Cantar é terapia indicada para idosos com perda da audição


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(Por Claudia Corbett)

Era dia de ensaio do Coral. A turma estava completa, aguardando as últimas instruções da regente que acabara de chegar. Os burburinhos mesclavam assuntos como repertório, receitas, dicas de passeios e cor da roupa da próxima apresentação.

Esta atividade, que acontece quinzenalmente às quartas-feiras, reúne um grupo de idosos na Associação de Pais e Amigos dos Surdos de Campinas (Apascamp), entidade parceira da Fundação FEAC. A iniciativa integra também senhoras e senhores atendidos pela instituição e que têm a audição comprometida ou estão vivenciando o início do processo de perda. E isso, na terceira idade, pode gerar angústia e problemas de comunicação, além de levar ao isolamento social progressivo que se não for cuidado chega à depressão.

“A formação deste Coro proporciona um espaço de convivência, fortalecendo vínculos e evitando assim situações de isolamento” destacou Natália Valente, assessora social do Departamento de Assistência Social da Fundação FEAC.

Quando se fala em pessoa com deficiência auditiva se pensa no surdo profundo, aquele não escuta e só se comunica por meio de Libras. “Mas não é assim, a pessoa com deficiência auditiva vai desde a surdez mais leve até a mais profunda. Parte deste idosos que frequentam a atividade musical tem presbiacusia, diminuição da capacidade de ouvir por causa do processo degenerativo relacionado ao envelhecimento natural do indivíduo”, esclareceu Kelly Cardoso Augusto, fonoaudióloga e coordenadora da Apascamp.

Segundo Kelly, os idosos demoram para procurar um especialista quando percebem que não estão ouvindo bem. Esta falta de diagnóstico precoce, que avalia a perda da audição, pode agravar para a surdez definitiva. “E quando isso acontece, a maior dificuldade é a aceitação do uso do aparelho. Para eles, o aparelho está relacionado com velhice muito avançada”, concluiu.

O Coral surgiu de um desejo da instituição. Muitos dos atendidos já se sentiam muito solitários. “O cantar é muito rico porque ajuda muito na parte auditiva. Eles começam a prestar atenção em outros sons e isso melhora todo o processo auditivo. Toda esta sintonia se faz no cérebro, é como se eles estivessem fazendo uma terapia para o ouvido”, salientou a fonoaudióloga.  Além disso, a convivência e a troca de experiências entre eles contribuem para que aceitem a realidade desta fase que estão vivendo.

Terapia cantada

Formado por 20 integrantes, o Coral da Apascamp é composto, em sua maioria, por mulheres com mais de 65 anos. Dona Páscoa Vechiato, 75 anos, foi direcionada para cantar depois de fazer os exames audiológicos para diagnóstico. Mas não entrou sozinha, levou a filha Fátima, de 56 anos, para lhe fazer companhia.

A regente é voluntária. Luíza Pereira Freitas, 20 anos, está no 3º ano de Regência, no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. O Coral da Apascamp não é o único coral  para o qual a jovem dedica tempo e talento. Segundo Luíza, atividades com música, além de serem um momento de descontração, promovem a interação entre as pessoas. “Muitas pessoas não tiveram oportunidade de cantar quando eram mais jovens. E além disso, os idosos são animados e interessados”, relatou.

“Eu gosto de ocupar minha semana inteira como se eu fosse trabalhar. E como estava com um dia vazio eu resolvi vir cantar aqui na Apascamp”, explicou Maria Vita Siqueira, 70 anos.

O repertório do ensaio é composto por música popular brasileira (MPB), cirandas e cantigas. “Muitas das músicas que cantamos são nossas velhas conhecidas. Mas com o arranjo que a regente faz ficam mais bonitas”, comentou Dona Aparecida Domingos Ferreira. A senhora de 78 anos confessa que sua canção predileta é uma do Almir Sater, com a qual se identifica. E sorridente arrisca a primeira estrofe “Ando devagar porque já tive pressa…”.

O aquecimento começa. Depois da respiração alta e baixa os integrantes inspiram e soltam o ar nas letras s, f, x. Já preparados, abrem não só as pastas com as letras das músicas, bem como os pulmões para entoar o baião, ‘Eu só quero um Xodó’, do compositor pernambucano Dominguinhos.

[Nota da Redação]

Assistam nosso vídeo hilário da nossa visita a um asilo em SP onde os idosos se divertiram com a realidade virtual:

Saiba mais: www.apascamp.org.br


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