As Maravilhas do Mundo de Alice e seus tecidos ecológicos


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Vocês lembram de Alice? Alice, a personagem do livro de Lewis Caroll, que persegue o coelho o tempo todo, sem nunca conseguir alcançá-lo. E que nessa busca pelo tempo, em seu caminho, em vários momentos, lhe aparece o gato de Cheshire com seu sorriso misterioso, despertando e lhe causando questionamentos. Lembram? Não é dessa Alice que o texto abordará, embora haja um pouco dessa Alice, e de seus personagens, na Alice que iremos conhecer.

A nossa Alice, Alice Beyer Schuch, nasceu no sul do país, em Porto Alegre. Logo cedo, o seu interesse por tecidos foi despertado – aos 7 anos de idade, ganhou a sua primeira máquina de costurar. Em 2001, iniciou o curso profissionalizante no Senai de Moda e Design de Porto Alegre. E em 2009, começou o Bachalerado Fashion Design na Universidade Feevale de Novo Hambrugo. Em julho deste ano, conclui o curso à distância de Design de Moda na Style Design College, na Itália, depois de passar pela China, Alemanha e contatos na Finlândia… eu explico. Alice,não entrou na toca do coelho branco. Ela foi ali e volta já.

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O “gato de Cheshire” de nossa Alice era chinês. O convite para ir trabalhar e viver na China veio de forma inusitada. Estava trabalhando num cruzeiro para pagar os estudos quando surgiu a oportunidade de substituir uma amiga num escritório de uma grande firma de acessórios brasileiros. Essa fase durou dois anos, e lhe permitiu ter a real dimensão do ambiente que estava se envolvendo. Acabou por tomar a importante decisão de sua vida: trabalhar com moda sustentável.

Em 2014, iniciou um Mestrado Internacional em Sustentabilidade na Moda em Esmod Berlin, Alemanha. Com o suporte da Universidade Aalto, da Finlândia, desenvolveu uma coleção de moda baseada no processo de reciclagem química de algodão com uso de solvente totalmente ecológico. A universidade da Finlândia vem estudando, já há algum tempo, a possibilidade de se utilizar o que se chama de química verde, substituindo solventes tóxicos por opções não tóxicas como os líquidos iônicos (que na verdade são sais orgânicos em estado líquido). E, no decorrer do processo, não há escoamento de solventes ou desperdício de água.

Estamos mais habituados a contemplar as ações de um projeto quando analisados pelo seu viés mercadológico, ou, os resultados finais de um projeto. O processo, o meio, a fase intermediária, na maioria das vezes, não nos chama atenção, ou não nos interessa. É disso que essa pesquisa trata. Do meio, e não do fim, mas que irá impactar muito mais significativamente em seu fim do que muitos outros projetos.

Temos por conveniência e preguiça, apreciar o que está acabado. Concluído. O que nos chega de “mãos beijadas”, sem nos ater em seu processo e sua complexidade e importância. Mas, se apresentamos números e diagnósticos, as coisas começam a ter uma importância maior. A “coisa muda de figura”.

Ninguém desconhece a importância da água e o que ela proporciona ao ser humano e ao meio ambiente. Ao mesmo tempo, ninguém há de negar que a população irá aumentar e os recursos naturais se mostram escassos, finitos. É necessário se preocupar com o que nos espera daqui 20, 50, 100 anos. E a previsão é que, em 2050, a população mundial deva chegar a 9 bilhões de habitantes. Se a água é necessária para as lavouras e consumo, a indústria de moda também precisa dela.

O algodão é a fibra têxtil natural mais utilizada, com cerca de 26 milhões de toneladas por ano e em sua capacidade máxima. Com um aumento anual de 10% em sua demanda, é necessário encontrar alternativas para solucionar essa equação. Além disso, o descarte têxtil, hoje, representa 80%. Vamos pensar além do algodão!
E se utilizássemos fibras regeneradas, provenientes de recursos renováveis como leite, soja ou madeira como alternativa? Ou se em vez de novos recursos, explorássemos o descarte? Se víssemos nos números apresentados acima uma oportunidade maior, aproveitando os 80% de rejeite para criar outro tecido de qualidade a partir daí?
Foi nesta ideia que Alice se baseou e, com o suporte da universidade da Finlândia, fez uso de uma alternativa de reciclagem aplicando-a ao design de moda.

Usar descarte têxtil para a produção de novos têxteis por intermédio de processo químico já vem sendo praticado há anos em sintéticos. Mas a reciclagem química de material natural é um assunto recente que ganhou maior destaque quando a Universidade Aalto da Finlândia venceu o H&M Global Change Award de 2015 – mais de 2700 inovações de mais de 112 países concorreram e o prêmio foi de R$1 milhão para dar continuidade a pesquisa e o desenvolvimento da nova tecnologia. A universidade desenvolveu um processo especial para a dissolução da celulose.

“Usando um solvente ecológico e não tóxico, foi criado um processo que permite a produção de fibras de alta qualidade usando descarte têxtil de algodão, comparáveis com o toque do Tencel®, mais ainda mais resistentes. Este fato já é por si só algo extraordinário, mais podemos pensar mais adiante…” – explica Alice.

Alice, então, criou uma minicoleção – Further-textile rebirth catalyst -, exemplificando o uso do reaproveitamento do algodão e incorporando o seu projeto numa economia circular, aquela que considera o final do ciclo de vida de um produto como o início de uma nova etapa, ou seja, sua matéria prima está sempre em uso.

Utilizou-se, ainda, do conceito de monomaterialidade – quando uma roupa é feita de apenas um composto básico – toda a peça é feita com materiais de 100% celulose – tecidos, linhas, acabamento, entretelas, botões – e pode ser usada em sua totalidade como matéria-prima para um próximo processo de reciclagem química.

A história de nossa Alice não termina com o despertar para tomar um chá por sua irmã, revelando que sua aventura era apenas um sonho de criança prestes a se tornar adolescente. É o despertar de uma profissional comprometida com as condições necessárias para o bem-estar da população, buscando associar o uso de novas tecnologias para garantir um consumo mais consciente e sustentável, rompendo com a ideia do consumo descartável e rápido dos produtos. Um verdadeiro sonho que se torna realidade num mundo onde não há apenas uma Alice.

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Fotos: Giuseppe Triscari / M Simian / Arquivo

Cacá Valente é designer, mestre em história da arte, produtor e gestor cultural


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