Ele é um morador de rua, não tinha razões pra viver e me deu inúmeras razões para amá-lo


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Estávamos em um boteco de esquina, eu e um amigo, conversando amenidades quando Júnior chegou. Cambaleando, falando torto, com os olhos inflamados de uma certa mágoa, ele pediu algo pra comer na outra mesa e foi negado. Chegou à nossa, já com os olhos marejados. Eu pedi o cardápio e escolhi um hambúrguer pra ele. Enquanto isso, ofereci uma cadeira e o pedi pra sentar. Começa aí uma jornada de aproximadamente uma hora e meia. Uma história de amor bonita.

Ele chorou, disse que naquele dia quase matou um homem, pois estava ardendo em ódio por alguma razão que ele não quis falar. Tentou suicídio. Falou que sairia dali sem razões pra viver. Foi expulso de casa e teve que abandonar tudo pois já não via motivos pra continuar. Há dois meses estava na rua. Abandonou faculdade e uma carreira como líder espiritual. Ele repetia meu nome um tanto errado, mas que trazia consolo invoca-lo aquela altura do campeonato. É um conforto de ter por quem chamar. Eu pedi pra ele segurar o olhar no meu, enquanto eu, como um mantra, dizia repetidamente: não desista, vai passar, não desista!

Sabe aquela sensação de que estamos movendo uma montanha com um fio de nylon? Foi essa a minha impressão. Continuei insistindo enquanto ele só me mostrava razões pra esquecer tudo e levar a cabo a própria vida. Por um momento, pedi pra que ele falasse tudo o que estava com vontade de falar e a rua de certa forma o fez calar. Silenciei meu mantra e comecei uma oração interna. Quase uma súplica. Continuei fitando ele, como se meu olhar pudesse ir onde minhas palavras não conseguissem. Ele chorou amargamente. Não segurei as lágrimas também, e compartilhamos de uma dor que eu sequer passei perto de sentir.

Pela primeira vez na vida, olhei pra alguém que acabei de conhecer e disse que lhe amava. Na hora pensei em tudo que meu pai me ensinou sobre pessoas e sobre dividir o pão e a dor. E como uma fagulha que voltou a acender ele me olhou diferente. Continuei falando: amo você, isso vai passar, não desista!

Enquanto escrevo esse texto, reparo na dança que a fumaça do incenso faz. Foi assim que senti, naquela hora, saindo de mim as palavras curtas, em discurso de uma expressão só. Numa ondulação leve e perfumada, subindo, alcançando o coração daquele que organizou aquela noite pra que Junior me encontrasse. O céu estava ali.

Estendi a mão. Acenei de leve, como quem diz: pega! Ele me olhou, com lágrimas nos olhos e me disse: “não consigo!”

Insisti, quase tentando invadir uma atmosfera de desconfiança, dor e mágoa. “Pega na minha mão, Junior!” – eu rogava. Ele veio devagar, como quem está rompendo uma bolha. Como quem está na beira de um precipício, com medo, sem muitas esperanças, descrendo ser um bom negócio abrir mão de sua dor pra segurar minha mão. Ele a segurou. E depois trouxe a outra mão, fazendo o mesmo esforço, mas dessa vez como quem está nascendo. Não largou mais. As duas mãos apertavam forte a minha. Há quanto tempo ele não se sente seguro assim? Instantaneamente, ele começou uma oração. Segurando minhas mãos, ele falava pra Deus de suas dores, seus erros e contava o quanto foi importante encontrar alguém pra levar o fardo daquele desespero. Pediu por mim e pelo meu amigo. Beijou minha mão. Me pediu um anel, pra sempre se lembrar de mim, sempre se lembrar que alguém o ama, toda vez que aquela vozinha lhe disser pra desistir. Junior se foi sorrindo, com meu anel no dedo mindinho e os olhos enxutos.

Eu amei porque vi amor nele e não há como não ver. O amor vem no deserto, passeando na sequidão, quando a gente já não tem mais forças pra prosseguir. O amor não é um sentimento, uma emoção. O amor é um estado, uma razão. Ele só faz sentido quando alguém vem, sujo, desaprumado nessa vida, querendo abandonar a própria existência. O amor só faz sentido quando temos que abrir mão de alguma coisa.

Quando temos que silenciar, nossas palavras robustas, nosso dicionário fundamental e quando nossas técnicas não possuem senso. É nesse momento que o amor vem. Quando a gente para de sentir nossa dor, quando a gente escolhe se abaixar, pra encontrar alguém que está soterrado em mágoa e vazio. O amor não está nas igrejas, templos, mesquitas. O amor está nos aeroportos e rodoviárias, quando alguém está deixando pra trás tantas construções, idealizações e segurança. Quando alguém escolhe amar ao invés de continuar em sua zona de conforto. O amor está nas calçadas, nas sarjetas e nos becos. O amor está nos telefones e nas cartas, nos hospitais, nos presídios. Na cor dos olhos de um morador de rua. No calo das mãos de alguém que se espancou e espancou alguém. O amor tá lá, esperando uma centelha.

Não negue-se ao amor. Renuncie o que for preciso pra vive-lo, mas viva-o. Permita-se. Sabe, eu vivi essa história linda enquanto conversava com meu amigo sobre o quanto eu me sentia sozinha e o quanto eu precisava de cuidado. Alguém apareceu, meio atordoado, eu cuidei dele, amei profundamente, mesmo sabendo que talvez ele se esquecesse de mim em algum momento. Mas pra mim não importava mais. Nada mais importava. Nada. Nem mesmo minhas queixas. Dane-se se estou sozinha. Eu quero te salvar, eu quero cuidar de ti, porque você é igual a mim e em você há amor. Deixa eu te ensinar a amar.

Essa não é uma história romantizada. A narrei do início ao fim com a precisão e realidade do momento. Aonde estiver, Junior, com meu anel no dedo e um pouco de mim em você, espero que esteja bem, porque tudo vai passar e um dia esse amor vai virar remédio pra outras pessoas.


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