Jovem escreve um relato emocionante para homenagear irmão que morreu


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A internet sempre nos presenteia com histórias que amolecem o nosso coração. Muitas delas lembram que devemos amar o outro intensamente, sem medo e sem culpa, para fazer a vida valer a pena. O relato que compartilhamos com vocês a seguir é do Diego Jock, a respeito do seu irmão Lucas Jock (carinhosamente chamado de naninho), que morreu de forma trágica em abril desse ano. Quando soube do texto e da história toda, fiquei profundamente emocionado e comovido, tanto pelo texto, mas também por saber que temos pessoas capazes de amar de forma tão maravilhosa, até a última gota. Cada verso enche os olhos de lágrimas. Leiam:

Sabe, naninho? Você sempre foi o melhor de nós. Talvez por isso ainda seja tão difícil de acreditar. Aos 34, eu já devia ter aprendido que a vida não é feita de justezas. Mas dói. Dói todos os dias.

Passei as últimas semanas tentando entender o porquê das coisas. Uma dessas inquietações é saber qual o significado da morte. Existem muitas interpretações, naninho. Osho falava do riso e de ser zen para a morte, porque a vida e a morte não estão separadas. Tudo o que é a sua atitude perante a vida será a sua atitude para com a morte, porque a morte vem como o florescimento final da vida. Ele dizia que a morte não é o fim, mas o ponto culminante, o crescendo. Que a morte não é a inimiga, é a amiga, já que ela torna a vida possível.

Kierkegaard falava da angústia e do desespero, mas ele dizia também de algo que parecia complementar Osho, olha:

Ame profunda e apaixonadamente.

Você pode sair ferido, mas essa é a única maneira de viver a vida completamente.

Isso tudo resume bem o tipo de vida que você levou. Repleta de riso e amor profundo por todos.
Não sei se você viu, naninho, mas muita gente estranha também sentiu muito. O enfermeiro que notei rezando do lado da tua cama me mandou mensagem no Facebook depois. Teve também o motorista da ambulância que veio te ver depois do expediente, dizendo que não tinha nem conseguido dormir entre os socorros, algo que fazia com frequência.
Como não se comover com demonstrações assim?

E a homenagem que sua turma da faculdade fez, você viu que bonito, naninho? Todos entraram juntos com uma faixa e uma coroa enorme de flores. Eles te conheciam há poucas semanas e já eram apaixonados por você. Como você era foda, mano.

Esse é você testando o scanner novo

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Em 1989, numa madrugada do dia 04 de maio, a mãe veio me acordar. Ela, o pai e o barrigão com você dentro estavam indo para o hospital e me diziam para ficar tranquilo, que logo estariam de volta. Vinte e seis anos depois eu acordava de madrugada também assustado, em choque com as notícias que a mãe anunciava.

Tem uma banda argentina que gosto muito chamada El mato a un policia motorizado. Eles sempre abrem o show com uma música bem curtinha chamada El magnetismo (clica aí para ouvir). Olha o que ela diz:

Quién te va a cuidar? (Quem vai cuidar de você?)
En este mundo peligroso tenemos que estar juntos. (Neste mundo perigoso temos que estar juntos)
Quién detendrá a la turba iracunda si no estoy con vos, nena? (Quem vai conter a multidão furiosa se não estou com você, baby?)
Con este magnetismo que sigue bajando, nena. (Com esse magnetismo que segue caindo, baby)

Ainda é difícil de acreditar, naninho.

Entre essas duas longas madrugadas eu tive o privilégio de te conhecer e conviver contigo.

Lembra de quando eu disse brincando que você jamais me passaria na altura e aos poucos você foi chegando? Foi chegando, chegando, chegando e isso virou graça na família. Diversas vezes ficamos de costas um para o outro, cabeças encostadas, para que tentassem, em vão, confirmar quem era o mais alto. Até que um dia, no consulado alemão, precisamos preencher uma ficha enorme com nossos dados para dar entrada na cidadania. Não pude perceber que você preencheu todos os campos e deixou o campo “altura” em branco, esperando eu preencher antes. Depois que viu o que eu tinha escrito, você foi lá, acrescentou um centímetro e preencheu o seu. E aí tivemos a comprovação documental de que você era realmente mais alto que eu. (carece de fontes)

Eu poderia passar horas aqui relembrando como escolhemos juntos o seu nome, falar daquele show do Placebo que te levei quando você tinha uns 14 anos, das viagens que fizemos, dos tombos que levamos, da experiência que foi construirmos juntos casas em comunidades carentes, sobre uns causos impublicáveis e de uma infinidade de boas lembranças. Mas vou fazer isso da maneira como você preferia: pessoalmente, rodeado de amigos e de boas energias.

Pude acompanhar e compartilhar desde muito cedo do seu amor pelos games. Então quero que saiba que tenho orgulho demais de você, naninho. De tudo que você realizou, desse legado que você deixou. Orgulho desse irmão foda que você sempre foi, desse filho maravilhoso para nossos pais, do amigo incrível para todos. O melhor de nós, sempre.

Nesses quase 26 anos pude aprender muito contigo, especialmente sobre esse seu jeito de levar a vida sempre de bom humor, enxergando graça nas coisas – mesmo com as porradas que a vida nos dá. As pessoas sempre dizem que precisamos traçar metas, essas coisas todas. Sabe qual é a minha, naninho? Chegar o mais perto possível disso tudo que você representou para todos.

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Essa era a lista de mercado que a mãe tinha deixado na geladeira. Você foi lá e complementou com seus amigos. Destaque para “reviver o gato branco”, um gatinho seu que foi envenenado.

Você não deve se lembrar disso, mas uma vez estávamos em Ubatuba passando um feriadão. Já era madrugada e todos estavam dormindo há muito tempo. Você devia ter uns 9 anos e naquela época eu deixava um CD tocando para dormir. Me fazia bem, sabe? No meio da música Pais e Filhos, justamente enquanto Renato Russo cantava “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade não há”, eu escutei uma voz cochichando:

– Diego, você tá acordado?

– Oi naninho, tô.

– Essa parte da música é tão triste, né?

Sabe, naninho? É triste sim, mas se você parar pra pensar de novo, tem esperança e coisa boa, não tem?

Claro que dói. Dói uma dor tão doída que eu nem consigo descrever. Mas sabe o que é maior que essa dor? A tristeza pelas pessoas que não tiveram a oportunidade de te conhecer. Fica pra outra vez, né?

Com todo amor que existe, desse teu irmão 1cm mais baixo,

Diego (Gue)

[VÍDEO]

O Diego também gravou um vídeo maravilhoso para a mãe poucos dias antes do “Dia das Mães” deste ano e pouquíssimo tempo depois da perda do naninho (desculpe Diego, a essa altura pareço tê-lo conhecido por conta de suas belas palavras e já quero chamá-lo assim). Vale a pena se emocionar de novo.

[UPDATE]

Recentemente, o Alex Pedro comentou sobre o texto do Diego, e nos emocionou novamente:

Caramba, como a vida é danada, né? A morte é o jeito rabugento que a vida tem de nos fazer entender por A mais B o que pensamos ou sentimos com relação às pessoas. Eu conheci seu irmão fazendo uma pré-entrevista para um documentário chamado “Do Joystick para o trabalho”. Esse documentário foi a primeira grande coisa, bem feita mesmo, que eu fiz na minha vida, desde que decidi ser um escritor, aos 12 anos de idade. Entre as várias pessoas com as quais conversei, ao falar com teu irmão, eu decidi que ele seria a figura protagonista do documentário, pois não teria como ser diferente. Não tive sucesso. Ele era do interior, não tinha como vir, nós não tínhamos orçamento para ir até ele e perdemos, definitivamente, a melhor entrevista de todo o documentário. Aquela sobre gente jovem que aprendia as coisas lendo tutoriais na internet, e fazendo entre amigos, virando noites, aprendendo com os próprios erros. Sempre lamentei isto. Gosto do resultado final do documentário, mas não é o filme que eu sonhei. Nenhuma outra pessoa falou com tanto encantamento(e olha que todos ali amavam o que faziam), quanto Lucas Jock. Bem. Acho importante que eu escrevesse isso, porque é comum pessoas que convivam por anos lamentarem uma perda, mas eu conversei com ele acho que umas cinco vezes. Dessas cinco, pelo menos uma durou 3 horas. Nessas três horas eu percebi uma pessoa que não parecia ceder ao medo quando surgiam desafios e, acima de tudo, falava sobre a vida, sobre a própria história, como uma criança falando sobre qualquer coisa que considere especial. Lamento só ter descoberto o que houve agora, meses depois, mas isso não diminui o choque que sinto, porque naquelas três horas eu havia descoberto uma pessoa que eu podia admirar e esperar grandes feitos. E ele os fará, a parte ruim é que daqui nós não teremos como saber.

O texto foi publicado originalmente no Medium e reproduzido com autorização do Diego Jock.


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