Razões Entrevista: MC Linn da Quebrada empodera pessoas trans através do funk

"Acho que toda violência que passei está dissolvida, triturada e reestruturada nas minhas músicas."


O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais do mundo, segundo a ONG Transgender Europe (TGEU). Em terras tupiniquins, são poucas as que ultrapassam os 35 anos de idade e infelizmente viram estatística. Enquanto esse número não chocar a sociedade inteira e ter mudanças urgentes, pessoas como MC Linn da Quebrada são não só uma figura importante dentro da representatividade, mas uma luz para àquelas que resistem na luta por suas próprias vidas.

Ativista, performer, atriz e MC, Linn fez do funk seu grito de liberdade depois de se tornar ex-testemunha de Jeová. Ao trabalhar num salão de beleza, abriu seus olhos para outras possibilidades de existência e ainda adolescente se travestiu pela primeira vez aos 17 anos. Assim foi expulso da igreja e abriu seu leque de possibilidades.

As letras divertidas e irônicas de suas músicas são carregadas de assuntos sérios, como gênero, machismo, feminilidade e transfobia. Uma das mais famosas é Enviadecer, que diz: “macho discreto/ chega mais, cola aqui / vamos bater um papo reto / eu não tô interessada no seu grande pau ereto / eu gosto mesmo é das bichas, das que são afeminadas / das que mostram muita pele, rebola sai maquiada / se você quiser sair comigo, boy, vai ter que enviadecer”.

É provocando, rebolando e rimando que Linn alcança o público, faz turnê – inclusive abrindo o show de Grace Jones no Rio de Janeiro, manda sua mensagem e se torna uma voz ativa pela busca dos direitos LGBTT ou até mesmo pela busca de ser o que quiser, sem julgamentos e sem medo. Como ela mesmo canta, ela não quer pau, ela quer paz. E ela é Linnda assim.

Preta, bicha, afeminada, travesti e periférica. Imagino que teve ter vindo chumbo de todos os lados contra você, não? Como resistiu e ainda resiste ao preconceito que é tão nocivo no Brasil? 

Sinto que tenho conseguido resistir por ter encontrado outras pessoas como eu. E dessa maneira fazemos aliança, formamos nossas redes de apoio, E assim conseguimos nos manter psicológica, física, emocional e financeiramente salvas. Construindo nossas famílias e nos fortalecendo dia-a-dia.

 
Como foi a transição para o que você é hoje, uma transexual? Ou seria uma transviada?
Acho mais fácil pensar em mim enquanto transviada. Transexual é um termo muito médico, e acho que não me reconheço neste termo. Acho que desvio inclusive deste termo.
E a transição tem sido pra mim um processo libertador. Um processo arriscado e que me mantém em movimento. Um processo de integridade e sempre atual e presente. Pois sinto que é o passo de não ter a obrigação de ser ou chegar a lugar nenhum. Posso me ser com a calma e a sinceridade de quem se procura, de quem se perde, se encontra. Onde não tem erro nem acerto. Tem processo, experimentação. Um processo de verdades construídas por mim mesma.
Sua mãe é religiosa e você também era. Houve algum desafio em relação a aceitação do que você é hoje? Como é o convívio de vocês?
Houve a coragem e o carinho das duas partes de aceitar entender o que estava por vir. Havia o medo por parte da minha mãe do que as outras pessoas fariam. Tinha o medo da violência social. O medo que existe por parte da violência assistida e compactuada por nós. Violência que se evidencia todos os dias, seja na rua, na tv, nos jornais. E por isso havia o medo. Mas estávamos dispostas a passar por isso juntas.
 
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Você acredita que gênero é algo que se forma logo quando a gente nasce, independente do sexo que viemos ao mundo? Como é essa questão na sua cabeça?
Olha, eu não sei responder a sua pergunta de forma acadêmica. E eu não pretendo ter todas as respostas. Eu falo a partir da minha experiência. E nela compreendo o gênero como um processo que se constrói durante toda a nossa vida. Não acho que nascemos de nenhum sexo. Nascemos com pau, com buceta, e algumas pessoas nascem com genitálias que são outra coisa, como as pessoas intersexo também. E além da genital há ainda muitas outras especificidades em todos os corpos. Acredito que cada corpo é um corpo. Com uma complexidade de afetos, sentimentos, desejos, fisiologia, que cresce e vive seu contexto. E tudo isso forma o gênero.
A forma como cada uma de nós se reconhece, e se desconhece. Se eu tivesse nascido, e crescido, num outro contexto, provavelmente eu seria um outro corpo, outro gênero. Ainda assim com semelhanças e diferenças. Acredito que não existam 2 sexos. Mas que existam inúmeros sexos, tantos quanto o número de corpos que existem. Mas que somos adestradas a nos comportar, viver e reconhecer em duas estéticas: homem ou mulher. Já eu prefiro pensar que há muita coisa além dessa oposição. Prefiro pensar o gênero como um jogo. Pelo menos fica mais divertido viver.
O que mudou na sua vida depois que virou MC? Foi a melhor coisa da sua vida?
Mudou que eu comecei a mostrar o meu trabalho e as coisas que eu já estava fazendo e dizendo, só que agora através da música. Mudou que agora as coisas nas quais eu já estava atuando tiveram mais alcance. Mudou que com isso parte da mídia não pôde mais fingir que pessoas como eu não existem. E me sinto feliz de com meu trabalho estar conseguindo dar visibilidade à questões tão importantes pra minha vida, e pra vida de tantas outras pessoas. Me sinto feliz por estar conseguindo dialogar através da música. Seria muita pretensão dizer que foi a melhor coisa da minha vida. Tem sido uma parte importante da minha vida. Há muita coisa além da MC Linn da Quebrada na minha vida. Mas tem sido uma experiência maravilhosamente complexa e deliciosa.
   
Sabemos que aqui é o país que mais mata travetis e trans. O que TLGBs mais precisam no Brasil, com urgência? 
De trabalho. Principalmente no que diz respeito à travestis e pessoas trans. Precisamos conseguir nos manter vivas. Precisamos ocupar outros espaços. Ser vistas e existir pra além da marginalidade construída para nós. Quando não se dá oportunidade de emprego a algumas pessoas, o que se está fazendo é deixar que essas pessoas enlouqueçam e morram aos poucos. Então em primeiro lugar, precisamos dar possibilidade de pessoas como nós viver com dignidade.
 
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O machismo é um dos grande mecanismos de ódio que ainda circulam na sociedade e suas músicas afrontam esse “macho alfa”. Aliás, você provoca até mesmo os homossexuais que agem dessa forma, falando sobre o preconceito dentro até mesmo de quem é afetado por ele. Por que acha que isso acontece? Podemos dizer que uma parcela dos gays ainda precisa entender seus próprios bloqueios e desejos?
Isso acontece porque vivemos dentro de um sistema que é assim. Não somos alheios a ele. Somos adestradas para nos comportar dessa forma. Podemos dizer que todas nós temos de repensar os padrões que nos moldam e nos limitam e violentam. E perceber de fato quais são os efeitos daquilo que temos cultivado enquanto desejo. Repensar o quanto de nossos desejos são construídos, como são, e se é possível construí-los de outra forma.
Sair na rua é um ato de coragem para quem é tão autêntica e dona de si como você. O que faz quando está desanimada ou se sentindo oprimida?
Procuro dentro do meu círculo de amigues a força pra continuar. Juntes é um pouco mais fácil sobreviver e se manter forte. 
 
Qual foi a pior coisa que você já ouviu e que se transformou em letras empoderadas?
Não sei dizer uma coisa específica. Acho que toda violência que passei está dissolvida, triturada e reestruturada nas minhas músicas.
 
Na sua opinião, por que é tão difícil aceitar o que é diferente? Qual é a raiz do preconceito?
Acho que é o fato de aceitarmos verdades construídas por outros. De não construirmos nossas próprias verdades. Pensar o diferente é arriscado. É imprevisível e isso assusta. Aceitar verdades prontas pode ser às vezes mais confortável. Nos dá estabilidade mas também nos mantém fixas. Presas num mesmo lugar.
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Ser uma bicha afeminada na periferia é pior do que em outros lugares? 
Não. A periferia não é um parque dos terrores. O machismo está em todos os lugares. Se evidencia de formas diferentes mas tão perigosa quanto no centro, ou outros espaços. Mas foi justamente na periferia que encontrei também outras pessoas com as quais eu conseguia me empoderar e fortalecer.
Representatividade tem crescido dentro da mídia e outros meios. Você acha que as coisas dentro da sociedade realmente mudaram ou tem muita falácia? 
Acho que não é simples pensar nessas coisas. Tem acontecido muita coisa importante pros movimentos e ficou insustentável pra mídia deixar de falar sobre isso. E é muito importante também pra nós ocupar esses espaços e fazer nossas vozes serem ouvidas. Faz parte de um processo. E não pode ser moda falar da gente. Sempre existimos e sempre houveram pessoas como nós. Temos de nos manter atentas pra não sermos abafadas no momento que não for mais interessante falar sobre nossas questões.
(Recentemente, a funkeira participou de uma campanha da Avon, vejam aqui).
 Você é otimista? Acredita que o mundo está melhorando? 
Acredito que o mundo está em movimento. Que há progressos mas há também retrocessos. Não se trata de um processo linear.  E que dentro disso a atuação de cada uma de nós é fundamental.

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