Adoção tardia, um amor que vence barreiras

(Por Claudia Corbett)

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São muitos os verbos, com o mesmo significado, conjugados por famílias que optam pela adoção tardia. Mais do que adotar, aceitam a história destas crianças e adolescentes, sempre com capítulos tristes. Acolhem as realidades e apoiam seus filhos afetivos. E com o tempo, fazem com que esqueçam ou ressignifiquem os momentos difíceis que os levaram para a fila de adoção.

É preciso estar preparado para tentar entender o que a criança ou adolescente já passou. “No começo é bem difícil.  Por mais que a gente se prepare, nunca estamos prontos. Eles trazem, geralmente, uma história triste que envolve abandono, violência e dependendo da situação vão lembrando destes momentos que viveram no passado”, explicou a jornalista Katia, mãe do coração do pequeno Marcos, que chegou para a família com 5 anos e 3 meses.

O trabalho feito com crianças e adolescentes antes de seguirem para o processo de adoção, segundo Márcia Fonseca, assistente social da Vara da Infância e Juventude de Campinas, consiste em conhecer seus anseios. Entender o que sabem a respeito da própria história e como percebem a possibilidade de ter uma nova família. “O esperado nos casos de crianças mais velhas é um misto de desejo e temor pelo novo, pelo desconhecido, e o medo de mais uma rejeição”, frisou.

Com Marcos não foi diferente. Logo de início, ele se encantou com Luis, marido de Katia, pois nunca havia tido referência masculina. Mas não aceitava a proximidade dela porque associava a figura materna com mal tratos. “Nunca levei isso como pessoal. Sabia que seria uma fase e que iria passar. Depois de um ano ele entendeu que eu nunca iria maltratá-lo”, explicou a jornalista.

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No Brasil, 4.605 crianças e adolescentes de seis a 17 anos estão à espera de uma família. Cerca de 100 delas estão em Campinas/SP, sendo que neste total há grupos de irmãos que não podem ser desmembrados. “Temos, hoje, 471 pessoas ou casais cadastrados”, contou a assistente social da Vara da Infância e Juventude de Campinas.

O tempo médio de espera é de sete anos. Esta demora pode estar diretamente relacionada ao perfil da criança e do adolescente desejado pela pessoa ou família. “Quanto mais exigências maior será o tempo de espera”, explicou a assistente social.

Katia e Luis aguardaram por seis anos para serem chamados. “Fiquei sabendo por causa de um curso sobre adoção tardia, para o qual não havia sido chamada. Ao fazer contato descobri que o público era formado por dispostos a adotar crianças a partir de seis anos. Solicitei então a mudança do perfil que antes era de cinco anos. Isso foi fundamental para a adoção de Marcos. Se tivesse mantido cinco anos não teríamos a chance de conhecê-lo”, constatou Katia.

No entanto, há outros entraves e desafios, para além dos requisitos estabelecidos pelas famílias candidatas a adotantes.

Até que haja a destituição do poder familiar, etapa que antecede a liberação para colocação em família substituta, os anos costumam passar e para uma criança e adolescente acolhidos em abrigos esse tempo pode ser longo e doloroso demais. ”Cabe aos órgãos diretamente ligados ao processo de adoção, dentre eles o Poder Judiciário, promover com mais celeridade os processos de destituição do poder familiar” constatou Cláudio Razairo, assessor técnico do Departamento de Assistência Social (DAS) da Fundação FEAC.

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Rejeição

Eles chegam com medo de serem devolvidos. Fazem vários ‘testes’ para sentirem se as famílias que os adotaram estão dispostas a ficar com eles a qualquer custo.

Segundo Viviane dos Santos Flauzino, pedagoga e coordenadora das Casas Lar Crer & Ser, um dos serviços de acolhimento executados pela Associação de Educação do Homem de Amanhã (AEHDA) – Guardinha, parceira da Fundação FEAC,  devolver uma criança ou adolescente para o abrigo gera angústia e revolta na maioria dos casos. “Ele ou ela já foi rejeitado várias vezes e está passando por mais uma rejeição. Nestes casos falta para a família adotante uma consolidação afetiva de pertencimento para identificar que aquela criança é dela”, frisou.

 As adoções tardias precisam ser bem trabalhadas. A grande maioria dos casais está na fila na esperança de adotar um bebê. Depois de muitos anos no aguardo resolvem ampliar a faixa etária e acabam adotando uma criança mais velha. “Esta criança não pode ser a válvula de escape de um bebê que não chegou, porque senão este filho adotivo nunca vai atingir as expectativas desse casal”, destacou Viviane.

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 Em Campinas, a avaliação das pessoas ou famílias que pretendem entrar para a fila de adoção é feita pela Vara da Infância e Juventude. É nesta oportunidade que estas pessoas são levadas a refletir sobre o motivo que as levaram a uma adoção tardia, quando é o caso. Outro item importante é saber como a família enxerga a adoção. Segundo a assistente social da Vara da Infância, é importante saber também como os pretendentes imaginam que irão lidar com questionamentos que virão por parte dos adotados e como será a revelação da origem das crianças e adolescentes.

“Nunca pensamos em devolver o Marcos, porque para mim e para meu marido ele sempre foi nosso filho, só demoramos cinco anos para encontrá-lo”, garantiu Katia.

 Dia Nacional da Adoção

Em 1996, representantes dos catorze Grupos de Apoio à Adoção existentes no Brasil se reuniram no I Encontro Nacional de Associações e Grupos de Apoio à Adoção. Na ocasião, o dia 25 de maio foi eleito como o Dia Nacional da Adoção, oficializado pela Lei 10.447. Uma data para celebrar e refletir.

Saiba Mais: 

Casas Lar Crer & Ser: www.guardinha.org.br

Vara da Infância e Juventude de Campinas: www.tjsp.jus.br

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