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Médica faz relato poderoso que mostra como a empatia é essencial


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O que é ser médico para você? Para mim a profissão do médico é muito mais do que pedir exames e receitar remédios. É preciso estar atento para as pessoas, olhar com os olhos compreensivos, saber enxergar além do aparente e exercer a empatia. Essa história fala justamente disso.

Nesta semana, Júlia Rocha, que é médica postou uma história no Facebook, que acabou sendo compartilhada diversas vezes. Nós já contamos outras histórias da Júlia aqui, como essa. Desta vez ela contou a história de uma garota de 23 anos que ela atendeu, chamada Letícia, que foi com a mãe em um posto de saúde procurar ajuda psicológica. A menina tinha depressão, não tinha vontade de viver, não saia do quarto para nada e a mãe estava desesperada procurando ajuda.

Aos poucos, a médica foi descobrindo o que se passava com ela e viu que o problema já vinha desde a infância, quando Letícia ainda tinha o pai vivo, mas com problemas de alcoolismo e a culpava pela sua vida não ter dado certo. O relato da médica é poderoso e em apenas 30 minutos ela conseguiu mudar o rumo da conversa e convencer Letícia de que ela precisava de um tratamento psiquiátrico.

Tudo isso aconteceu porque ela soube ouvir, soube enxergar além das máscaras e através do carinho e da empatia, conseguiu ajudar essa garota que estava desesperada precisando de ajuda. Por isso é tão importante a gente não julgar, tentar nos colocar no lugar do outro, saber ouvir e trabalhar nossa empatia. A gente nunca sabe o que se passa dentro de uma pessoa. Às vezes ela está sofrendo, mas não sabe como buscar ajuda. Às vezes ela só precisa de alguém pra desabafar. Às vezes, ela precisa de alguém para mostrar o caminho certo. Isso é empatia.

Quer ler o relato completo que a Júlia postou no seu Facebook? Está aqui embaixo!

O PODER DA EMPATIA.

“Bom dia, Letícia. O que trouxe vocês aqui hoje?”

Letícia era uma jovem de 23 anos. Não estava agendada. Procurou o guichê da nossa equipe depois do almoço e disse que precisava conversar com a médica pois estava com alguns problemas emocionais e não conseguia dormir. Acompanhada da mãe, entrou e sentou-se apática e desinteressada. Pelo menos, era o que parecia.

“Doutora, ela precisa se tratar, se não, quem vai ficar doida sou eu. 23 anos e não faz nada da vida. Nada. Agora ainda quer sair da faculdade. Ah, não vai mesmo. Eu não vou permitir. Quase 4 anos fazendo um curso pra abandonar no final? Nem pensar. Só se eu morrer.”

“E por que você decidiu nos procurar hoje, Letícia?”

“Pra não ser expulsa de casa.”

“A situação vem piorando?”

“Um pouco.”

“Um pouco, não! Muito. Essa menina só fica no quarto, com cortina fechada, luz apagada… Só sai de lá pra comer e, de vez em quando tomar banho. Quando ela acorda, eu já fui a praia, já fiz minha caminhada, já voltei p casa com o pão, já fiz café… E olha que tenho 48 anos. Na idade dela, eu já tava casada, com 2 filhos, trabalhando!”

Letícia era a personificação da apatia. Sentada estava, sentada continuou, não esboçou qualquer reação. Não se importava. Não moveu um músculo, até que eu perguntasse.

“E como você se sente ouvindo tudo isso?”

Ela levantou os ombros e tentou expressar indiferença. Eu continuei olhando pra ela em silêncio, como se ainda esperasse uma resposta. O silêncio durou uns 30 segundos, até que ela falou.

“Preciso de um tratamento.”

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A mãe permaneceu em silêncio e agora chorava. A filha, com olhos marejados, decretou.

“Eu sempre fui assim. É o meu jeito. Desde criança. Eu não acho que é doença.”

“Então, não precisamos de tratamento, não é verdade?”

“Se eu não mudar, acho que a minha mãe me expulsa de casa.”

“Entendi. Precisamos de um remédio pra tirar da sua mãe a vontade de te expulsar de casa, por que o resto da vida de vocês está indo bem. Correto?”

As duas sorriram. Eu também.

“Você disse que esse é o seu jeito desde sempre… “Desde sempre” quando?”

“Não lembro.”

“Desde que ela convivia com o pai bêbado e violento dentro de casa, doutora. Batia nela, falava que ela não era filha dele, saía, chegava de madrugada gritando, acordando ela e o irmão… Quando não tinha ninguém pra ficar com ela, levava ela pro buteco com 8 anos de idade e bebia o dia inteiro. E ela ali no meio daqueles amigos bêbados… Como se não bastasse tudo isso, quando tava pra morrer, disse que a Letícia era a culpada pela tragédia que foi a vida dele. Doutora, essa menina, com 12 anos, tomou querosene tentando se matar.”

Pois bem. Esta é a “baixa complexidade” do “postinho”. Esses são os pacientes “que não tem nada”. Quantas vezes eu já ouvi: “mas você fez 2 anos de residência pra se especializar e atender no postinho?” Bem vindos a Medicina de Família e Comunidade.

“Letícia, será que esse é o seu jeito, mesmo, ou será que esse é o jeito que você encontrou de se proteger de tudo isso que você passou na vida?….. Será que o seu problema é só um remédio pra dormir?

“Eu não sei como é viver de outro jeito.”

“Como você gostaria que eu te ajudasse?”

“Não sei……… Uns exames?”

“Exames.”

“Psicólogo?”

“Sim.Psicólogo!… Você topa iniciar tratamento com remédios? Acho que eles serão uma ajuda importante.

“Sim.”

“Posso te deixar um dever de casa?”

“Qual?”

“Você mora a dois quarteirões da praia. Queria combinar que 1 vez por semana, de preferência de manhã, você tentasse ir a praia pra ficar pelo menos quinze minutos. Sair de casa um pouco.”

“Fazendo o quê?”

“O que você quiser. Inclusive nada. Você acha que consegue?”

“Eu fiz isso uma época. Foi bom.”

“Acho que precisaremos marcar uma consulta com a psiquiatra. O que você acha?”

“Eu ia te perguntar isso… E que dia posso marcar o retorno com você?”

Irreconhecivelmente interessada em seu tratamento. A mãe, que começara a consulta falante, só observava.

Letícia quer ser protagonista da própria vida. Pela primeira vez! Aos 23 anos!

30 minutos de consulta, muitos pacientes esperando com dor de ouvido, de garganta, laudos pra preencher…Agenda atrasada… Mas, ninguém morreu. Muito menos, a Letícia.

Aqui está a postagem original de Júlia:


Foto: reprodução Facebook – Júlia Rocha

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