Iniciativa em SP debate sobre pessoas trans no mercado de trabalho e na área de TI


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No último sábado (2), acompanhamos a 3º edição do </> Juntos na TI, uma iniciativa em SP que debate sobre pessoas trans no mercado de trabalho e na área de tecnologia da informação. Além de colocar o assunto em pauta, tocar em feridas e pensar em melhorias, o evento tem como propósito conectar, de fato, empresas e profissionais transexuais, travestis e transgêneros.


Ouça sobre essa importante iniciativa! Clique no play acima!

O dia contou com workshop prático de HTML e CSS, além de painéis com foco em trajetórias profissionais e no enfrentamento da discriminação transfóbica dentro do ambiente de trabalho. Depois, a palavra foi passada para o outro lado do balcão, no qual as empresas participantes deram exemplos de como exercem a inclusão e como contornam questões como a discriminação sofrida pelas pessoas trans por outros funcionários e também situações cotidianas, como direito ao uso do banheiro e ao nome social.

Um dos desafios, entre tantos outros, para aprimorar os direitos das pessoas trans e melhorar sua relação com o mercado de trabalho, é a falta de dados oficiais sobre essa parcela da população, até mesmo por parte do IBGE. Essa questão foi levantada pelo professor de educação fundamental Victor Augusto Vasconcellos, que elaborou um artigo focado no assunto e compartilhou suas constatações e frustrações. “A maior parte das pesquisas relacionadas às trans diziam respeito a DST e Aids. O primeiro desafio que notamos em relação ao acesso no mercado de trabalho é o preconceito e a transfobia. O segundo é o uso do nome social, que enfrenta problemas por causa do nome civil na documentação. O terceiro é o uso do banheiro e vestuário, e o quarto é a baixa escolaridade e a evasão escolar”.

Mesmo sem números governamentais ou federais, já temos algumas colocações que assustam: sabia que 90% das pessoas trans já tiveram que recorrer à prostituição para sobreviver e não por opção? A estimativa feita pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) foi reforçada durante a fala de Daniela Andrade, funcionária da ThoughtWorks, consultoria de tecnologia que organizou o evento.Fui expulsa de casa aos 18 anos, onde eu era espancada para virar homem. Sempre tive que entender que se eu precisasse de um real, teria que trabalhar para isso. Estou numa área homofóbica, machista, misógina, composta por homens brancos, burgueses, heteronormativos e cisgêneros. Foram 19 anos até eu encontrar um lugar onde eu pudesse falar abertamente sobre transexualidade”, disse.

Conversando com a participante e integrante do projeto Transcidadania, Bruna Pires, de 23 anos, pude comprovar rapidamente o quanto esse caminho é realmente um “lugar-comum” para as pessoas trans, que não encontram oportunidades e têm seus direitos negados o tempo inteiro. A realidade dessas mulheres não é nenhum conto de fadas, mas elas erguem a cabeça, lutam pela própria sobrevivência e estendem a mão para ajudar as outras.

“Sempre dependi de mim mesma e teve momentos que precisei me prostituir. Eu não tenho nada contra, mas eu não quero isso pra minha vida. E não quero que as próximas gerações só tenham essa opção. Acredito muito que posso fazer algo para que isso não aconteça, então quero me especializar de todas as formas que eu puder para ajudar pessoas a não passarem pelo o que eu passei”.

A transição de Bruna começou aos 13 anos, mas desde os 8 ela já sabia que não era “ele”. Aos 10, saiu da casa da mãe, que não aceitava o seu verdadeiro eu.Quando você faz isso, sufoca o sonho de uma pessoa. A sociedade tem medo do que pode ser isso, então simplesmente nos diz que não podemos. Eu vou voltar para a minha cidade quando estiver preparada pra isso, financeiramente e intelectualmente. Hoje estou aqui porque sem o conhecimento, nem que seja mínimo, de tecnologia você não vai fazer parte do futuro, né. Tudo gira em torno do que vai acontecer amanhã”.

Doce, determinada, tagarela e sorridente, ela deposita suas energias no que acredita, nutrindo o desejo de arrumar um trabalho em breve. “Gosto de ajudar as pessoas, quero fazer uma faculdade de assistência social e mais pra frente uma de Direito, para uma complementar a outra. Quero crescer, ter uma carreira, não apenas arrumar um emprego”, ponderou.

Essa mesma afirmação foi reafirmada durante os painéis e a fala de Daniela. Inclusão não é só colocar a pessoa dentro da empresa. É plano de carreira, salário compatível com a função, respeito entre os funcionários. Não é apenas dar uma oportunidade e sim manter e dar possibilidades para essas pessoas dentro da empresa”.

Para Angela Lopes, ex-coordenadora de Políticas para LGBT de São Carlos, abrir oportunidades é não só um dever do Estado, mas uma medida prevista por lei. Empregabilidade é o pilar motor da subsistência. Falar de emprego é falar de existir. O direito pleno ao trabalho é constitucional e infelizmente sofremos um déficit que é promovido pela própria instituição pública, porque é ela quem legitima esse direito. Mas ainda assim, é muito interessante que a iniciativa privada proporcione eventos como esse”, disse a mulher cacheada que foi expulsa de casa aos 12 anos de idade e hoje, aos 43 anos, é Coordenadora de Inclusão e Diversidade da Rede de Farmácias Nossa Senhora do Rosário.

Engraçado como cada fala do evento se justificava e se reafirmava minutos depois, quando eu estava papeando com alguém. Aos 27 anos, a administradora Helena Zanini conseguiu recentemente o primeiro emprego com carteira assinada fora da área de telemarketing e dentro de seu campo de atuação. Agora estou um curso introdutório de programação para mulheres e pretendo continuar estudando. Quero aplicar tecnologia no setor público para auxiliar nessa questão, porque é onde tem mais poder para mudar as coisas e emprega um terço da população. Deve ser uma ação conjunta entre poder público e sociedade civil”.

Mesmo que tais questões ainda estejam engatinhando, o importante é que já tivemos avanços, desde as pequenas gentilezas do dia a dia até as grandes corporações, que neste caso se colocaram à disposição para ouvir essas pessoas e, quem sabe, contratá-las. Enquanto falava sobre suas experiências, a funcionária da Dell Michelle Soares, mostrou que existem sim, razões para acreditar. Uma pessoa me parou no supermercado e pediu pra me abraçar, porque ela viu na novela da Globo a história da Ivana (de A Força do Querer) e falou: ‘antes eu não entendia, mas agora eu sei o que você está passando‘. Isso nunca tinha acontecido comigo! Então a mídia, as empresas, os grupos que debatem e mostram isso estão a nosso favor.”

Daniela não perdeu a oportunidade de complementar seu discurso engajado com um sopro de esperança. “A transexualidade não me resume e não deveria, dentro de um processo seletivo, impedir a pessoa de entrar em um trabalho formal. Fui a primeira mulher trans a entrar na empresa onde estou, dentre todas as unidades do Brasil. Não tenho dúvidas de que nós vamos abrir caminhos para as próximas gerações.

Fotos: Brunella Nunes


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