Bhakti


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Eu estava numa cafeteria hoje quando começou a tocar uma música que me chamou muito a atenção. O nome dela é “Orange Sky” do Alexi Murdoch, recomendo fortemente que todos ouçam. Antes de prosseguir com a crônica, quero agradecer a Deus, Newton e a Hawking pela evolução tecnológica que nos permite encontrar uma musica rapidinho pelo celular. Isso é genial, quando se vem de uma geração de LP’s, walkman e fitas K7. Dando prosseguimento, a música nunca mais saiu de minha cabeça. Ela tem um trecho especial viciante que diz: “em seu amor, encontrei minha salvação.”

Eu lembro de meu pai falando sobre algo assim, quando nossa mãe se foi. Ele me dizia: “tento encontrar defeitos na passagem dela em minha vida, tantos quanto fossem suficientes para ignorá-la e a fazer sumir de minha memória. Mas o amor dela me trouxe a vida. Como detestar alguém assim?” ele me dizia isso no auge de sua tristeza. Ele passava longas horas lastimando sua ausência através de reclamações ao seu comportamento, ou falando de sua roupa e de sua fala. Mas eu sempre soube que era só uma forma de se convencer que existia um jeito de viver sem ela.

Eu passei algumas horas aproveitando o ventinho gelado do inicio da primavera, numa fonte perto de onde trabalho, imaginando que talvez Alexi Murdoch e meu pai tivessem em comum uma batalha enorme sobre amor. Talvez fosse tão forte que os fizeram explodir em algum momento da vida e não resistir mais. Talvez eles dois tivessem vindo de outras experiencias superficiais, sem o devido tom, com uma certa lamúria ou dor. Aí veio alguém, despido daquela roupa de linho chamada ego, e fez o coração deles dar uma volta por um lugar parecido com esse onde estou sentada. Um lugar silencioso, com uma fonte incessável, poucos pássaros e um banco confortável. Nesse lugar, pode-se descobrir muitas coisas sobre si. Inclusive se está pronto ou não para receber amor.

É tão fácil amar. Sim, caro leitor, é muito fácil amar. Eu por exemplo, adoro expressar meu amor por atos de generosidade. Gosto de fazer pãezinhos pra quando a pessoa amada chegar exausta, se chafurdar no trigo com caramelo. Gosto de fazer massagens, adoro comprar chocolates, livrinhos e coisas do tipo. Gosto de lembrar da pessoa, gosto de agir no formato do amor. Mas, imagine você que receber o amor significa se desprender do medo.

Alguém que tem medo de receber amor, vai com certeza se tornar arredio, ignorar gestos, presença ou até tentar se esquivar. Esses são sintomas de alguém que tem medo do amor real. Do hindu, Bhakti é o amor verdadeiro. Bhakti é a base da vida, da construção do ser, é a essência de Deus. Aceitar o bhakti, é receber cura. É perceber que é possível sair da zona de dor e conhecer uma verdade mais profunda. É chegar em casa e ter pãezinhos quentes, um escalda-pés com ervas e oléos e saber que alguém está te esperando pra cuidar de ti. É difícil. Muito difícil.

Principalmente se nós somos pessoas que já passamos por profundas rejeições. Ou nem tão profundas assim. Principalmente se a gente tem pleno conhecimento do que é viver uma série de conflitos emocionais. Traumas, solidão e uma boa dose de energias bagunçadas.

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Esse nosso lado rejeita o amor. Não consegue assumir sua existência ou não está disposto a vive-lo. Nós, que sempre fomos acostumados a ir ou ver pessoas indo, não sabemos o que é sentir toda transformação que o amor pode trazer.

Esse alguém me diz: “eu amo você, não há nada em você que me afaste o suficiente a te fazer ser um equivoco ou grande erro em minha vida.”

Mas eu digo: “não, eu acho que você vai se chatear com o que você vai ver e vai embora. Como todo mundo. Se eu receber seu amor, todas as minhas lástimas serão desfeitas e eu mergulharei no Bhakiti. Desculpa. Não conheço essa sensação, tenho medo. Já aconteceu muita coisa na minha vida e sei que as coisas não são assim.”

Viu? É esse o pensamento que se passa na mente de alguém que convive com você, mas por ora se afasta ou não sabe se quer ficar. E não adianta insistir. A pessoa deve estar pronta pra entender que energia louca é essa que a faz perceber que no fundo, suas dores não são suficientes pra a manter afastada de outra pessoa. Que coisa é essa que me atrai sempre pro mesmo caminho, mesmo eu estando moribundo de tanta caminhada sem interesses ou profundidades? Como você vai exigir algo de alguém que não está pronto pra experimentar, porque na verdade nunca recebeu?

Eu lembro de dizer pra alguém certa vez: “eu sei o que é amor. Fui amada de forma gratuita. Eu conheço o amor em todas as suas faces. Sou aquele alguém que estava frágil em seu lugar, e fui resgatada. E estou aqui agora pra dizer pra você que eu existo graças a esse amor.” Coisas bonitas saem da gente quando a gente se permite ser amado.

Bom, eu não sei se você está no trabalho, ou como eu, numa praça com uma fonte. Ou numa cafeteria com seu Shazam ligado tentando ver de quem é aquela música. Eu não sei se você está com medo, porque você acha que algo pode dar errado ou algo do tipo, ou se você está com medo da rejeição, porque obviamente, se deixar ser amado significa amar também. Mas eu preciso te dizer que, sim, talvez não dê certo. Talvez não haja tempo suficiente, talvez o tempo não colabore. Talvez a distancia atrapalhe. Talvez algo saia do percurso. Porque, na verdade, tudo é temporário, tudo é passageiro. Mas, não se deixa de fazer uma viagem só porque ela vai durar três dias. Não se deixa de comer um bolo só porque daqui há vinte minutos ele vai deixar de existir. Não se deixa de conhecer um lugar só porque você não sabe se vai voltar lá.

O amor no fim das contas é isso. É mergulhar nessa transitoriedade e extrair o máximo que se pode dessa experiencia sobre existir em outra pessoa. Sabe, depois dessa música que graças à tecnologia eu descobri, e que claro, se não fosse ela eu iria perguntar ao atendente; depois de passear numa praça bonita e depois de ver inúmeras mensagens em meu celular de várias pessoas em várias partes do mundo te garanto uma coisa: é bonito existir no coração de alguém. É bonito existir na memória de outras pessoas. É bonito ser eternizado à luz do amor.

E daqui há alguns anos, várias experiencias serão recontadas e me conservarão viva na memória de quem um dia me amou. Porque eu amei também. Se deixe ser amado e todo lugar será um bom lugar. Se deixe ser amado e você será eternizado. Se deixe ser amado, e toda dor será reduzida a nada.

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