Com “ossos de vidro”, Heloisa Rocha é a blogueira de moda que você respeita


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Nascer com Osteogênese Imperfeita, condição rara de fragilidade óssea, não impediu que a jornalista Heloisa Rocha se apaixonasse pela moda. Embora o mercado e os padrões de beleza não atendam às suas condições, ela fez questão de criá-las. No projeto Moda em Rodas, passou a compartilhar seus looks e aquisições do seu guarda-roupa para mostrar que, mesmo com menos de um metro de altura e 20 quilos, é possível se incluir sim e ser blogueira de moda.

Conversei com a Heloisa sobre sua trajetória, suas escolhas e seu blog, que foi ampliado do Instagram para o Facebook, onde tem cerca de 3 mil seguidores. A conta na rede social foi criada em outubro de 2015 com o objetivo de quebrar padrões de beleza e de provar que estilo não depende de altura, peso ou condição física, mas sim de criatividade e de muita luta no mercado. Sobrinha e neta de costureiras, Heloisa cresceu vendo as duas costurarem para clientes e sempre folheava revistas especializadas. “Inclusive foram elas que me ensinaram os truques básicos da moda, de entender as peças que valorizam o meu corpo e de identificar uma costura bem feita”, comentou.

O Jornalismo serviu para aumentar ainda mais seu gosto e conhecimento de moda, chegando a cobrir eventos como a São Paulo Fashion Week. Nesses eventos, eu percebia que era a única mulher com deficiência e o fato de ser ‘diferente’ acabava chamando a atenção da imprensa”. Heloisa complementa falando sobre uma coisa bem importante e bem escassa nesse meio: a representatividade. “Eu sempre acompanhei algumas blogueiras e leio com certa frequência as principais revistas nacionais do segmento.Nunca me senti representada nelas, mas sempre consegui me vestir de acordo com minha idade e minhas necessidades.”

De personalidade forte, ela tem total noção das limitações do mercado e até mesmo da sociedade, mas isso não a abalou. A escolha de suas roupas e o entendimento do assunto fizeram com que Heloisa se tornasse referência antes mesmo de ingressar no Instagram. “Algumas conhecidas com deficiência sempre me procuraram para me pedir dicas de moda ou pediam para eu fotografar algumas peças do meu guarda-roupa para que pudessem pedir às suas costureiras um modelo semelhante. Diante disso, eu fiz uma pesquisa na internet e percebi a ausência de blogueiras com deficiência que falassem sobre moda, então decidi criar o Moda Em Rodas”, contou.

Nas postagens, a jornalista se dedica a apresentar suas criações, a razão da escolha dos seus looks, o local onde comprou cada peça e os truques de moda que adquiriu com o tempo e com os estudos. Além de inspirar, Heloisa recebe feedback de muita gente que se sente motivada a criar seu próprio estilo, resultando em um aumento da autoestima. “Algumas pessoas costumam me mandar mensagens mostrando as últimas aquisições, os cortes de cabelo que fizeram e até  lojas que confeccionam roupas e calçados infantis, ou em tamanho menor. Além disso, a divulgação do projeto na mídia ou em outros blogs é muito positiva, pois abre espaço ao tema, que até pouco tempo atrás era raramente discutido” .

heloisa rocha blogueira de moda

No shopping com Heloisa Rocha

Com os chamados “ossos de vidro”, que podem resultar em má-formação corporal, Heloisa frequentemente se dirige ao setor infantil, afinal, o mundo da moda – mesmo procurando ser cada vez mais inclusivo – ainda direciona suas produções para a mulher alta, esguia e magra. Quem foge à regra precisa se virar para adaptar as roupas ou procurar lojas especializadas. A jornalista aponta um lado positivo destas transformações para pessoas como ela. “Felizmente, o setor têxtil infantil hoje busca produzir coleções semelhantes ao dos adultos, e consigo encontrar peças do meu agrado ou das minhas necessidades, como uma camisa branca, por exemplo, em fast fashion”.

Porém, alguns itens como lingeries, biquínis e sapatos, precisam ser encomendados, o que aumenta seu custo e limita sua busca, já que os profissionais que de fato produzem são escassos. “Hoje, eu sei mais ou menos as lojas que confeccionam peças que cabem em mim e, claro, que atendam minhas necessidades. Com isso, frequentemente, eu olho na internet as novidades e se algo me interessa vou até a loja para experimentar. Por mais que eu tenha plena consciência do que funciona ou não em mim, preciso provar tudo antes de comprar”, explicou.

heloisa rocha blogueira de moda

Depois de se deslocar até o local, muitas vezes Heloisa se vê obrigada a adquirir a peça. Em razão da dificuldade em encontrar determinadas roupas que fiquem bem em mim, eu sempre sou ‘obrigada’ a comprá-la quando algo veste perfeitamente, pois o medo de esgotar a peça ou de me arrepender de não ter comprado na hora é muito grande. Infelizmente eu não posso me dar ao luxo de ‘pensar melhor’ se vale a pena ou não adquirir determinada roupa, porém tenho que ter muito controle sobre esta questão para não comprar tudo por impulso”. É aí que entra em cena o armário consciente, no qual tudo é calculado e não apenas comprado. “Neste caso, o segredo é ver no espelho se você realmente amou a peça e se é possível criar mais de uma combinação com aquilo que você tem no guarda-roupa. Quando eu não encontro uma determinada peça que desejo (ou preciso) muito, eu encomendo”.

Heloisa acredita que a moda, além de todos os outros setores, precisa melhorar muito  para se tornar inclusiva. “Como indústria, na questão de produzir peças que atendam às necessidades desse mercado consumidor, a exemplo da inclusão de uma etiqueta em Braille nas peças; na publicidade, investindo em modelos com deficiência; nos cursos de moda, incentivando estilistas a criarem coleções mais inclusivas; e nas lojas, derrubando suas barreiras físicas – provadores pequenos, corredores estreitos e a presença de degraus e escadas – e instruindo o vendedor a atender o consumidor com deficiência”, argumentou.

Mudança de dentro pra fora

Já deu para notar que a blogueira é destemida, independente, inteligente e determinada. Enfim, um mulherão. Mesmo que seja minoria na sociedade, já que sua condição afeta uma em cada 20 mil pessoas, Heloisa teve uma base muito forte para se tornar quem é, independente do que está vestindo. “Nasci com uma doença que não tem cura, ou seja, cresci aceitando e entendendo as minhas limitações. Eu vivo cada dia como se fosse único. Minha personalidade e minha autoestima foram construídas com base na criação que eu tive em casa e na escola. Venho de um lar que nunca me superprotegeu e nunca tive um tratamento diferenciado entre meus amigos. Assim, a moda surge para reforçar a minha personalidade, e não para formá-la”

Por conta da osteogênese e para ampliar sua qualidade de vida, ela pratica natação duas vezes por semana, o que fortalece sua massa muscular e protege de eventuais pancadas mais leves. “Além disso, eu tento me alimentar bem porque a saúde do corpo está ligada diretamente a uma boa dieta. Também me policio em ficar o mais ereta possível e evito ficar sentada o tempo todo, por causa da escoliose.”

Todas essas coisas colaboram para que ela se valorize e enxergue o melhor de si mesma. O lado fashion acaba sendo um complemento para realçar a beleza externa e interna. “Um vestido não vai te deixar melhor se você não fizer antes as pazes consigo mesma e com o seu corpo. A autoestima começa por nós mesmas e felizmente o Moda Em Rodas tem ajudado muitas mulheres a se valorizarem e a entenderem que cada um é lindo(a) do jeito que é, embora muitas vezes não consigam enxergar isso no espelho, devido a ditadura da beleza”, finalizou.

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[Nota da Redação]

Estamos com um canal no Razões mostrando que a pessoa com deficiência pode fazer o que ela quiser, e esse vídeo mostra pessoas tocando sua vida da maneira mais normal possível, vejam:

Todas as fotos: acervo pessoal/Heloisa Rocha



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