Minha patroa foi a nossa faxineira


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A Sabrina Bittencourt atualizou sua foto do perfil na última quarta-feira (29 de Agosto) e na legenda ela narrou uma história poderosa sobre como aprendeu sobre protagonismo e os sábios ensinamentos com Rosinha, a faxineira que trabalhou em sua casa.

Vamos reproduzir na íntegra (autorizada previamente) para que você, assim como eu que li esse texto, se inspire nas pessoas que realmente importam:

MINHA PRIMEIRA PATROA FOI A NOSSA FAXINEIRA (e porquê nunca deixei ninguém limpar meu vaso sanitário depois de adulta)

“Rosinha. Teria hoje uns 55 anos. Ela me ensinou sobre sororidade, dignidade, colaboração e excelência no trabalho. Foi minha primeira patroa. Eu tinha só 13 anos de idade, branca, classe média, estudante de colégio particular. Ela tinha acabado de acolher uma bebê deixada na porta de sua casa, a Solange e morava onde Judas esqueceu as botas e os cadarços.

Acabávamos de nos mudar de São Paulo para o Recife, em 1993. Nunca tivemos empregada doméstica ou faxineira. Um dia meu pai voltou do trabalho e disse que a esposa do rapaz de serviços gerais havia perdido o emprego. Rosinha era negra, enfermeira e tinha 30 e tantos anos. Estavam pagando sua casa a prestações e estava disposta a fazer faxina para pagar a Caixa Econômica Federal. Nós vivíamos de aluguel. Minha mãe concordou em dar trabalho uma vez por semana.

Chegou Rosinha e sua bebê em casa. Nos apaixonamos por elas. Eu era sua ajudante, porque minha mãe queria que eu aprendesse a fazer uma boa faxina, para quando eu me casasse, o marido ver que eu era “prendada” (doce ilusão!).
Na segunda vez em que ela estava lá me disse com um misto de raiva, vergonha e indignação, enquanto lavava um dos banheiros do nosso apartamento: “minha mãe foi cozinheira em casa de família a vida toda e pagou minha faculdade com sacrifício para eu não precisar fazer o mesmo que ela. Sou a primeira a ter diploma universitário na minha família. E olha você como é a vida menina… agora depois de formada estou limpando merda dos outros”. Aquela conversa me marcou para o resto da vida! Senti ali uma lança de uma mulher negra, forte, inteligente, sagaz, que foi e é meu norte na vida para uma porção de assuntos ligados às mulheres, direitos, reparação, privilégios, etc.. Imagino as promessas que deve ter feito a si mesma e à mãe quando entrou na faculdade!

Na minha inocência e ímpeto juvenil da época, perguntei à ela o que gostaria de fazer, além de contribuir na economia familiar para pagar a prestação da sua casa. Ela me disse que a mãe tinha doença renal crônica e que seu desejo era fazer uma pós graduação em enfermagem com esta especialidade. Mas que por falta de dinheiro e que agora tinha a bebê não poderia se dar ao luxo de sonhar…

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Passei a semana montando um plano para ela ter mais trabalho e renda. Lembro de fazer em papéis coloridos propaganda da Rosinha e colocar debaixo da porta de todos os apartamentos do nosso condomínio e dos prédios vizinhos. Naquele tempo ainda não existia celular. Deixei o telefone da nossa casa e passei a atender alguns pedidos para encher sua agenda. Organizei sua agenda. Em um mês ela só tinha o domingo livre. Então fiz uma proposta à ela: “Eu cuido da sua bebê todos os dias para você trabalhar” (era férias da escola). Rosinha me respondeu: “E eu vou te pagar por isso. Não quero favor. Se você for uma boa babá para minha filha, eu posso fazer uma boa recomendação para você”. Ah… É claro que naquela época eu não tinha dimensão do quanto esse acordo faria a diferença na minha formação como Ser humano. Aceitei feliz, mas eu era apaixonada pela Solange e todo o dinheiro que a Rosinha me dava, eu comprava presentes pra menina. Ela me dava bronca quando eu não combinava as roupas com os sapatinhos. Ou quando não colocava lacinhos no cabelinho da filha. Era exigente comigo!

No semestre seguinte, Rosinha começou a pós-graduação, mas dois meses depois desistiu, porque ficou grávida e era uma gravidez de risco. Sofria de pressão alta e era diabética. Nasceu o David (daí vem o nome do meu filho…). Às vezes ela deixava a Solange comigo. Fez uma carta à punho que eu levava nas entrevistas de emprego toda orgulhosa. Guardo até hoje “Me chamo Rosa Almeida dos Santos, sou enfermeira e esta moça trabalhou como babá da minha filha por alguns meses. Ela é responsável, gosta de criança, inteligente e sabe falar espanhol. É um pouco geniosa, mas isso pode ser uma qualidade se você espera uma líder e não uma pessoa submissa na sua equipe. O telefone de contato é xxxxx… Atenciosamente.” Rosinha não era de muito blablabla, falava as coisas na cara. Um dos meus tesouros na vida é esta pequena carta, além de tudo o que aprendi com ela sobre dignidade.

Toda essa “introduçao” para dizer que estou explodindo de alegria hoje, por saber que sua filha Solange, se formou em Direito e está entrando numa pós sobre Direitos Humanos.
Rosinha descansa em paz.

(Nunca pense que o sonho de uma menina é limpar o banheiro dos outros… Com isso internalizado, creio que todos somos capazes de fazer algo para que esta desigualdade social acabe. Cada ação é valiosa para transformar um círculo vicioso num círculo virtuoso de reparação de direitos às pessoas negras, oferecendo acesso digno à oportunidades de renda e educação).”

Em conversa com Sabrina (que aliás, depois faremos uma matéria falando de tudo que ela está envolvida que é sensacional), ela nos disse que Rosinha foi fundamental na sua adolescência: “para eu fazer todo o trabalho que fiz durante os últimos 20 anos. Se recebi um Doutorado Honoris Causa, meu discurso foi recordando à ela e por não ter abaixado nunca a cabeça”.


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