Conheça o Chefs Especiais, primeiro café comandado por pessoas com Síndrome de Down do país


primeiro café Chefs Especiais

Ao som de Come as You Are, um clássico do Nirvana, adentrei no Chefs Especiais, o novo café da Rua Augusta, em São Paulo. A diferença em comparação com outros tantos que pipocam pela cidade é que a atração é comandada por pessoas com Síndrome de Down, uma iniciativa em prol da inclusão, da autonomia e do rock’n’roll que não sairá das caixas de som, é claro.

Engraçado como o nome da música se encaixou perfeitamente nesse momento, que em tradução para o português, significa “venha como você é”. Ali todos são a versão mais fiel de si mesmos, com os erros e acertos que tornam cada ser humano único. A cada 400 bebês nascidos, ao menos um tem essa alteração genética e a expectativa de vida atualmente gira em torno dos 60 anos de idade. Então já passou da hora de integrá-los socialmente, não acha?

A cafeteria, inspirada em um estabelecimento da Irlanda, é uma iniciativa do Instituto Chefs Especiais, que qualifica pessoas com o distúrbio dentro da área da gastronomia há 11 anos. “De início pensamos em abrir um restaurante onde os alunos pudessem trabalhar. Mas é muito mais caro, trabalhoso e complexo. E de um ano pra cá, pensamos e queríamos uma coisa diferente, daí veio a inspiração no motoclube, que é mais radical e tira esse estigma de coitadinhos, de impossibilidade. Aqui é a minha gangue! A ideia é fazer as pessoas se sentirem parte disso”, contou a fundadora Simone Berti ao Razões para Acreditar.

A escolha do local não veio por acaso. A famigerada Rua Augusta é conhecida mundialmente por sua diversidade, a junção de várias tribos que convivem na mesma calçada. Por meio de uma parceria e alguns patrocínios, a cafeteria foi instalada dentro do restaurante e loja colaborativa Como Assim?, que reúne produtores independentes. Logo na entrada já podemos ver uma caveirona com pegada hardcore na parede, algumas mesas e funcionários empolgados com a oportunidade.

Simone argumentou que, apesar da iniciativa ser parte de uma instituição sem fins lucrativos, eles não trabalham com assistencialismo e sim para abrir portas. “Somos uma ONG, mas queremos ser vistos como uma escola de gastronomia. Fazemos vários eventos para inserir essas pessoas que foram capacitadas e contratamos os seus serviços. Isso serve de exemplo para outras pessoas, gera contato. Dessa forma mostramos que a única coisa que eles precisam é isso, oportunidade. E o nosso instituto é esse facilitador, essa ferramenta de autonomia, que os prepara para estar longe de seus cuidadores quando for necessário”.

A intenção é não só derrubar estes pequenos grandes preconceitos como também aproximar o público geral de uma situação que deveria ser cotidiana: a de encontrar uma pessoa com Down do outro lado do balcão. “No café, teremos dois funcionários fixos e outros rotativos. Todas as comidas serão produzidas por eles, mas estamos dando um passo de cada vez. Compramos produtos que os alunos produzem em casa. Todos são remunerados, seja CLT ou freelancer”.

E não pense que o negócio é brincadeira, não. Todos devem aprender a cozinhar e passam por uma seleção para vender a produção à cafeteria. Eles passam por um processo de qualidade. Não existe a compra por ser bonitinho. Tem que ter padrão, qualidade, apresentação, senão não colocamos nada na vitrine. A gente cobra muito isso deles, que têm a capacidade de fazer o melhor possível”, argumentou Simone.

Depois de trabalhar na Eletropaulo e numa papelaria, Rodrigo Botoni, de 39 anos, agora é um dos baristas do café. A chance de fazer parte do time veio através de um primo, que o indicou. “Fiz cafezinho em casa e todo mundo gostou. Também fiz aulas para mexer nas máquinas. O trabalho para mim é emoção, me deixa ansioso, animado!, contou ele, ao afirmar que também ouve muito rock e faz teatro desde 1995. Aliás, atuou no aclamado filme brasileiro Colegas, estrelado por várias pessoas com Down, ao lado da namorada.

Apadrinhado pelo chef Henrique Fogaça, ainda mais conhecido após ser jurado no programa Master Chef e presente na inauguração, o projeto solidário é uma forma de promover a inclusão, a representatividade, o desenvolvimento humano e a valorização de pessoas que só precisam de uma chance. É uma escola onde, no final das contas, quem aprende mais somos nós. “Temos todos os ingredientes para uma receita. Podemos pegá-los para fazer a melhor coisa ou qualquer gororoba. Na nossa vida é a mesma coisa. Ou pegamos os ingredientes para fazer a coisa mais bacana ou qualquer coisa. Isso cabe a nós decidirmos, finalizou Simone.

Chefs Especiais Café
Rua Augusta, 2559 – Jardins – São Paulo (SP)
Horário de funcionamento: de segunda à sexta-feira, das 10h às 19h

Todas as fotos: divulgação e © Brunella Nunes


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