O que estamos fazendo por nós?


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Acordei lentamente e, enquanto tomava senso do espaço em que eu estava, um amigo dedilhava na varanda com sua voz rouca. Eu ainda recostada no travesseiro, falava pra mim mesma: “que bom viver o dia de hoje e poder ouvir isso”. Eu tinha uma casa pra desmontar, contas pra pagar e mais um quadrilhão de pequenos problemas esperando solução. Naquele momento eu não estava pensando em nada. Naquele instante, meu universo se resumia a um tenor rouco, lindamente colocado em acordes que me levavam a uma sala de onde podia-se ouvir Otis Redding cantando baixinho. Era como se eu pudesse estar em outro espaço, numa escala completamente nova. Onde não há contas, malas a serem feitas ou qualquer coisa que me coloque num espaço material. Nada é necessário. Nada é tão importante assim.

Isso me faz questionar o que nos leva a sofrer tanto. Qual parte de nossa rotina é de fato digna de nosso investimento emocional? O que estamos fazendo por nós?

Sêneca, nesse meio tempo, veio pra arrebatar de vez meus pensamentos. Ele se sentou ao meu lado numa bela tarde de sábado e me deu um tapa com lenços de seda enquanto expunha seu tratado sobre a Brevidade da Vida. Ele discute através de uma filosofia estoica, o que é perda de tempo e o que se apresenta como uma boa maneira de aproveitar os dias. Ele empurra goela a baixo nossa insensatez quando nos faz refletir sobre nossa pobre capacidade de pensar nossa existência: estamos nos importando com coisas levianas como se fôssemos viver eternamente, ao passo em que não atribuímos importância ao verdadeiro e perpétuo, tal qual fossemos meros mortais à serviço de nossos medos.

E essa coisa de medo tem um sentido atroz. É o medo de estar desperdiçando um tempo produtivo. Medo de não conseguir fazer. Medo de não dar certo. Enquanto isso, alguém toca de leve um Di Giorgio, fazendo o tempo desacelerar. Não, a vida não é tão curta quanto parece. O tempo não está assim tão ligeiro. Somos nós, herdeiros de uma miserável distinção errada sobre a vida que estamos nos importando menos.

O medo é um indicador mordaz do ego. É aquele medo do fracasso que faz sinalização pra uma alma ainda pensativa no quanto se é capaz de suportar uma “reputação” falha. Enquanto isso, os sustenidos levitam no ar, de uma varanda fria. Enquanto isso, dá pra perceber o timbre ecoando diferente pelas grade da sacada. Não existe fracasso nesse minuto. O que eu realmente tenho feito por mim?

Sabe, meu pai me ensinou a não ter medo de novos começos. E ainda mais quando se envolve algo sobre mim. A gente anda tão sufocado com obrigações, e eu não estou falando sobre emprego, carreira, família. Estou falando sobre o esforço descomunal que fazemos em sermos sempre uma obra de apreciação para os outros. Sobre aquele sentimento de estar sempre fazendo algo pra satisfazer o outro. Quando na verdade, Salomão, na Bíblia Sagrada, com veemência encara que o ego é só vaidade. E vaidade vem do latim, vanus, que significa vazio. O ego é vazio, oco. Seria um desperdício alimentar algo que não armazena, muda ou multiplica. É como acumular coisas ao longo do tempo num saco de estopa furado. É triste e quase epifâncio quando pensamos que se passou tanto tempo e não fizemos nada por nós mesmos.

Não lutamos contra esses medos e assumimos uma postura mais amorosa e gentil conosco. Estamos ausentes de nossas próprias vidas. E como estar presentes aos outros e subverter toda mágoa em amor se não sabemos qual tempo temos dedicado a nós mesmos? É como querer ensinar uma receita de pão caseiro sem nunca tê-la feito. E, ainda mais, intuir os sabores de sua massa, sem nunca tê-la provado.

Agora, o tom mudou. Meu amigo entrou no território de Leonard Cohen, e eu continuo espiando pela brecha da porta. As pessoas estão perdidas por não terem certeza das coisas certas. Sabemos mais sobre miragens do que sobre o que é real. Por isso tanta agressividade, porque a miragem se vai como poeira. E a certeza das coisas certas está aprisionada na frustação.

Andamos muito rápido, com medo, com pressa e cabeça baixa. Enquanto isso, tem gente gastando sorriso com o vento, tem luzes acesas em lugares vazios. Tem gente sem prestar atenção em si mesmo. Colocando seus olhos em vaidades, enquanto coisas bonitas acontecem dentro de si ao passo que alguém toca um Di Giorgio na sacada, sem pretensões. Apenas com o pretexto de estar ali e se pertencer.

E eu, no meio de uma vida completamente deslocada, me preparando pra deixar a cidade e com um turbilhão de pensamentos dançando ciranda na minha mente, paro e agradeço por poder ouvir algo tão suave e belo. Agradeço por estar viva.


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