Mãe e filho se reencontram em SP após ficarem separados por 24 anos e 9.500 km


Mãe e filho se reencontram em SP após ficarem separados por 24 anos e 9.500 km 1
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Em maio do ano passado, o edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, veio abaixo, deixando centenas de famílias sem teto, após um incêndio destruir sua estrutura interna.

Ana Paula Archangelo dos Santos era uma das moradoras do Wilton Paes – pagava R$ 200 por mês num cômodo com quatro dos sete filhos, dois netos órfãos, uma nora e o marido.

Assim como os outros sobreviventes do incêndio, ela e a família foram deslocados para acampar no largo da Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos. Lá, Ana Paula foi entrevistada pelo jornal Folha de São Paulo, onde estampou capa da revista.

Em novembro do ano passado, seis meses após o desastre, a jornalista Marlene Bergamo recebeu uma estranha mensagem em inglês numa rede social. “Hello and a very good morning Marlene! Sei que você não me conhece, mas vou explicar”, escreveu o homem.

No texto, o remetente explicava que viu a foto de Ana na capa do jornal e que ela poderia ser sua mãe, na qual ele nunca havia visto.

“Tenho 24 anos e estou tentando descobrir meu passado. Comecei a pesquisar online e encontrei uma reportagem na Folha de S.Paulo”, escreveu.

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Kilian Imwinkelried, 24, foi adotado quando bebê por um casal suíço. “Em meus documentos, o nome da minha mãe biológica é Ana Paula Archangelo dos Santos. Ela tem hoje 48 anos. São os mesmos nome e idade citados na reportagem. Na foto que você tirou, vejo muita semelhança comigo!”, exclama o rapaz.

“Sabe algo sobre ela? Meu nome de nascimento é Vitor Leonardo Archangelo dos Santos. Espero a resposta. Ficaria muito feliz”, ponderou.

Marlene disse que o antigo acampamento no largo da Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos já não existia mais; no entanto, deu-lhe esperanças ao dizer que possivelmente as lideranças do Movimento dos Sem Teto do Centro [de São Paulo] poderiam ajudá-lo com alguma informação.

Com a ajuda do MSTC, Ana Paula foi localizada na chamada “feira do rolo”, aglomeração urbana formada diariamente, próxima aos escombros do edifício que caiu um ano atrás.

Na feira, ela vende quitutes, quitandas, café e fumo para sustentar a enorme família.

Questionada sobre a cronologia de sua própria vida, ela se enrola. “Ai, menina, são tantos filhos, é tanto problema”.

Logo, confirmou que um dos filhos havia sido dado para adoção, mas ficou cética ao ser informada que ele estava tentando encontrá-la após todos esses anos. “Como pode? Só vejo isso na TV.”

Assim que viu a foto do rapaz, que mora atualmente na Suíça, seu ceticismo deu lugar ao choro compulsório. “Ele é igual a meu filho Gabriel. Tem o mesmo sorriso do meu outro filho, William, que mataram aqui. Ô meu Deus, por que que eu fiz isso?”

A história de Ana é complexa. Ela descobriu que estava grávida de um terceiro filho aos 23 anos. Trabalhava como empregada doméstica numa época em que a economia brasileira sangrava, com altas taxas de inflação e desemprego. Expulsa de casa pela mãe, ficou meses sem trabalho, procurando algum tipo de sustento, até ser contratada por uma família de classe média alta.

Assim que soube da gravidez da empregada, sua patroa ameaçou demiti-la. “Você não vai poder ficar aqui com essa criança”. Na época, Ana ganhava cerca de 50 cruzeiros por mês (R$ 930 hoje, ajustado pela inflação), dormia na casa da patroa e fazia absolutamente de tudo em casa.

“Eram três empregadas, copeira, faxineira, e eu, que fazia tudo.” Também cuidava das crianças. “Dava banho, comida, levava pra escola, botava pra dormir.”

Desesperada, pois precisava do trabalho para mandar dinheiro aos pais – que cuidavam dos filhos mais velhos, – Ana Paula não poderia perder o emprego. “Ia ficar onde com a criança? Ninguém fica com empregada grávida.”

Assim, decidiu entregá-lo para adoção, indo à Assistência Social.

“Pensei que iam me ajudar a achar um lugar pra ficar com ele, mas só perguntaram se eu queria dar o bebê. Eu não queria fazer isso, mas ele era pequenininho, não ia saber o que estava acontecendo, e alguém ia cuidar bem dele. Eu tinha que pensar nos outros dois filhos também,” lamenta.

Assim, nasceu Vitor Leonardo Archangelo dos Santos no Hospital Infantil Menino Jesus, prematuro de oito meses.

“Eles tiraram ele de dentro de mim, enrolaram em um pano, colocaram a pulseirinha com o meu nome e levaram. Nem amamentar cinco minutinhos deixaram. Disseram que, se eu não ia ficar com a criança, era melhor assim.”

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Ao voltar para a casa da patroa, questionaram-a sobre o bebê, e Ana disse que sua família havido levado-o embora.

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Leonardo foi adotado com três semanas de vida pelo casal de suíços Yvonne e Franz Imwinkelried, que há anos tentavam ter um filho, sem sucesso.

Com a ajuda de uma ONG brasileira, eles conseguiram adotar o garoto.

O juiz Antônio Augusto Guimarães de Souza, que deferiu a adoção, lembra que “naquela época, a maioria dos casais brasileiros não aceitava um menino que não fosse branco. Se eles [Yvonne e Franz] não tivessem adotado, ele teria crescido num abrigo.”

Leonardo foi rebatizado como Kilian Imwinkelried. Vinte e cinco anos após ter deixado o Brasil, o rapaz retornou no aniversário de 30 anos de casamento dos seus pais, que queriam passar as férias em solo tupiniquim.

Kilian já ansiava bastante para conhecer sua terra natal, sua cultura, seus costumes, seu povo, e agarrou essa oportunidade para entender o que é ser brasileiro. De quebra, queria muito conhecer sua mãe biológica, e tinha o apoio absoluto dos pais adotivos para isso.

Com a ajuda de várias pessoas, especialmente Marlene, o rapaz começou a investigar o paradeiro de sua mãe. Ele já tinha o nome completo dela, e tudo foi uma questão de tempo para encontrá-la.

Em 22 de novembro de 2018, graças a uma reportagem da Folha de São Paulo, que expunha o drama dos centenas de sobreviventes da tragédia do Wilton Paes, Kilian encontrou sua mãe na reportagem. “[Na verdade, nem foi] por causa do nome ou da idade. Vendo a foto mais de perto, eu me vi nela. Seu nariz, a boca, as mãos. Eu fiquei surpreso e em choque.”

Com a ajuda de Marlene, mãe e filho finalmente se reencontraram. Levou quase dois meses; para ambos, uma eternidade – mas o que são dois meses entre 25 anos de separação?

Eles se encontraram na esquina do Largo do Paissandu, em São Paulo. Na porta de um hotel, está Kilian, Yvonne (sua mãe adotiva) e Bruno, seu irmão.

Há alguns minutos dali, está Ana Paula, aos prantos, junto de três de seus filhos: Tati, Stéfani e Gabriel.

Kilian se aproxima aos poucos.

“Ele deve vir de lá… Não? É do outro lado?”. De repente fixa o olhar e sorri. “Eu já vi ele, ó, tá vindo. Ai meu Deus, eu não vou aguentar!”, diz Ana.

Do outro lado da esquina, Kilian suspira: “Aqui vamos nós!’, em inglês.

Eles se abraçam, absolutamente emocionados – e choram.

“Me perdoa, meu filho, me perdoa”, exclama a mãe. “Tudo bem, tudo bem”, consola o filho.

A ex-doméstica leva Kilian para conhecer seus três irmãos. Eles não sabiam da existência do rapaz até pouquíssimo tempo atrás. “Essa é a Stéfani,” a caçula. Todos choram nesse momento. “My little sister” (minha irmãzinha).

Dali a roda se abre para David, um intérprete amigo da família que auxiliará na tradução.

Em alemão, Kilian diz: “Tenho tantas perguntas”.

Ana abraça Yvonne e ainda aos prantos, agradece: “Muito obrigada por tomar conta do meu filho.”

“Muito obrigada”, devolve a suíça.

Ao final, Ana conclama David para traduzir uma frase essencial. “Quero falar uma coisa para Yvonne. Eu nunca vou querer tirar ele de você. Ele é teu filho. Vocês são a família dele”.

Ao que Yvonne e Franz respondem: “Nós somos muito felizes por sermos os pais dele. Nós o amamos muito”.

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Fonte: Folha de S. Paulo
Foto destacada: Marlene Bergamo / Folhapress

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