Jovens cristãos fazem blog para mostrar que Malafaia e Feliciano não os representam


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Existem pessoas que tem o dom de transmitir coisas boas em qualquer coisa que façam, seja pela postura em relação à vida ou na forma que resolvem os “pepinos” no cotidiano do trabalho.

A Mari Galindo é uma delas, nos conhecemos há dois anos, quando ela me convidou pra fazer uma palestra e contar um pouco do Razões, e na mesma ocasião conheci o Du Migliano, um dos fundadores da 99jobs.

Quis o destino que esse no começássemos a trabalhar juntos, na 99jobs, e com isso pudéssemos ter um contato mais próximo. Somos um dos mais bagaceiros loucos da turma da 99, sempre falando bobabens e nos divertindo com histórias do cotidiano.

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Essa é Mari que eu conheço.

Com o tempo, em nossas conversas, descobri que ela é evangélica, e (confesso) que achei bem peculiar, pois ela não tinha nenhuma daquelas atitudes que as pessoas geralmente rotulam sobre quem é cristão. Pelo contrário, ela é a pessoa mais cabeça aberta que conheci na vida, além de nunca falar mal de ninguém. Nos vários papos, ela me falou que queria fazer um blog onde pudesse falar sobre esse cristão que as pessoas desconhecem, pois só que as que conhecem são aqueles que estão na esfera pública falando atrocidades – que não vale citarmos aqui.

Pois bem, ela então se juntou com o namorado e músico Paulo Neitzke e o amigo Gustavo Neves, analista de sistemas, e fundaram o blog The World Has Power, que comunica um evangelho contemporâneo.

Mari frequenta a Igreja Batista da Vila Gerte, em São Caetano do Sul (SP). Ela administrava a página de um dos ministérios da igreja, onde compartilhava conteúdos que não costumam ser publicados na maioria dos meios de comunicação.

O blog entrou no ar em outubro de 2015 e possui uma série de conteúdos que propõem a renovação da igreja e a desconstrução do evangelho que circula na mídia tradicional.

Na entrevista a seguir que ela concedeu ao Daniel Froes, nosso redator aqui do Razões, ela conta um pouco da sua trajetória pessoal, sobre a criação do blog, suas propostas e o que ela acha de grupos que usam a religião para construir um projeto de poder antidemocrático.

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Quando foi criado?

O blog foi criado em maio deste ano, mas foi ao ar em outubro, pois queríamos ter um volume de publicações antes de divulgar.

De onde partiu a ideia?

Eu administrava uma fanpage de um ministério da minha Igreja, por conta disso estava sempre em busca de assuntos para compartilhar. Chegou um momento que era mais do mesmo, daí percebi que os temas estavam meio distantes da realidade, era sempre crente falando pra crente ou posicionamentos sobre assuntos polêmicos. Mas, por outro lado, via que existia muita coisa bacana acontecendo que não era publicado. Foi assim que surgiu a ideia de trazer à tona esse conteúdo que ficava só nos bate-papos e troca de links entre os amigos.

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Quais as pautas principais?

Nós temos dois posicionamentos: para as igrejas, queremos promover um envolvimento com a cultura, tirar o “não faça”, “não toque” e “não pode” e quebrar um pouco essa imagem de crente chato, mostrando que outros cristãos já estão fazendo isso. Uma linha envolvendo inspiração e prática ao mesmo tempo.

Para os não cristãos, queremos apresentar um evangelho que não é exibido na mídia, que passa longe dos falsos milagres, dízimos homéricos e rivalidade com homossexuais. Então apresentamos projetos relevantes encabeçados por cristãos, estudos contextualizados e ações que têm o poder de engajar muito mais pessoas do que o quebra pau de Facebook em torno da parada gay, mas que infelizmente não são conhecidas, como por exemplo a publicação que fizemos sobre como ajudar os refugiados sírios, com os pontos disponíveis em São Paulo e o que eles ofereciam (conheça aqui). A intenção é focar no que nos aproxima e não no que nos afasta.

Acreditamos que o evangelho que é odiado hoje nem é o evangelho, distorceram tudo e assinaram como se fosse Jesus. Mas se você conhece o que Jesus fala e aceita o que falam em nome Dele então você é cúmplice do mesmo crime, é esse “silêncio dos bons” que queremos quebrar.

O blog produz/participa de algum encontro/evento com essa proposta, capaz de reunir mais pessoas para esclarecer dúvidas, eliminar estereótipos?

Ainda não, pelo menos não assinado pelo blog. Como ainda é recente queríamos amadurecer um pouco mais no online, mas já temos algumas ideias de fazer o blog ao vivo para debater com outras pessoas ou fazer participações em eventos e conferências que já existem abordando essa temática.

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Quem está contigo nesse projeto?

Deus (assim espero hehehe), meu namorado, Paulo Neitzke, e um amigo, Gustavo Neves. Temos alguns amigos que nos ajudam com traduções e indicações de conteúdo também.

O que você acha da bancada evangélica no congresso?

Triste, mas não me espanta. Por muito tempo instaurou-se na igreja o distanciamento da religião com a política: ao invés de levarmos os princípios de justiça social, de dignidade e honestidade, claramente descritos na Bíblia, levamos pessoas alienadas politicamente e teologicamente, que enxergam que o dever delas é defender a própria opinião ao invés do bem comum. O pior é que ainda são poucas as igrejas que buscam reverter esse quadro. A sensação predominante é que não devemos nos envolver com isso. Outra coisa que sou totalmente contra é impor sua fé; a Bíblia é válida para quem acredita nela. Se você não acredita, não tem porque eu te obrigar a viver como ela ensina, muito menos utilizar do poder público para isso. A bancada representa uma minoria, a maioria dos cristãos não se sentem representados ou nem sabem quem os “representam” lá. Por outro lado, o movimento de empreendedorismo social está ganhando bastante força no nosso meio e de certa forma é um reflexo do Brasil, nos afastamos do poder público para fortalecer iniciativas “privadas”.

Por que vivemos tempos de intolerância religiosa e o que podemos fazer? pessoas de todas as religiões, para mudar essa realidade?

Essa é uma pergunta com duas respostas, se formos na linha bíblica e falarmos a respeito dos fins dos tempos a resposta seria que vivemos isso porque é o meio do fim, e que não é possível mudar essa realidade, pelo menos não no ideal que gostaríamos, seria uma visão do tipo: se você acha que está ruim saiba que vai piorar. É o Apocalipse, tudo acaba para começar de novo. Se partirmos para uma visão mais histórica é possível perceber que intolerância religiosa existe há muito tempo, o próprio Cristo foi vítima disso, simplesmente porque o combustível da intolerância é o ego e ódio, sentimentos bem presentes na vida humana, mas nesse caso minha resposta seria mais otimista, afirmando que o conhecimento e volume de informações que temos acesso hoje pode nos ajudar a pelo menos enxergar o outro como um próximo, e isso já faria uma grande diferença.

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Fotos: Arquivo Pessoal


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