Aos 18 anos, refugiada cresceu em favela do Rio e hoje estuda na Harvard

Aos 4 anos, Mariam Topeshashvili, hoje com 18, mudou-se para o Brasil, mais exatamente para o Rio de Janeiro. Nascida na Geórgia, seus pais trabalhavam aqui como ambulante e doméstica.

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Infelizmente, um câncer de pulmão levou seu pai e foi após esse momento triste em sua vida que ela começou a se envolver com trabalho voluntário.

Além disso, passou a trabalhar com pesquisa no ensino médio e dedicou-se a aprender línguas e hoje fala 5 diferentes.

Atualmente, é bolsista integral em Harvard.

Em depoimento emocionante para a Folha de S. Paulo, ela compartilha sua trajetória. Leia abaixo e inspire-se:

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“Nasci na Geórgia em 1996. Depois da queda da União Soviética, o país se acabou. Meu pai era comunista e começou a ser perseguido. Entramos no Brasil como refugiados quando eu tinha quatro anos, depois de meu pai pedir asilo político para a ONU.

O diploma do meu pai em ciência política era expedido pela União Soviética, que não existia mais, então não foi aceito no Brasil. Minha mãe, que trabalhou por 35 anos com enfermagem, também não conseguiu continuar exercendo sua profissão.

Por isso, a gente se mudou para Ladeira dos Tabajaras, uma comunidade carente em Copacabana, no Rio. Lá, meu pai virou ambulante, vendendo bebidas na praia. Minha mãe conseguiu um emprego como empregada doméstica, cuidando das crianças de uma família judia.

A parte boa da minha infância é que eu sempre ia com o meu pai para a praia e, quando ele não estava trabalhando, ele me contava suas histórias e do Partido Comunista. Comecei a me apaixonar pela leitura por causa dele.

Ele vivia me dizendo como lá era diferente de uma sociedade capitalista, comparando com o que estávamos vivendo. Ele explicava que não era melhor ter ficado em casa, porque lá a gente não sabia se ia ter pão para o dia seguinte.

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Quando eu tinha 11 anos, meu pai morreu de câncer de pulmão. Minha mãe ficou deprimida e eu não sabia o que fazer. Foi quando eu me perguntei o que eu estava fazendo no Brasil. Eu vi o quanto foi desgastante para o meu pai subir o morro todos os dias com aquela caixa enorme de bebidas.

Pensei que, se eles passaram por tudo isso, foi para me dar um futuro melhor, então quis dar orgulho para minha mãe e fazer valer a vida do meu pai.

Ainda no ensino fundamental, comecei a me envolver com trabalho voluntário, dando monitoria de matemática e química. Durante o ensino médio, estagiei na Petrobras, fazendo pesquisa, e trabalhei na PUC, na área de filosofia do direito.

Completei meus estudos de inglês cedo, com bolsa em uma escola de línguas. Foi então que comecei a pensar em estudar fora do país. Hoje eu falo cinco idiomas: georgiano, que a gente falava em casa, português, inglês, francês e russo.

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Além disso, participei também de olimpíadas científicas e fiz parte de um projeto na Finlândia, um acampamento de verão para jovens envolvidos com ciência. Apesar de gostar de economia e política, nunca quis abandonar as ciências exatas.

No primeiro ano, descobri que podia estudar nos Estados Unidos independentemente da minha condição financeira. Minha mãe estava com dificuldade de manter nós duas, então eu poderia tentar uma bolsa em uma universidade americana.

Passei em um programa da Education USA, que acompanha o processo seletivo para ir para fora e banca todas as provas. Meu objetivo era ter o melhor rendimento acadêmico possível, mas continuei com o trabalho voluntário. Durante a escola, fiz parte de um projeto de leituras para deficientes visuais.

Passei em sete das 11 universidades que eu me candidatei, e decidi vir para Harvard, onde consegui uma bolsa integral. Meu objetivo aqui é tirar um duplo diploma em ciência política e economia.

Queria centralizar minha pesquisa na Guerra Fria, e eles têm a maior biblioteca de arquivos secretos do bloco soviético e americano aqui.

Realmente é uma coisa que me interessa, porque desde criança estou envolvida nesse assunto, que permeia tudo que aconteceu comigo e com o meu pai.

O que eu queria entender, e que me intriga, é como decisões tomadas há mais de 50 anos podem ainda influenciar a vida de alguém.

Se você for pensar, a vida do meu pai e a minha só foram assim por causa de decisões que foram tomadas depois da Segunda Guerra Mundial. É isso que eu queria responder na minha pesquisa em ciência política”.

Uma bela história, né?!

Foto: Arquivo Pessoal

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