O Instituto que é uma verdadeira galeria de artes


55 shares Compartilhar Tweet WhatsApp

Ingrid Vogl

Quem visita ou frequenta o Instituto Popular Humberto de Campos (IPHC), unidade do Centro Espírita Allan Kardec, pode conferir em seus diversos ambientes, como corredores e salas, paredes repletas de obras de arte. São desenhos criados por meio de diversas técnicas, como pintura, grafismo e digital. Tudo muito colorido e com um senso estético que chama a atenção pelo traço livre, beleza e por expressar emoções.

As obras são todas feitas pelas crianças e adolescentes atendidos pelo Instituto e participantes da oficina Iniciação às artes plásticas, que acontece às terças-feiras, das 13h às 15h. O que mais impressiona ao entrar na sala onde acontece a oficina é ver as crianças compenetradas desenhando traços livres, cheios de intensidade, emoção, cor e luz.

Ali, a regra é clara: o traço é livre, sem lápis, borracha, sem erros, sem censura. A metodologia usada valoriza e incentiva o esforço, a dedicação e o resultado do trabalho das crianças. Isso as inspira e motiva a aprender cada vez mais. E o resultado, são desenhos impressionantes.

Todo esse trabalho é comandado por Fúlvia Gonçalves, renomada artista plástica que há 29 anos desenvolve trabalho voluntário em instituições sociais de Campinas, 25 deles em unidades ligadas ao Centro Espírita Allan Kardec. Didática e sempre acompanhando de perto e com entusiasmo a produção das crianças, Fúlvia orienta os alunos que, interessados e compenetrados, seguem à risca as dicas da mentora artística.

Kailane Vitoria Alves, 10 anos, é uma de suas pupilas. Focada em seu trabalho, pinta com precisão o desenho que foi dado como tarefa naquele dia: um autorretrato da mãe. “A gente começou a oficina com a Fúlvia há dois meses, e eu adoro. Antes, não desenhava bem, meu traço era feio. Mas agora, eu gosto do que faço”, afirmou a menina. Para Kailane, seguir as dicas de Fúlvia, de como fazer os traços, o jeito de pintar sempre com muito colorido e expressando suas emoções, foram essenciais para sua evolução artística. “Me sinto alegre quando estou desenhando”, disse.

Algumas carteiras mais à frente, Lorena Moraes Lacerda, 10 anos, expressava satisfação enquanto finalizava o retrato de sua mãe, expressiva e colorida. “Eu desenhava um pouco com meu pai, mas nunca tive muito interesse. Quando comecei a fazer aula com a Fúlvia, descobri como era legal, porque ela já me ensinou muitas coisas sobre o desenho, sobre como devo colorir bastante e deixá-lo expressivo e como usar técnicas como composição. Desenhando, me sinto bem e sinto que estou fazendo e aprendendo coisas novas. Quero aproveitar todos os ensinamentos da Fúlvia, que desenha e ensina muito bem, e aprender um pouco de todas as técnicas, para melhorar meu traço e saber mais sobre a arte”, afirmou.

Metodologia

Toda essa desenvoltura com os desenhos conquistada em tão pouco tempo pelas crianças é resultado de uma metodologia criada por Fúlvia ao longo de quase três décadas de suas experiências profissionais, acadêmicas e ensinando crianças sobre artes visuais.

Esse conhecimento foi reunido em um livro, que traz todas as etapas do que será ensinado às crianças ao longo de um ano de oficina, que é o tempo que cada turma passa com Fúlvia. “Logo que comecei a compartilhar meus conhecimentos com as crianças, comecei a fazer um estudo e estabeleci um repertório propício para essa faixa de idade, entre 9 e 10 anos, quando elas são muito criativas. Então preparei um caderno com um programa de conteúdo para o ano todo, de onde tenho uma base para organizar cada dia da oficina. Esse material poderia ser um mestrado, ou até mesmo uma publicação para ser distribuída a professores de educação artística”, opinou.

Nesse rico material, a oficina perpassa por conteúdos que vão desde desenhos simples, que começam a ser feitos com caneta esferográfica, passando por giz, pintura, colagem. Os registros são os mais variados e começam pelo autorretrato, memórias familiares, da cidade e chegam até a releituras de artistas de Campinas.

Nesse ponto, Fúlvia faz questão de ensinar um pouco sobre a história da arte na cidade, e para isso, costuma levar renomados artistas plásticos locais para que as crianças os conheçam. O mais recente foi Francisco Biojone, um dos membros do grupo Vanguarda, formado por 11 artistas plásticos de Campinas, que no final dos anos 50 lançou um manifesto para transgredir os padrões pré-estabelecidos da época e revolucionou as artes visuais no município renovando e trazendo modernidade às artes. Biojone era o último membro do grupo e morreu em março deste ano. Bernardo Caro, Vera Ferro e Lilia Parada, sobrinha de Thomas Perina e que empresta o nome ao Instituto criado em sua homenagem, também já bateram bons papos com as crianças que frequentam a oficina.

“A ideia é que elas conheçam um pouco mais da história das artes em Campinas pelos próprios artistas que fazem parte dessa trajetória. Essa ação também resulta em uma releitura que eles fazem a partir de uma obra escolhida do artista apresentado”, explicou Fúlvia. Depois da releitura feita, as obras são expostas em galerias criadas nos corredores de outros ambientes do IPHC, para que todos possam contemplá-las.

“Expondo, eles podem ter a sensação e responsabilidade de que o trabalho tem que ser bem feito, com senso estético”, justificou a mestre. E os pequenos aspirantes a artistas levam isso tão a sério que já tiveram seus trabalhos expostos no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC). Isso aconteceu em 2017, na ocasião em que houve uma comemoração das obras de Thomaz Perina.

Impacto artístico e social

Para Fúlvia, o mais importante é que as crianças aprendam a expressar ideias e emoções por meio de seus traços. “A evolução deles é muito grande e em pouco tempo, elas têm desenvoltura para pintar, desenhar e isso as ajuda a se desenvolver como ser humano e se expressar com liberdade. Cada um tem seu estilo, seu traço único e puro, e isso é riquíssimo e deve ser incentivado em cada criança. A satisfação em aprender e conseguir desenhar bela e livremente é gratificante, meu melhor retorno”, disse com um largo sorriso a simpática e empolgada artista plástica, que sempre, estimula e valoriza a evolução de seus pupilos.

E a artista plástica tem razão. Para Alessandra Fiorini, assessora técnica do Departamento de Educação da Fundação FEAC e técnica de referência para o IPHC, um dos maiores educadores do nosso tempo, Sir Ken Robinson, tem chamado a atenção do mundo sobre a visão que temos da inteligência. “Basicamente, ele diz que nós pensamos o mundo de todas as formas que o vivenciamos: visualmente, auditivamente, sinestesicamente. Então, proporcionar às crianças experiências tão amplas por meio das artes é algo que alimenta a capacidade humana – o que é maior e mais rico do que a inteligência”, avaliou.

Assim, a artista plástica que diz ter começado a carreira aos quatro anos de idade desenhando na calçada de casa com carvão que era usado pela mãe para cozinhar e tinha como expectadores de suas obras padres, freiras e fieis que passavam a caminho da igreja que ficava próxima, vai compartilhando suas vivências e incentivando as crianças a terem gosto pelo mundo das artes, assim como seus pais sempre a estimularam a seguir a carreira. “Que a arte as inspirem para a vida”, é o que deseja.

Fortalecimento de Vínculos

O IPHC é uma das entidades que recebe Apoio Institucional da Fundação FEAC através do Programa Fortalecimento de Vínculos, iniciativa que investe na qualificação de ações integradas de cultura, esporte e cidadania com o objetivo de prevenir o agravamento da vulnerabilidade social e reforçar os vínculos familiares e sociais protetivos.

Saiba mais sobre o Fortalecimento de Vínculos: www.feac.org.br/fortalecimentodevinculos/

Saiba mais sobre o IPHC: ceak.org.br/iphc/


Acessar

Resetar senha

Voltar para
Acessar