), me ajudaram bastante. Esses três fatores foram me levando a ver, no sacerdócio, da década de 1980, uma maneira de eu contribuir para a mudança das pessoas, tanto individualmente quanto socialmente, e a construção de uma sociedade melhor. Então isso me fez ver um caminho que eu gostaria de trilhar, para ajudar na transformação da minha mentalidade e da sociedade.

Foi feliz durante seus 15 anos como padre da Igreja Católica? Sente falta?

Fui feliz sim. No sentido de que consegui contribuir para que as pessoas abrissem um pouco mais a cabeça, refletisse sobre diversas coisas e não ficasse naquele quadradinho estabelecido pela doutrina católica. Eu fiquei muito feliz. Agora…não sinto falta, não. Porque a excomunhão foi para mim uma libertação. Consegui sair daquela estrutura pesada da Igreja Católica, que a gente espera que mude, mas nunca chega alguém lá em cima (da religião) que mude, e a gente fica aprisionado e impossibilitado de amar o nosso próximo devido a regras e normas. Então eu não sinto falta, não.

O que mudou na sua visão que fez com que você fosse excomungado?

Não mudou nada. Apenas a igreja mudou. É claro que eu passei por mudanças, eu amadureci. Mas, nesse sentido, a igreja mudou e aí veio a minha excomunhão. Quando entrei para ser padre (na década de 1980), nós tínhamos uma Igreja Católica que sinalizava mudanças, incentivava o diálogo. Era a época da CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), teologia da libertação, do questionamento, do diálogo com as religiões afrobrasileiras, enfim…eu entrei numa igreja muito arejada.

Aí fui para a Alemanha e lá encontrei a mesma coisa, muito em diálogo com a contemporaneidade. Mas, quando retornei ao Brasil – uma década depois – encontrei uma Igreja totalmente transformada, conservadora, fechada no seu mundo. Mas continuei com a minha linha, de dialogar com a contemporaneidade, com os problemas e questões atuais. E isso levou à minha excomunhão, à não compreensão dos meus superiores, de que a igreja tem que transformar o mundo e se autotransformar. A igreja mudou, eu não.

Ser expulso te desanimou com relação à doutrina religiosa?

Não me desanimou. Primeiro porque logo depois eu nem tive tempo pra isso, veio um assédio muito grande da imprensa e isso foi bem positivo. A imprensa e a comunidade me abraçaram. Três anos antes desse episódio eu estava justamente quase que entrando em depressão. Porque eu estava na geladeira. Meus superiores não me davam nenhuma função além de celebrar a missa. Então eu estava realmente encostado e se eu continuasse assim, aí sim eu entraria em depressão. Mas ainda bem que veio a excomunhão e não desanimei, pelo contrário. Isso me permitiu amar muito mais meu próximo e ajudar agora de uma forma diferente a mudança de mentalidade do meu povo.

Quem te inspira atualmente, na sua profissão e por quê?

Nesse momento, não tenho ninguém que me inspire. Tenho uma força dentro de mim que me inspira a transcender e a ser mais. Aprendi que não dá para ter ídolos, pessoas te inspirando. Você tem que ser você mesmo. Cada ser humano precisa raciocinar por si mesmo.

Nós podemos nos deixar influenciar por certas ideias, filosofias, mas nós devemos ser os nossos inspiradores. Essa é a mensagem do Cristo. “Vós sois o sal da Terra, vós sois a luz do mundo”. Ele não disse “eu sou o sal da terra, eu sou a luz do mundo”. Cada ser humano é uma fonte inspiradora, cada ser humano é um elemento transformador.

Convicções pessoais e espiritualidade não ligada exatamente à uma religião parecem ser o novo caminho dessa geração. No documentário Excomungado você fala sobre uma “fé lúcida”. Mas, a lucidez não nos deixa descrentes?

A lucidez nos deixa descrentes sim. Mas nos deixa descrentes de tudo aquilo que é vazio, sem fundamento, sem consistência. A lucidez nos leva a crer naquilo que é substancial, concreto. Sou lúcido a partir do momento que eu enxergo, por exemplo, que o amor faz com que as pessoas se tornem melhores. Isso é uma crença que tem substância, experiência de vida. O ser humano é uma família, é uma humanidade. Isso é também uma crença com consistência. De que a liberdade é importante para todos…e assim por diante. A lucidez apenas nos direciona a crer no que tem fundamento e a descartar o que não tem, o que é ilusório.

 

Você fundou uma religião e hoje realiza casamentos homoafetivos. Ser transgressor e disruptivo acaba sendo um “pecado do bem”? Como você avalia essa relação entre romper padrões e seguir com ensinamentos bíblicos?

Ser transgressor não é um “pecado do bem”. Ser transgressor não é pecado, é transcender. É estar em sintonia com Deus. Porque as regras nos padronizam, e padronização é algo contra Deus. Ele nos fez como seres humanos e estes não podem ser padronizados. Ele não pode ser enquadrado em normas que o nivelem. E transgredir essas normas é justamente ser movido por Deus. Então não é um pecado, é uma sintonia com ele. As pessoas que estão padronizadas em normas morais e religiosas não estão em sintonia com Deus. Jesus Cristo, Buda, Krishna, nenhum deles esteve padronizado. Foram todos transgressores. E todos estiveram em sintonia com Deus.

 

Se Deus é amor, por que ele proibiria duas pessoas de se amarem? Por que a Igreja Católica tradicional, e tantas outras, não enxergam dessa forma?

Eu também não entendo porque as igrejas cristãs não entendem que duas pessoas que se amam são abençoadas por Deus independentemente de sua sexualidade. Elas se prendem a pequenas frases, que estão no contexto bíblico, principalmente nas cartas de Paulo, e fazem questão de condenar essas novas formas de família.

No fundo eu acho que as igrejas querem bater na tecla de que Deus querem que todos sejam heterossexuais e ponto final. E que a família é somente pai, mãe e filhos. O que é um absurdo…eu não consigo compreender. Eles acabam falhando com o mandamento que é o maior: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Se as igrejas praticassem isso, com certeza estariam fazendo casamentos homoafetivos como eu estou fazendo.

Já teve alguma situação na sua vida onde você questionou ou duvidou da existência de um Deus? Se sim, o que te fez voltar atrás?

Do que eu consigo me lembrar, não teve nenhum momento em que questionei a existência de Deus. Eu tive sim a mudança de sua imagem, que foi saindo de uma imagem infantil, aonde Deus é pessoa e tal, para um Deus que eu não consigo imaginar como ele é. Até me recuso a imaginar. Porque deve ser uma realidade tão imensa que a nossa razão não consegue assimilar.

Você diz que as religiões deveriam unir as pessoas e não dividí-las. Mas acontece exatamente o contrário, por vezes por uma intolerância que parte dos próprios grupos e não de quem não pertence a eles. Como tirar essa cultura e imagem da religião em tempos onde há tantos questionamentos, dúvidas e inseguranças?

Olha, eu não sei como mudar isso…a questão da intolerância por parte dos grupos religiosos. É uma contradição muito grande. Os grupos religiosos não compreenderam ainda o que é religião. Se eles compreendessem, eles não estariam se dividindo em rótulos. Eles acabam participando de uma religião como se fosse um clube. E aí excluem os outros de outros clubes.

A mentalidade não é universal, de se unir com o todo. Mas a de se excluir do todo e se achar privilegiado, por Deus ou por uma força maior. Podemos quebrar isso a partir do momento que nós tentamos convencê-los de que tudo isso é uma ilusão. Não existe ninguém privilegiado nesse mundo, no sentido da salvação ou da aproximação com Deus. Mas todos são privilegiados a partir do momento em que nós amamos.

Você diz que a Humanidade Livre, criada por você, não segue doutrinas. Me parece uma mistura de ensinamentos e crenças religiosas. Qual é o papel da religião? Ela torna as pessoas melhores?

Acredito que a religião tem essa missão, a partir do momento que essa religião se concentre no essencial, que é a vida aqui e o amor ao próximo, ponto final. Fora isso, a religião se torna mesquinha, se torna exclusivista, algo que pode reprimir o ser humano. A Humanidade Livre não é uma mistura de crenças, é simplesmente uma igreja que deixa as pessoas livrem para crerem. É a convivência e a irmandade da diversidade. A única crença que nós temos é que Deus é amor. Ponto final. As pessoas podem crer no que quiserem, quem sou eu para tirar a convicção delas?

Como seguir o Evangelho dessa maneira? Você deve encontrar alguns impasses entre o que você pensa e o que está escrito, não?

Não encontro impasse nenhum. Você apenas precisa ter uma leitura histórica e crítica do texto bíblico e aí nós vamos entender que o Cristo não pregou uma igreja e sim uma filosofia de amor. A sua mensagem foi o Reino de Deus, uma sociedade onde a vida em abundância seja para todos e só o amor consegue fazer isso.

Como é a missa e onde é? Já existe um sede?

A missa da Humanidade Livre tem duas partes: a celebração da palavra, onde nós refletimos o evangelho de Jesus Cristo, lendo dois trechos do antigo e do novo testamento, e um trecho do evangelho. Depois nós temos a homilia, que é o sermão do Padre, onde tento fazer a atualização do mandamento maior, que é o amor ao próximo. E sem tocar em nenhum dogma religioso, de nenhuma religião. Celebramos também a comunhão, com o diferencial de que as músicas não são Gospel e sim normais, desde rock a MPB, contando que seu conteúdo fale sobre a vida, se encaixando em cada momento da missa.

São realizadas aos domingos, às 10h e às 19h30, na rua Henrique Savi, 237, em Bauru – SP. Temos uma comunidade em Manaus (AM), em Vicentina (MS) e outras duas nascendo no Rio de Janeiro e Botucatu (SP). O público se mantém atualizado através da página no Facebook.

 

Fotos: reprodução/Padre Beto


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