Artista e fazendeira preserva mata nativa, protege animais e enfrenta machismo nos campos do sul do país

À frente da Fazenda Cerro dos Porongos, nos arredores do Alegrete (RS), Graça Tirelli concilia a carreira de artista plástica com a de produtora rural e mantém em torno de 1.500 hectares de vegetação nativa na região, ajudando, assim, a conservar o bioma do pampa gaúcho. “Me sinto uma guardiã do pampa”, conta ela, que faz parte da Alianza Del Pastizal, um grupo de 250 fazendeiros da região que, desde 2007, trabalha em prol da conservação do meio ambiente e da produção sustentável.

Afinal, manter a vegetação nativa do pampa é a principal ação que pode salvar a biodiversidade na região. O pampa é o único bioma do país presente em apenas um estado, o Rio Grande do Sul, onde ocupa 63% do território. Porém, o avanço das lavouras ameaça o ambiente: se a devastação continuar no ritmo atual, em 2050, restarão menos de 13% do bioma coberto por campos nativos, segundo o projeto de mapeamento do uso de terras MapBiomas.

Foi assim que, quando assumiu a fazenda da família, em 2001, Graça decidiu levar à frente os ensinamentos de seu pai. “Ele nunca deixou caçarem na fazenda e nos ensinou o respeito pela natureza. Por isso, sempre tive esse foco em produzir sem deixar de lado a preservação.”

Dias de campo

Para alcançar esse objetivo, Graça alia a produção pecuária a tecnologias de baixo impacto e iniciativas de educação ambiental, como aulas de bem-estar animal periódicas para os funcionários e os chamados “dias de campo”, em que abre as portas da fazenda para visitantes e mostra como é possível manter a vegetação nativa e continuar produzindo.

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À frente de uma fazenda no pampa gaúcho, Graça Tirelli mostra que é possível produzir de
maneira sustentável. Foto: acervo pessoal

A formação em biologia também inspirou a fazendeira-ambientalista a trabalhar lado a lado com a ciência: a propriedade recebe pesquisadores de diversas áreas, que, em parceria com a Alianza Del Pastizal, estudam os hábitos de pássaros que migram para o pampa para reproduzir e dependem da vegetação nativa para sua sobrevivência.

“A fazenda é referência tanto na produção de terneiros de qualidade quanto na preservação. Existe uma pressão muito forte na região para arrendar fazendas para a produção de soja, que rende muito dinheiro, mas também impacta fortemente o bioma. Por isso, eu não abro mão dos campos nativos”, explica Graça. “As pessoas estão começando a se dar conta de que nós somos os guardiões desse bioma.”

Diversidade nas fazendas

Graça também chama atenção para uma bem-vinda diversidade no comando das fazendas. Como mulher, ela enfrentou resistência de outros produtores rurais quando começou a trabalhar como fazendeira. Mas, hoje, depois de cerca de vinte anos produzindo com qualidade e respeito ao meio ambiente, ela se orgulha de fazer parte de um núcleo de mulheres agropecuaristas que trabalham juntas no Alegrete.

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Além disso, os reflexos positivos da abordagem sustentável já são notáveis: o pássaro veste-amarela, em ameaça de extinção, por exemplo, se tornou símbolo da Alianza, desde que passou a ser encontrado nas áreas em que a vegetação nativa é mantida. A ave serve como um medidor de qualidade ambiental: quanto mais espécimes são vistos, mais saudável é o ambiente.

“É importante que as pessoas se deem conta do tesouro que têm nas mãos. O desenvolvimento sustentável é o que pode nos levar adiante”, diz a agropecuarista e artista. “Quando as pessoas tiverem consciência disso, vamos conseguir salvar a beleza do pampa.”

Texto: Gabriel Oliveira
Foto: Yasmin Galvão
Conteúdo publicado originalmente na TODOS #41, em janeiro de 2022.

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