Megg Rayara: a primeira travesti negra a receber título de doutora no Brasil

A tese traz um estudo de caso com quatro professores negros, homossexuais e afeminados.


travesti negra

Megg Rayara é a primeira travesti negra a defender uma tese de doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Intitulada “O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação”, a tese traz um estudo de caso com quatro professores negros, homossexuais e afeminados, três do interior do Paraná e um do Rio de Janeiro.

Na tese, Megg concluiu que os professores só conseguiram passar por cima do preconceito e seguir suas vidas quando se empoderaram. “Ficou claro que tanto em cidades do interior quanto numa capital como o Rio, os termos usados para ofender e depreciar esses homossexuais são os mesmos. E que eles só conseguiram se empoderar a partir do momento em que passaram a dizer: ‘Sou isso mesmo’, atribuindo conotação positiva aos termos usados como negativos e assumindo sua identidade.”

A orientadora de Megg, a professora Maria Rita de Assis César, comemorou a conquista da nova doutora. “Grupos de pesquisa em gênero e diversidade atuam na UFPR há mais de 20 anos. É uma alegria imensa ver uma mulher travesti e negra chegar na universidade sem pedir licença. Megg tem uma competência intelectual imensa e escreveu uma das melhores teses já defendidas no Programa de Pós-Graduação em Educação, sobre um tema fundamental”, afirmou.

primeira travesti negra
Capa da tese defendida por Megg.

O estudo questiona “por que uma bicha preta decide se aventurar pela carreira docente”. De acordo com Megg, o retorno à escola representa “um acerto de contas com o passado” e uma forma de empoderamento. “A bicha preta migra dos cantos escuros da escola, do fundo da sala de aula para a mesa da professora”, diz o texto.

Em reportagem do Paraná Portal, ela diz que sempre apostou na formação acadêmica como caminho para sobreviver e assumir a identidade que por muitos anos ocultou.

“Eu tinha certeza que quanto mais conhecimento eu tivesse, mais chance se inserção no mercado de trabalho eu teria e mais eu poderia expressar a minha identidade de gênero. Eu tinha muito medo de não ter lugar para morar, muito medo de não conseguir me sustentar realmente”.

travesti negra

A pesquisadora diz considerar natural fazer dos trabalhos acadêmicos que desenvolve um ato político.

“Primeiro porque o nosso corpo, o corpo de uma travesti, o corpo de uma pessoa negra, de uma bicha preta, não é só uma constituição biológica. É um discurso. Onde a gente passa vai disparar uma série de discursos também a nosso respeito.

“É fundamental que eu enquanto pesquisadora leve para o debate questões que falem do meu universo, das minhas questões, do grupo de onde eu vim, onde sou inserido, para poder motivar outras pessoas como eu a cessar o espaço acadêmico”.

“É fundamental que eu tenha uma postura política. Acadêmica, mas também política, sim. Com essa intenção de sensibilizar outras pessoas para que essas pessoas percebam em mim também. Se uma consegue, por mais difícil que seja, outras também podem conseguir”, conclama.

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Com informações da Revista Lado A / Portal UFPR / ParanáPortalFotos: Samira Chami Neves / Sucom / UFPR

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