Uma crônica sobre um concurso de beleza promovido no Centro de Ressocialização Feminina de Araraquara


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Elas estavam lindas. Cabelos caindo nos ombros, num leve encaracolado. Olhos coloridos, um certo brilho que combinava com os lábios. Andavam flutuando sob uma perspectiva de luzes. Elas sonham em ser médica, em ver os filhos se dando bem, em viajar, em viver uma boa vida. Havia sintonia entre os passos marcados pelos saltos enormes e as palmas aceleradas e gritos do público. Suas frases preferidas envolviam versículos bíblicos, Freud e Charles Chaplin.
Mulheres divinas. Sendo guiadas sob o olhar carinhoso de amigas que gritavam eufóricas seus nomes de um lugar às vezes imperceptível. Os vestidos suntuosos não valem nada diante da graça de seus sorrisos. E eu vi tudo sentadinha do meu lugar, me contorcendo na cadeira pra o choro não correr frouxo. Ficava imaginando como faria pra ter cabelos sedosos como os delas e me arrepiava com a vibração de sua caminhada por mim.
Eu poderia estar narrando qualquer concurso de beleza, poderia ser mais uma crônica sobre mulheres voluptuosas em cenários estratosféricos se eu não estivesse escrevendo sobre presidiárias, que foram incentivadas a se amar de novo, apesar de tudo. Eu não estou falando sobre as passarelas vazias, com saltos a la Armani. Eu estou falando de Marias de verdade. Eu estou falando de mães, que deixaram seus filhos por um tempo. Estou falando de amores estacionados, profissões paradas, auto estima negligenciada. Na pele tatuagens que não sei se ainda tem significado. No olhar, alguém recomeçando. Uma certa tensão nos ombros, de quem parece que esqueceu como é subir no salto. De quem não se lembrava como é tão bonita.
E que bonitas essas Marias. E que leveza. E que redescoberta. E onde quer que eu olhasse naquele pátio, via uma demonstração de profunda admiração, autêntica. Nem eu lembrava como é bonito admirar. Mulheres gritando o nome, olhando firme pra elas, as candidatas, como se estivessem chamando a Maria que ficou lá fora. Como se estivesse rememorando a Maria que saía pra dançar, que gostava de perfume, que se embaraçava toda quando ia experimentar um sapato novo.

Maria que sente ainda a dor do parto. Maria que sente a dor de sair de dentro. Maria que não entende, que esqueceu suas cores. Você se lembrava, Maria, que seus cabelos escovados ficam ondulados nas pontas? Que quando você passa, muita gente aposta um caminhão de milho pelo teu olhar? Que quando você ri, tem gente que vibra? Que você é assim, uma coisinha dessas que a gente gosta de contemplar?

Nada mais importa. Nada nesse mundo burocrático importa. Sabe a conta, o documento, a fatura e o relatório? São só coisas. Coisas não importam. A conta é só uma conta. O trabalho é só um trabalho. Tem gente fazendo dança no escuro, reacendo antigas chamas. Tem gente recriando sua história, se vendo nos outros como não se viam antes. Tem gente fazendo coxinha e bolinha de queijo pra fazer festa, sabendo que daqui há instantes vai voltar pras grades. Tem gente vestindo longos e calçando saltos agulhas, mas daqui a pouco a fardinha de todo santo dia tá na cama, dobradinha. E sabe o que mais? Elas vão voltar pras grades, mas Maria não tá presa. Maria tá livre, numa faixa que a intitula de Miss Primavera. Numa risada que se repete todo dia. Maria ainda existe, Maria já já vai embora. E Maria vai fazer falta. Porque um dia, vou estar distante de Maria, e vou precisar me maquiar, relembrando o dia em que um rímel pra alguém não foi só um rímel. Eita, Maria. E esse amor? Esse amor forte, que vem de tantos lugares, que perpassa os muros. Que faz das tripas coração. Que me fez desaguar.
Foi uma noite linda naquela penitenciária, senão uma das mais lindas de minha vida. Quem diria que era pra dentro de muros que eu ia precisar revisitar o amor. Que era passando pela guarita de uma penitenciária que eu ia me sentir livre. Que eu ia narrar a rua lá fora pra alguém que me perguntou. Que eu ia abraçar forte, alguém que parece que deixou algo em mim, uma benção. Fora que me encantei pelo dançarino de sapateado que se apresentou no mesmo evento, mas isso é assunto pra outro dia. Até breve, Maria!
***
Sobre um concurso de beleza promovido no Centro de Ressocialização Feminina de Araraquara, a qual agradeço o convite da Diretora Técnica Jucélia Gonçalves, e de meus grandes amigos Francisco Carlos Pontes Pontes e Cloris Violeta Alves Lopes. À vocês meu amor eterno.



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