Casal de cadeirantes monta sala de aula em garagem e alfabetiza crianças em SP

A perda do movimento das pernas e a limitação física não impediram Sônia Soranzo, 60 anos, e Jeferson Andrade, 55 anos, a seguir adiante e servir de inspiração para um projeto social que ajuda crianças a se alfabetizarem em Ribeirão Preto, no interior paulista.

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Juntos há cerca de 30 anos, o casal acredita que somente a educação é capaz de transformar o mundo. Por motivos adversos, nem Sônia, que atualmente trabalha como telefonista, nem Jeferson, que é um vendedor aposentado, puderam concluir os estudos.

A falta de oportunidade e de acesso ao conhecimento motivaram os dois a abrir as portas de sua casa, no bairro Orestes Lopes de Camargo, para meninos e meninas com dificuldades de aprendizagem.

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Na sala de aula improvisada na garagem de casa, Sônia e Jeferson oferecem aulas de reforço escolar gratuitas.

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“A gente levanta a autoestima e mostra que eles são capazes. Começamos pelo básico: ensinamos a ler, escrever e a pensar”, diz Sônia. “Tem criança que chegou aqui sem saber ler e escrever, mas hoje está em uma faculdade.”

O casal se conheceu durante uma partida de basquete para cadeirantes. Juntos, encontraram no amor a força necessária para superar obstáculos que se impuseram desde cedo em suas vidas.

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Sônia teve paralisia infantil. Pouco após completar 16 anos, precisou trocar as muletas por uma cadeira de rodas devido a uma cirurgia mal-sucedida na coluna. Com a mesma idade, Jeferson perdeu os movimentos das pernas após uma meningite grave.

Com muita luta e suor, acumularam conquistas ao longo da vida. Jeferson conseguiu se aposentar vendendo doces no semáforo. Já Sônia hoje conquistou o emprego de telefonista. Quando estão de folga, juntam latinhas para conseguir uma grana extra.

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Aos poucos, eles conseguiram construir sua casa. Com o objetivo alcançado, e para permanecerem motivados, o casal teve a ideia de oferecer as aulas de reforço escolar.

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“Um dia, assistindo ao culto, veio na palavra que tinha que investir em educação e cultura. Aí, no outro dia, bateu uma criança na minha porta, pedindo para eu ajudar com reforço escolar, que os pais iam me pagar”, relembra Sônia.

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Ela aceitou o pedido, mas rejeitou o pagamento. De quebra, chamou outras crianças para participar das aulas de reforço. Não demorou muito para a sala improvisada ficar cheia.

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A iniciativa foi batizada de ‘Suave Caminho’ e atualmente atende cerca de 20 crianças com idades entre 5 e 12 anos, divididas em duas turmas.

“A gente organiza o alicerce, porque, com um alicerce bem feito, as paredes sobem direito. Agora, se não estiver bem feito, você vai sendo empurrado”, diz Sônia.

Carinhosamente chamados de Tia Sônia e Tio Jeferson, o casal afirma conhecer bem as dificuldades de cada criança e procuram tratá-las de maneira individualizada. Durante as aulas, quando notam que o aluno não está bem, eles preferem deixá-lo livre para fazer desenhos ou ler gibi, ao invés de forçá-lo a aprender.

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“Estou lidando com gente, não com objetos”, diz Sônia. “Eu abraço, beijo. Se você está contente, ninguém vai dizer ‘não fica contente, não’. Agora, se está triste, tem que respeitar também.”

Um aprendizado fundamental do projeto Suave Caminho é a importância de jamais desistirmos dos nossos sonhos, por maiores ou mais complexos que eles sejam. Como exemplo vivo disso, os alunos contam com a história de vida dos professores.

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“A maior lição não está na lousa. Está na minha cadeira e na do Jeferson, porque eles veem que o impossível é possível. Basta querer”, afirma Sônia. “A pior deficiência é a preguiça, porque não tem nada que resolva. Não saber não é um problema. Não querer aprender é.”

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“Levanto às 4h30, saio às 6h e volto quase 14h. É Deus e nós dois. Não é fácil. Para você colocar essa mesa lá, é um minuto. Para o Jeferson, não. Ele tem que por a mesa no colo e ir com a cadeira. Mas a gente faz. Deus não escolhe capacitados. Ele capacita os escolhidos”, complementa. “Luto por eles como lutaria por um filho. Meu sonho é abrir a porta de um consultório e ver uma criança que saiu daqui. A gente está mudando a história com lápis e borracha, não com pote de ouro”, conclui a telefonista.

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Fonte: G1/Fotos: Pedro Martins/G1

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