fbpx

O que aconteceu quando levei representantes de movimentos sociais para falarem com meus alunos


PUBLICIDADE ANUNCIE

Por Pedro Henrique Castro

A aventura de fazer essa palestra começou há mais ou menos um mês, quando eu tive minhas primeiras conversas com alguns dos convidados. E assim eu mergulhei num mar de contatos e agendas, buscando uma data que agradasse a todos – inclusive a mim e aos estudantes – em meio às viagens oficiais e atividades pré-agendadas de cada um. Acumulei ao cargo de professor os de administrador, secretário e conciliador. Mas acho, sinceramente, que isso faz parte e o objetivo da coisa, que vou explicar adiante, era muito importante.

Havia pra mim um impasse com o tema ‘movimentos sociais’. Nunca me pareceu justo que, sendo homem, branco e heterossexual, eu detenha o poder de subir naquele velho tablado de azulejo e através das minhas palavras determinar quais são as principais dificuldades, lutas e demandas dos movimentos feminista, LGBTI e negro. O magistério no Ensino Médio é majoritariamente composto por pessoas que se definem da mesma forma que eu. Se todos nós decidimos falar pelos grupos marginalizados da sociedade, acabamos obtendo um resultado oposto daquele ao qual nos pretendemos. Desejamos diminuir a exclusão desses grupos, mas contribuímos para aumentá-la, pois ironicamente não deixamos nem que definam a si mesmo.

O objetivo da palestra, portanto, era solucionar o impasse mencionado acima. Eu cederia o espaço do qual usufruo normalmente para protagonistas legítimos dos movimentos sociais se manifestarem. Trabalhei com as turmas todo o contexto histórico e parei por aí. No final da aula anunciei que receberíamos um trio especial para falar sobre como são os movimentos mencionados por mim hoje em dia. Isso foi há dois meses e eu ainda não tinha entrado em contato com ninguém. Anunciei convidados que nunca falaram comigo porque acredito que nesses casos é preciso ter uma esperança absoluta de que tudo vai dar certo, caso contrário somos dobrados pelas circunstâncias nada simples.

Projeto decidido e anunciado, era hora de correr atrás. Entretanto, não é todo mundo que está disposto a conversar com jovens e isso é uma pena. É muito mais fácil dialogar com estudantes em formação do que tentar desconstruir nessas mesmas pessoas daqui a dez anos aquela velha opinião formada sobre tudo. Acho que muita gente não considera falar para a educação básica como algo ‘digno’, pois passei por muitas situações de indiferença, mensagens não respondidas, recusas polidas e outras nem tanto até chegar nos nossos três convidados.

Pra mim foi como escalar o Real Madrid em 2003. Nunca pensei em trazer gente com tamanha experiência para conversar com as minhas turmas. Se prontificaram a atender o meu chamado: Camila Jourdan (professora do Departamento de Filosofia da UERJ); Rogério Koscheck (presidente da Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas) e Humberto Adami (presidente da Comissão Nacional da Verdade sobre Escravidão Negra no Brasil e vice-diretor de Igualdade Racial da OAB).

No dia 31 de Outubro de 2015, cheguei cedo com os convidados que havia buscado mais cedo ainda em suas residências – ou no metrô, caso de Humberto. Que fique registrada minha profunda admiração por gente que acorda de madrugada numa sexta-feira de intenso calor na Vila da Penha e ainda por cima véspera de feriado, com o objetivo de falar aos jovens. Lembro de ter ficado muito excitado com o início da palestra e admito que não escutei os primeiros minutos, dada a quantidade de coisas que passavam pela minha cabeça. Os pensamentos oscilavam freneticamente entre meus afazeres e uma prazerosa sensação de ‘eu consegui’.

A palestra em si está em vídeo e não me cabe analisar os discursos proferidos. Sendo assim, eu prefiro ficar com o resultado que ela proporcionou. E é claro que eu não perdi a oportunidade de me reunir com os estudantes e perguntar o que eles acharam de tudo que ouviram:

“Me fez pensar sobre a estrutura do colégio e de como precisamos de mais atividades como essa”; “Me fez perceber que certas piadas que eu fazia contribuíam para naturalizar o preconceito e eu não vou fazer mais”; ” Gostei muito da palestra, muito mesmo. Eu tenho pessoas próximas que sofrem os três tipos de preconceito”; ” Me reconheço melhor, agora”. Combinamos de fazer um vídeo para compilar todos os agradecimentos que os alunos me pediam para repassar aos palestrantes, cujo produto final também está disponível.

Uma das meninas começou a falar dizendo que graças ao discurso da Camila, não sentia mais vergonha nem culpa por ter sido assediada e estava pronta para contar aos pais sua vivência com o primeiro assédio, que até então não havia exposto. No meio da fala, se engasgou e começou a chorar. Ela disse que precisava agradecer à Camila. Mandei ela ir atrás dela. “Sério?” ela me respondeu levantando da cadeira. Respondi afirmativamente e ela saiu correndo porta afora, mas infelizmente a professora da UERJ já estava na rua a caminho de casa.

Meu ponto é que com um pouco de força de vontade (muita força de vontade) e ajuda dessas pessoas incríveis foi possível quebrar com a rotina dos colégios, que habitualmente não abrem espaço para esse tipo de diálogo com a sociedade. Nesse momento em que o conteúdo tradicional cada vez mais nos cerca a um tipo muito específico de saber que nem sempre se relaciona com a realidade do estudante, nós construímos uma janela no muro, juntos.

PUBLICIDADE ANUNCIE

Confira agora os vídeos das palestra:

E alguns agradecimentos dos alunos pela iniciativa nas redes sociais e uma compilação em vídeo:

 

Uma foto especial com todos reunidos:

Foto - Dia da Palestra

PUBLICIDADE ANUNCIE

PUBLICIDADE ANUNCIE

Acessar

Resetar senha

Voltar para
Acessar