Mãe doa parte do intestino para salvar vida da filha em cirurgia inédita no Brasil

Procedimento inédito no Brasil foi realizado com sucesso por médicos do Hospital Sírio-Libanês.


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Uma mãe doou parte do intestino delgado para a filha com Síndrome do Intestino Curto, condição decorrente da Artresia de Cólon, uma malformação ou ausência de parte do intestino delgado. Inédito no Brasil, o transplante foi realizado pela equipe médica do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e durou cerca de 12 horas.

Serena nasceu em 2016 e foi submetida a sua primeira cirurgia com apenas três dias de vida. A mãe de Serena, Priscila Carvalho, imaginava que logo após a cirurgia a filha teria alta e poderia ir pra casa.  Porém, vinte dias depois, Serena foi submetida a uma segunda cirurgia, perdendo 60 cm do intestino delgado, responsável pela absorção do alimento, devido a uma infecção no local.

Uma semana e meia depois, Serena teve complicações e precisou retornar ao centro cirúrgico, no Hospital de Clínicas da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo. Após a terceira, vieram a quarta, a quinta, a sexta, a sétima e a oitava cirurgia. Nenhuma delas foi capaz de reconstruir o intestino da pequena, pelo contrário.

A cada cirurgia, Serena perdia alguns centímetros do seu intestino delgado, ficando com apenas 5 cm ao final das oito cirurgias. Além de ter pedido metade do intestino grosso, responsável pela digestão do alimento e evacuação.

Leia também: A emoção desta mãe explica por que a doação de órgãos é tão importante

“Nos primeiros seis meses, a Serena já tinha feito oito cirurgias de intestino. Na última, o cirurgião disse que não tinha mais o que fazer. Ela não tinha intestino para comer e sobreviver”, disse Priscila em conversa com o Razões.

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Serena lutou bravamente das primeiras cirurgias para a reconstrução do seu intestino até o transplante

Como não podia se alimentar por via oral, Serena recebia nutrição na veia, também conhecida como nutrição parenteral. O problema é que, quando usada por muito tempo, pode comprometer o funcionamento de órgãos como o fígado e o rim. Sabendo disso, Priscila foi atrás de uma solução mais rápida: o transplante de intestino.

“No momento em que a gente descobre a doença, só queremos que as coisas melhorem. E não saber que existe tratamento no seu país é desesperador.”

Campanha

Vendo o sofrimento da filha, Priscila e o pai de Serena, Marcelo de Sousa Campos, decidiram criar uma campanha para arrecadar recursos e poder custear o transplante de Serena no exterior. Ela soube que existia essa possibilidade através da Simone Rosito, fundadora do Instituto Pequenos Grandes Guerreiros, que oferece assistência psicológica a famílias de bebês diagnosticados com Enterocolite Necrosante, uma doença que pode ocasionar a Síndrome do Intestino Curto.

Priscila enviou um e-mail ao cirurgião que já havia realizado transplantes de intestino com sucesso pedindo orientações. Ela não teve o retorno desejado, mas conseguiu o contato dos cirurgiões João Seda e Paulo ChapChap, do Hospital Sírio-Libanês. Dali alguns meses, os dois cirurgiões fariam o transplante de intestino em Serena.

Reabilitação intestinal

Primeiro, encaminharam Serena para o centro de reabilitação intestinal do Hospital Municipal Infantil Menino Jesus. O hospital possui um convênio com o Sírio-Libanês e acolheu Serena com uma equipe multidisciplinar. Pra melhorar a qualidade de vida de Serena, os médicos também ofereceram um treinamento à Priscila para a desospitalização da pequena, visando uma internação domiciliar.

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Serena foi cadastrada no Sistema Nacional de Transplantes. Sem conseguir um doador, os médicos contaram à Priscila sobre a possibilidade dela ser a doadora. Pra quem não pensava em outra coisa a não ser salvar a vida da filha, Priscila topou fazer os exames necessários e também parou de fumar para estar apta a doar mais de 1 m do seu intestino delgado à Serena.

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Priscila doou parte do seu intestino à filha, em um procedimento inédito no Brasil

12 horas de cirurgia

O transplante aconteceu no dia 20 de fevereiro, no Sírio-Libanês, chefiado pelos cirurgiões João Seda, Paulo ChapChap e Rodrigo Vincenzi. No mesmo dia do aniversário de 3 anos de Serena! Priscila doou 1 m e 60 cm do seu intestino delgado para a reconstrução do intestino de Serena. Esse é o primeiro transplante de intestino no país envolvendo um doador vivo!

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Priscila recebeu alta cinco dias após o transplante, se revezando com Marcelo no acompanhamento da filha no hospital. A menina teve alta na última quinta-feira, dia 9. Serena já consegue se alimentar por via oral e a comida que ela mais gosta é macarrão: também adoro!

“Mas tudo muito bem equilibrado, sem gordura, com apanhamento da nutricionista. Ela também toma uma série de medicamentos e faz reposição de vitaminas”, conta Priscila.

Por fim, a mãe fez questão de destacar a atenção que os médicos dão para Serena no pós-operatório. “São muito atenciosos, falo com eles diariamente. E tudo o que é feito pela Serena é através da filantropia do Sírio. Isso é muito legal!”, agradece Priscila.

Uma vitória coletiva

O transplante de Serena é uma vitória para outras famílias de bebês com a Síndrome do Intestino Curto. É o caso da Simone Rosito, fundadora do Instituto Pequenos Grandes Guerreiros. Simone criou o Instituto em homenagem ao Tom, seu sobrinho, diagnosticado com Enterocolite Necrosante. A doença ocasionou a Síndrome do Intestino Curto e Tom veio a óbito.

“Eu me sinto realizada. Quando meu sobrinho estava vivo, na minha cabeça, eu sonhei tanto com o momento dele fazendo o transplante. Eu me sentia como se o Tom tivesse feito o transplante. É uma felicidade muito grande, não só pela Serena e pela família dela, mas pelo o que isso significa para as outras famílias. É algo maravilhoso!”, afirma.

Dia Mundial de Conscientização da Enterocolite Necrosante

17 de maio é o Dia Mundial de Conscientização da Enterocolite Necrosante, uma das doenças cuja sequela pode ser a Síndrome do Intestino Curto. Um dia de esperança e otimismo para muitas famílias no Brasil e que têm muito o que comemorar com a notícia do transplante de Serena, certamente! É possível, continuem acreditando!

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mãe doa parte intestino filha cirurgia inédita brasilcrédito das fotos: Arquivo pessoal

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