Coletivo “humaniza” a formação de estudantes do curso de medicina da UFSC


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Batemos sempre na tecla de que a medicina precisa ser “humanizada”. É uma necessidade urgente, que não só traz benefícios apenas para os pacientes, mas também para os profissionais da saúde.

O médico deve ser capaz de enxergar as necessidades reais do paciente, e não apenas os sintomas da doença. Muitas vezes, os pacientes são tratados com indiferença e distanciamento e isso faz com que eles tenham mais resistência ao tratamento. A humanização da medicina vai contra tudo isso.

Quando se trata o paciente com respeito e carinho, levando em conta sua condição individual, ele abraça o tratamento indicado pelo médico. As chances de cura da doença crescem consideravelmente.

É por isso mesmo que os cursos de medicina não devem focar apenas no lado técnico-científico da profissão. Eles devem ensinar aos futuros médicos a importância de compreender o ser humano como um todo.

Mas, se os cursos pecam muito nesse ponto, muitos estudantes de várias faculdades de medicina do país estão criando espaços autogestionados, os famosos coletivos, para humanizar sua formação.

Um desses coletivos é o Coletivo Humaniza, organizado por estudantes do curso de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Criado entre o final do ano passado e o início deste ano, o objetivo do coletivo é debater temas negligenciados na sua formação, como a defesa dos direitos humanos, a garantia da saúde como um direito de todos e a defesa do Sistema Único de Saúde.

Conversamos com a estudante Julia Machado, uma das participantes do coletivo, para conhecer um pouco mais sobre o Coletivo Humaniza. Na entrevista a seguir, ela fala como o coletivo foi criado e como ele se organiza, sobre sua relação com o curso e um pouco mais sobre a desumanização/humanização da medicina.

Quando o coletivo foi criado e como ele se organiza?

O coletivo nasceu de fato nas férias de verão entre 2015 e 2016. Éramos um grupo de colegas e amigos do curso de Medicina da UFSC que havíamos nos conhecido para montar uma chapa – a “Chapa Lótus” – de oposição ao Centro Acadêmico, durante as eleições em outubro de 2015. O objetivo que nos reunia e nos levou à construção dessa chapa na época foi a insatisfação com a ausência do debate sobre temas que consideramos fundamentais para uma formação que se diz “humanista” em teoria, mas que não é na prática. Queríamos ainda que houvesse espaço para a reflexão crítica sobre atos de discriminação e assédio moral que acontecem com frequência dentro do curso.

Entretanto, apesar da campanha ter aproximado um grupo de 60 alunos com as mesmas insatisfações e sonhos, e ter tido uma repercussão grande no Facebook e fora das paredes que cercam o bloco didático do Hospital Universitário, ela criou um clima de guerra no curso e seguiu um caminho muito diferente daquilo que tínhamos como objetivo inicial: estimular o debate. Campanha encerrada e eleição perdida, continuamos em contato buscando uma forma de “nos fazer ouvidos”. Foi aí que a ideia do coletivo surgiu: um grupo de alunos independente que, através da construção de diferentes espaços (palestras, rodas de conversa, intervenções artísticas, debates etc.), poderia trazer para a realidade cotidiana dos estudantes de medicina a discussão de cunho “humano” latentes à nossa formação pessoal e profissional, que muitas vezes são negligenciadas na nossa graduação.

Com que frequência acontecem as reuniões do coletivo?

As reuniões que chamamos de “organizacionais” acontecem quinzenalmente e entre cada uma delas buscamos sempre construir alguma atividade sobre o tema que achamos mais emergente.

Quais são as bandeiras do coletivo?

Podemos dizer que as bandeiras do Coletivo Humaniza são: a garantia da saúde como um direito; os direitos humanos, o combate à LGBTfobia, machismo, racismo, e qualquer outro discurso de ódio; a integração da medicina com as demais áreas do cuidado da saúde; a defesa de um currículo generalista, ético, humanista, crítico e reflexivo de fato e levar esses debates para fora dos muros das universidades.

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As reuniões se restringem apenas à comunidade acadêmica ou tem participação dos moradores “nativos” da cidade?

Parte dos nossos objetivos são “uma maior integração da medicina aos demais cursos do cuidado à saúde e de intervenções que aproximem os debates à comunidade”. Não restringimos as reuniões a ninguém. Acreditamos que todo ponto de vista e as diferentes áreas do conhecimento – sejam elas científicas ou culturais – só devem agregar às nossas discussões e reflexões. Talvez por que estamos nos estruturando e não somos muito conhecidos ainda, não temos nenhum morador da cidade participando das reuniões organizacionais do coletivo. Porém, alguns já compareceram às rodas de conversa e palestras que organizamos até agora.

Algum professor do curso participa das reuniões ou apoia o coletivo?

Nenhum professor do curso participou das reuniões organizacionais até então, mas muitos compareceram aos espaços abertos que construímos e/ou nos procuraram para manifestar apoio à nossa iniciativa.

A desumanização da medicina atende a que tipos de interesses e de quais grupos?

A desumanização da medicina acontece quando a prática médica deixa de ser focada na pessoa, tirando do professional de saúde a sensibilidade necessária para uma atenção integral em saúde. Esse processo se inicia uma vez que a saúde deixa de ser um direito e passa a ser um produto, um serviço para o qual se paga; e cuja gestão visa o lucro e não mais o bem-estar do paciente. Essa ótica e essa leitura sobre os serviços de saúde era a que predominava já quando, em 1910, as escolas médicas nos Estados Unidos sofreram uma reforma curricular brusca conforme o “Relatório Flexner” – como foi chamado – e que serviu de base para construção curricular dessas escolas no Brasil. O SUS surge em 1988 através da Reforma Sanitária com o objetivo de inverter esse processo e fazer da saúde, um direito. Já na constituição, a Lei nº 8.080/1990, prevê que “a iniciativa privada poderá participar do Sistema Único de Saúde (SUS), em caráter complementar.” Entretanto, o que vemos atualmente é a iniciativa privada crescendo cada vez mais de forma a competir com o SUS, e não de complementá-lo. Esse caminho segue num curso semelhante à realidade vivida hoje pelos Estados Unidos, em que 15% da população tem acesso nenhum a qualquer tipo de serviço de saúde e em que o trabalhador que perde três dedos em sua atividade tem que optar por qual dedo ele quer reconstruir – uma vez que ele não pode pagar pela reconstrução de todos…

Qual sua leitura do Sistema Único de Saúde (SUS)? Ele consegue humanizar a medicina?

O SUS, em teoria, é um importante meio de humanização da medicina, uma vez que ele tem como base a atenção primária com um importante enfoque na prevenção e promoção de saúde e preconiza a construção de uma relação longitudinal da equipe de saúde de família com a comunidade. Além disso, o SUS é um sistema de saúde universal, integral e equânime e que, portanto, torna a saúde um direito a todos os cidadãos brasileiros nas suas mais amplas esferas, adaptando-se a necessidade de cada um. Dessa forma, colabora no combate à visão da saúde como uma mercadoria, respeitando a individualidade de cada um e a visão holística do homem.

Entretanto, frequentemente acompanhamos notícias que não condizem com essa teoria, tendo em vista as fragilidades de um sistema que tem recebido investimentos cada vez menores. Nesse aspecto é importante estarmos atentos, por exemplo, à propostas como a PEC 143/2015, que permite a desvinculação de 25% da receita de estados e municípios até 31 de dezembro de 2023, e que se realmente posta em prática resultará em retrocessos no âmbito da saúde pública de forma a impedir que o SUS possa ser na prática tudo o que ele se propõe a ser em teoria.


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