A educação como caminho para combater a intolerância de gênero


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“Acredito que o primeiro passo é desconstruir a ideia de que existe “coisa de menino” e “coisa de menina”, azul pra um e rosa pra outra. É preciso que pais e educadores se desconstruam primeiro, para que consigam ter esse diálogo com as novas gerações.”

É com essa reflexão que começamos a entrevista com o jornalista Ricardo Lima, especializado em cultura pop e ativismo digital e criador do site Nada Errado, do podcast All Inclusive Comics e do canal Cataploft.

O Nada Errado é um veículo de reflexão sobre cultura LGBT, “escrito por pessoas que acreditam, acima de tudo, no poder do amor para mudar o mundo”. Apresentado por Laranja Lima e Poderoso Porco, o All Inclusive Comics discute a inserção das minorias sociais nos produtos que consumimos. Enquanto o Cataploft traz questões relativas à comunidade LGBT e minorias em geral mostrando como elas têm ganhado espaço no universo nerd.

Na entrevista a seguir, Ricardo, que é gay, preto e gordo, fala sobre a desconstrução do binarismo homem e mulher; da atenção que a indústria do entretenimento tem dado aos LGBTs; das diferenças entre ser um gay branco e classe média e um gay preto e favelado no Brasil; dos preconceitos internos à comunidade LGBT e sobre a urgência de políticas públicas para erradicar ou pelo menos minimizar casos violentos de homofobia e transfobia no país.

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1) Gênero é um papel social e tem nada a ver com o sexo. Precisamos falar disso em casa, na escola, desde cedo, mas como construímos esse diálogo?

Acredito que o primeiro passo é desconstruir a ideia de que existe “coisa de menino” e “coisa de menina”, azul pra um e rosa pra outra. É preciso que pais e educadores se desconstruam primeiro, para que consigam ter esse diálogo com as novas gerações. Na nossa sociedade, sexo é dos maiores tabus. Existe um distanciamento com relação ao sexo, não tratamos como uma coisa normal, natural. E isso se reflete na educação que damos às nossas crianças. Não ensinamos as crianças a lidarem com naturalidade com sexualidade e sexo.

Só quando conseguirmos encarar, de frente, o fato de que o ser humano é um ser sexual, vamos conseguir dialogar sobre o assunto. Não dá mais pra tratar a sexualidade humana como algo que “só ocorre entre quatro paredes” e “para fins reprodutórios”.

Paralelamente, é preciso que se ensine respeito. Educamos nossos filhos para serem respeitosos com a natureza, com os mais velhos, com o meio ambiente. Mas não ensinamos a respeitar a sexualidade. Enquanto sexo for enxergado como um tabu ou uma piada, não conseguiremos dar o próximo passo.

2) Como você enxerga a atenção que a indústria do entretenimento, do consumo, tem dado à comunidade LGBT?

O mercado publicitário tem se voltado às minorias, de fato. E isso precisa ser analisado sob dois pontos: o primeiro é que as agências perceberam que estes públicos são carentes de representatividade. O segundo é que as agências perceberam que estas pessoas são, igualmente, consumidores.

Sendo assim, a publicidade representa essas minorias com o objetivo de vender mais. Este é o papel da publicidade no mundo, não podemos nos enganar. É legal e importante que nos enxerguem como público consumidor – o que somos, de fato – e que nos representem. Movimentos nas redes sociais, como a hashtag #SeEuNãoMeVejoNãoCompro, mostram que estamos prestando atenção na representatividade.

Da mesma forma, a indústria do entretenimento percebe que, se não há representatividade nos produtos culturais, nós simplesmente vamos deixar de consumi-los. E vamos migrar para espaços onde nos sintamos representados – e é aqui que a internet ganha força, porque nas redes sociais nós escolhemos os produtos que vamos consumir. Escolhemos o que, quem e quando vamos ouvir. Isso é maravilhoso e mostra para os grandes produtores que eles estão perdendo audiência, o que reflete nos ganhos com publicidade. E aí voltamos lá ao primeiro parágrafo desta resposta-textão.

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3) Ser gay, branco e classe média no Brasil é diferente de ser gay, preto e favelado? Existem privilegiados no meio?

Certamente. O gay branco de classe média usufrui de todos os privilégios sociais que qualquer outra pessoa de classe média tem, enquanto o gay preto e favelado enfrenta as mesmas questões que qualquer outra pessoa na mesma situação. O grande ponto, que nem todos percebem (ou escolhem não perceber) é que, aos olhos da sociedade machista e homofóbica, somos todos igualmente viados. Homofóbicos não ligam se você tem um carro importado ou se anda no metrô apertado e mora na periferia. A opinião deles sobre a sua vida, enquanto gay, é a mesma: você é um ser “menor” e “não merece estar no lugar onde está”.

Além disso o gay branco classe média se aproveita, muitas vezes, de sua passibilidade para viver a vida sem se preocupar com a violência sofrida pelos gays periféricos. É claro que todos temos nossas lutas, mas não há como negar que a luta dos LGBTs na favela é bem mais difícil que a da classe média.

Acho que falta empatia nas pessoas. Tudo bem você viver com seus privilégios, mas negligenciar os problemas alheios e passar por cima deles, isso é um problema.

4) Pode gerar estranhamento, mas casos de transfobia são bastante comuns dentro da comunidade LGBT. Gays, lésbicas e bissexuais, de vítimas da intolerância, passam a alimentar outro tipo de violência. O que você acha sobre isso?

Precisamos passar por um processo de desconstrução interna, reconhecer nossos privilégios e encarar que vivemos em um mundo muito mais complexo do que imaginamos. A intolerância, preconceito e violência dentro da própria comunidade é um reflexo da sociedade em que vivemos.

Este é um problema, acredito eu, estrutural. Somos criados, desde muito cedo, para sermos preconceituosos. Quando nos tornamos adultos, acabamos reproduzindo estes discursos que aprendemos lá atrás. Isso acontece com todo mundo, independentemente da orientação sexual.

É errado pensar que, por sermos chamados de “comunidade LGBT”, somos uma comunidade em que as pessoas vivem e se comportam de maneira igual. Somos humanos, com defeitos e qualidades. A única coisa que nos une, de fato, é a visão que a sociedade tem sobre nós.

Espera-se que pessoas que fazem parte de minorias socialmente prejudicadas tenham um pouco mais de empatia, justamente por conseguirem se relacionar com a realidade alheia. Mas, infelizmente, alguns preferem permanecer no alto de seus privilégios e atacar quem não vive nas mesmas condições.

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5) Como erradicar a homofobia e a transfobia vivendo em uma sociedade patriarcal, machista, que cultua a hierarquização do gênero sexual? Faltam políticas públicas nesse sentido?

Precisamos começar do começo, como já disse. Falar sobre sexo e sexualidade de maneira aberta e natural com crianças e adolescentes. Não tratar o sexo como um tabu gigantesco.

Acredito que, sim, faltam políticas públicas de maior impacto no ambiente educacional. E as iniciativas que acontecem são barradas por políticos retrógrados e decisões que não levam em conta o fato de que, para além de sermos LGBTs, somos cidadãos e merecemos ser tratados com o mesmo respeito que qualquer outra pessoa.

Precisamos alavancar a ideia de que não queremos novos privilégios, queremos, apenas, nos beneficiar dos privilégios que todos os outros cidadãos possuem.

Curtiu a entrevista? Separamos um vídeo super bacana do Ricardo, que já teve mais de 100 mil visualizações, para finalizar o nosso papo.

COISAS QUE VOCÊ PENSA ENQUANTO FAZ AS UNHAS

Nada contra as heteronormativas. Tenho até amigos que são.

Publicado por Cataploft em Sexta, 29 de janeiro de 2016

 

[Nota da Redação]

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