Sobre contadores de histórias


Fotografia de Tony Luciani
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Eu quebrei o dente quando, um dia na escola, vi minha mãe despontar no portão. Eu corri por uma ladeira íngreme e capotei rolando por longos 30 segundos. Depois do escândalo que fez o pátio parar, minha mãe me levantou, pôs gelo em meus lábios inchados e disse em bom tom: pra que tanta pressa?

Nos dias de hoje, dar seu devido tempo é sempre uma questão de confiança, não apenas pra quem espera por algum desfecho, mas também pra quem recebe essa liberdade. Pra quem é acostumado a trens lotados, engarrafamento, barulhos matinais e um café expresso caro, liberdade não é bem a palavra do dia.

Não é sobre cronogramas, calendários, relógios superinteligentes ou agendas no celular. É sobre escolher ser o que ninguém o que a grande maioria se recusa a ser: um contador de grandes histórias.

Elias era um senhor que morava na casa da frente. Ele sempre sanava a dor de meu pai com uma boa história. Eu não sabia que ele era bom nisso até aceitar uma de suas ofertas pra entrar na sua sala simples e comer um pedaço de bolo de macaxeira.

Ele contou inúmeras histórias pro meu pai, sobre colheitas de milho, chuvaradas no sertão, perseguições e amores perdidos. Meu pai ouvia atento. Ele, que já era um veterano pra mim, parecia um soldado prestes a entrar na batalha ouvindo sobre histórias de combates.

Minha imaginação costuma me dar indícios de que talvez os dois estejam sentados em algum lugar no espaço espiritual, rememorando historias dessa vida. Mas uma coisa que entendi juntando os cacos de uma ou outra experiencia vivida, é que foi necessário tempo. E talvez a palavra temperança tenha a ver com essa coisa de deixar as coisas acontecerem.

Temperança é uma dádiva em dias cegos. Fala sobre serenidade, prudência e observação. É uma porta aberta pro novo entrar, sentar e dividir umas rosquinhas com chocolate quente. É uma janela pro por do sol, igual a essa que tenho em meu quarto provisório. Aliás, é comprometimento consigo mesmo, sabendo que tudo é provisório.

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Já que estou nesse espirito de dicionário, provisório é uma palavra legal. Vem de prover por agora. Eu tenho entendido que tudo que temos é o agora. Então, agora eu tenho o suficiente.

Por ter o suficiente, e saber que eu não preciso de muito pois estou comprometida em me contar a verdade sempre, eu sou livre. E sendo livre, eu liberto pessoas. Eu dou tempo a elas.

E isso é tudo que esse mundo precisa. Você percebe que a causa das tristezas infames e das angustias profundas tem relação com o sufoco da pressa? Todo mundo corre de um lado pro outro sem nem saber pra onde, e não se olha devagarzinho.

Todo mundo vê sua provisão, ali parada, que nem minha mãe na porta da escola, e corre mesmo assim, sabendo que pode se machucar. A gente não para pra ouvir quem está aqui. A gente só que continuar andando, na estrada escura.

Uma vez uma colega disse que gostaria de ter dinheiro o bastante pra doar a instituições de caridade, mas por não ter, continua assistindo as dificuldades do mundo com tristeza. Lembro de ter dito a ela: existem provas amor que não custam mais que um olhar.

Exatamente. Um olhar as vezes é suficiente. Virar a face e avaliar com calma quem passa de seu lado dando bom dia. Cumprimentar com profundidade sem jogar vogais fora por acaso. Ser a beleza que se espera no seu dia.

Eu que sou acelerada, aprendi a não ter pressa. E por não ter pressa, aprendi a oferecer a quem convive comigo uma rotina sem atropelos. Talvez por isso, meus ex-namorados continuam sendo grandes amigos. Talvez por isso eu esteja tendo uma vida paradoxal aos dias de hoje.

Isso me custou um pedaço de meu dente, mas me tornou uma grande contadora de histórias.

Fonte da imagem: fotografia de Tony Luciani

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