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Filho ensina a pai que brinquedo não tem gênero sem dizer uma palavra

O garoto deu apenas um empurrãozinho e deixou que o pai chegasse a essa conclusão sozinho.


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As gerações mais velhas cresceram aprendendo que existe brinquedo de menina e brinquedo de menina. As mais novas começar ouvir menos isso, apesar de muitos pais ainda reproduzirem esse pensamento.

Mas os filhos estão ali para mostrar que essa separação não faz sentido algum. O pai do Thales, 3 anos, começa a concordar. Edilson encontrou o filho na sala de casa brincando com uma cozinha de plástico. A mãe de Thales tinha comprado o brinquedo par dar de presente à filha de uma amiga.

Ele relatou em um post no Facebook que aquela cena o incomodou, a princípio, pois na cabeça dele apenas meninas brincavam de cozinha. Mas Edilson logo se deu conta que o problema não estava na pia, panelas, pratos e copos cor de rosa.

“Mudei minha postura, inicialmente inquisitorial, e resolvi aproveitar a oportunidade para ressignificar a brincadeira e rever meus preconceitos. Sentei-me ao seu lado e passei a brincar com ele. Fui me despojando dos meus preconceitos lentamente, como quem descasca castanha do Pará. Para minha surpresa, o Thales me convidou para lavar as mãos antes de tratarmos os alimentos imaginários. Fomos até a pia de plástico e lavamos as mãos. Aproveitei para dizer que para lá deveria ser levada a louça para lavagem após o almoço”, escreveu.

Enquanto brincava com Thales, Edilson começou a se despir de um preconceito enraizado. Ele conta que o preconceito “não é uma dose cavalar que nos aplicam em um único momento da vida, mas sim nos é servido em gotas homeopáticas que tomamos em doses inconscientes, por pessoas que amamos como os pais, amigos e parentes”.

Segundo o pai de Thales, é necessária muita coragem para enfrentar nossos preconceitos. Olhar na frente do espelho e se perguntar: quais os meus preconceitos? A mudança só pode vir de dentro, por mais que você esteja cercado de pessoas dizendo que determinados pensamentos são equivocados.

Thales não disse ao pai que brinquedos não têm gênero. Deu apenas um empurrãozinho e deixou que Edilson chegasse a essa conclusão sozinho: “Ele não faz ideia do quanto ele é importante em minha vida, mas eu tenho a exata noção do que ele significa para mim. Ele me ajuda a ser um ser humano melhor. Sigo tentando”.

Leia o relato de Edilson na íntegra:

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“Essa semana tive uma experiência singela que gostaria de compartilhar.
Minha esposa, Carolina Faria, chegou em casa com um jogo de brinquedos que comprara para presentear a Mariana, filha de sua amiga Lilian.
Quando entrei na sala vi meu filho de 03 anos, o Thales, brincando com as panelinhas de plástico do jogo. Confesso que, de imediato, a imagem me causou desconforto, pois na minha mente essa seria uma brincadeira típica de menina.
Ocorre que faz algum tempo que criei um mantra para mim: “se alguma coisa me incomoda revela meu preconceito”. Naquele momento meu machismo gritava em mim. Fiquei com esse pensamento na mente, o reti para mim por um certo tempo.
O Thales brincava tão tranquilo com o brinquedo que percebi que o problema não estava nas minúsculas peças e nem no meu filho, mas sim em mim. Mudei minha postura, inicialmente inquisitorial, e resolvi aproveitar a oportunidade para resignificar a brincadeira e rever meus preconceitos.
Sentei-me ao seu lado e passei a brincar com ele. Fui me despojando dos meus preconceitos lentamente, como quem descasca uma castanha do Pará.
Para minha surpresa, o Thales me convidou para lavar as mãos antes de tratarmos os alimentos imaginários. Fomos até pia de plástico e lavamos as mãos. Aproveitei para dizer que para lá deveria ser levada a louça para lavagem após o almoço.
Perguntei o que ele cozinhava. Ele respondeu pizza. Depois perguntei para quem ele gostaria de servir a pizza. Ele respondeu para o Abner, para o Taiga e para a Flor (amiguinhos), para o Jr e para a Vale (irmãos). Aproveitei para falar para ele sobre a importância de servir as pessoas. Falei também que sua avó, já falecida, também me ensinou a cozinhar e que dizia que sempre deveríamos ajudar a saciar a fome das pessoas. Contei a ele que as reuniões à mesa na casa de mamãe eram sempre animadas e que ríamos muito, com todos os dentes ao mesmo tempo, em cada refeição.
Aproveitei o enredo lúdico e o levei até a cozinha de casa. Mostrei a ele onde guardamos as panelas, os copos, os pratos e os alimentos. Expliquei a ele que não devemos brincar com facas e que não é indicado tocar no fogão quente, pois pode queimar as mãos. Falei que todos devemos cooperar na limpeza e organização da casa, pois ela é nossa morada segura.
Voltamos para a sala para comer a pizza que, a essa altura, já estava pronta. Fatiamos a pizza e começamos a saborear. Ele fez a partilha guardando as fatias no armário para os ausentes da brincadeira. Fiquei feliz com a lição de generosidade e companheirismo dele.
Fiquei reflexivo perante a situação e segui descascando minha castanha. Mergulhei ainda mais fundo em mim e percebi que me perdoar me ajudava a combater meu preconceito. Voltei da imersão. Respirei. A serenidade instalou-se em mim. Senti que a experiência ia me ajudando a vencer a cultura machista que há dentro de mim (e olha que sempre fui crítico dela). Lembrei de uma cena do meu tempo de 5ª série do ensino fundamental quando, na escola Camilo Salgado, eu e meus amigos ficamos zombando do nosso amigo Francisco que era, naquele momento, o único menino que jogava “cemitério” com as meninas da escola. Todos gritavam em coro “mariquinha, mariquinha”.
Lembrei de outras brincadeiras que fiz com meus filhos Valentina Valente e Valente Júnior, agora adultos, e atualmente com o Thales. Sempre adorei me divertir com eles. Mas dessa vez entendi que embora eu adore brincar de carrinho, correr e pedalar com o Thales, nada me impede de ter outras formas de alegria com meu filho e que posso utilizar a cena para ajudar a criar um garoto desconectado de rótulos machistas. A cultura do machismo pode chegar, e chega, infelizmente, a matar mulheres.
Entendi, naquele momento, que o preconceito não é uma dose cavalar que nos aplicam em um único momento da vida, mas sim nos é servido em gotas homeopáticas que tomamos em doses inconscientes, servidas por pessoas que amamos como os pais, amigos e parentes. Entendi que as poções do medicamento estão disponíveis em qualquer lugar e são compartilhadas sem cerimônia e, não raro, sem lucidez. Mas somente a lucidez do preconceito pode vencê-lo.
Percebi que o preconceito vai tomando formas tão indefinidas em nossa mente que a geometria é incapaz de identificar. Que é necessária a coragem de enfrentá-lo de frente, sem medo e que é imperioso ficar nu diante de si e deixar de olhar para o lado. Fazer a pergunta dura, mesmo estando trêmulo, ante da resposta sincera: – quais meus preconceitos?
Lancei-me de novo dentro de mim e fui ainda mais fundo no meu Eu. Chacoalhei meu ego. Borrifei mais perdão na minha base moral e pude, lentamente, refazer minha conduta ética. A essa altura a sala de casa já estava inundada de cascas de castanha. Eu sentia, ao mesmo tempo, vergonha e orgulho de mim.
Enquanto eu refletia o Thales seguia brincando tranquilamente, ignorando meus conflitos internos, mas participando enormemente do meu crescimento (e eu, na minha tolice, acreditava que era eu que o via crescer). Ele não faz ideia do quanto ele é importante em minha vida, mas eu tenho a exata noção do que ele significa para mim. Ele me ajuda a ser um ser humano melhor. Sigo tentando.”

crédito da foto: Reprodução/Facebook Edilson Valente

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