Crianças da Maré fazem cartilha para orientar comportamento de policiais em operações

"Não atirar sem ter certeza que essa pessoa é um bandido" e "Não invadir as casas dos moradores, se entrar não bater neles" são pontos destacados na cartilha.


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Crianças e adolescentes do Complexo da Maré, com idades entre 11 e 15 anos, escreveram uma série de cartas endereçadas aos policiais militares do Rio de Janeiro, como resposta à iniciativa do governador do estado em criar uma cartilha com instruções a moradores de favelas sobre como agir durante operações policiais.

A ‘cartilha’ que orienta policiais sobre como se comportarem em meio às operações de rotina nas comunidades da Maré será entregue no Palácio Guanabara nesta segunda-feira (30).

“Tenho apenas 14 anos de idade e moro no Complexo da Maré. Eu só quero pedir uma coisa a vocês, policiais e bandidos: por favor, parem de matar inocentes”; “Acham que a gente está acostumado com os tiroteios, mas todos os dias de confrontos são uma nova aventura de terror”; “De tiros eu não tenho medo, mas o helicóptero me deixa em pânico”, dizem alguns trechos da cartilha.

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A ideia partiu de Manoela (nome fictício), de 15 anos. A jovem afirma que já teve a casa invadida por policiais durante uma incursão. Ao ler uma reportagem sobre a ideia do governador de escrever uma cartilha para a comunidade, decidiu inverter os papéis: ‘‘O que os policiais não devem fazer quando entram nas comunidades?’’.

Crianças Maré cartilha orientar policiais

“Lido com isso todos os dias. São situações que me deixam em pânico e me sinto impotente. Vivendo na favela a gente aprende”, disse.

Operações policiais são rotina

Pouco comum para boa parte da população carioca, essa realidade é corriqueira para os moradores de favelas: tanto em confrontos entre traficantes como em operações policiais.

De acordo com a plataforma Fogo Cruzado, 5.513 disparos na Região Metropolitana foram computados de janeiro a agosto deste ano.

“Aqui a situação é muito complicada. Montamos uma metodologia especialmente para crianças e jovens de escolas públicas da comunidade que têm bloqueios cognitivos e emocionais devido à exposição constante a traumas e violência”, explicou Yvonne Bezerra de Mello, criadora do Projeto Uerê. No telhado da ONG há uma placa amarela com o alerta ‘‘Escola. Não atire’’.

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Matheus (fictício), de 14 anos, lembra a primeira vez em que ficou na linha de tiro entre criminosos e a polícia. Ele estava em uma van com a mãe, voltando da escola. “Não sabia como reagir e só conseguia pensar no meu pai que trabalha fazendo transporte escolar pela Maré. Tive muito medo de nunca mais vê-lo”, desabafa.

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Já Vitória*, 14 anos, conta que no mês passado, enquanto tomava banho para ir à escola, ouviu o helicóptero sobrevoar sua casa. Não demorou muito para os disparos de bala começarem. De repente, uma bala atravessou a janela do banheiro, a menos de 1m de onde ela estava. “Vou para a escola porque quero tentar melhorar de vida e sair daqui.”

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Para a idade, espera-se que esses jovens estejam em plena fase de estudar e brincar – mas a realidade de cada um é muito diferente da ideal.

Kauan* mora com os pais e a irmã mais nova, de 2 anos. Ele conta que no início do ano, durante uma operação policial, recebeu um telefonema do pai pedindo para ele correr para casa.

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“Ele me ligou desesperado, busquei minha irmã e corri por dez minutos até a minha casa. A operação estava acontecendo em uma outra parte da Maré e não podia deixar ela sozinha na creche”, diz o garoto, explicando que o pai ficou literalmente no meio do fogo cruzado.

Esses traumas infelizmente se tornaram constantes e banais para muitas crianças, que sofrem de insônia e crises de ansiedade. Muitos estão sob acompanhamento psiquiátrico. Tudo decorrente dos incessantes tiroteios na disputa dos territórios entre criminosos e as forças policiais.

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Para a professora Joseanne Ferreira, de 56 anos, que dá aulas há 15 anos no Projeto Uerê, “os diálogos são o melhor remédio para acalmar os alunos”.

“Aqui ficamos na divisa entre facções rivais. Quando não são confrontos entre eles, temos as operações em horários escolares. Isso precisa mudar, as crianças ficam escondidas no corredor e as pessoas têm tratado isso como se fosse algo natural. Não é normal. Eles deveriam estar brincando e estudando sem preocupações”, afirma a professora.

De acordo com o governo estadual, “a cartilha citada por Witzel faz parte do Plano de Segurança e Defesa Social, elaborado pelas secretarias de Polícia Civil e Polícia Militar, Defesa Civil, Ministério Público e Judiciário, e será validada pelo Conselho de Segurança Pública do estado.”

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Fonte: O Globo/Fotos: Agência O Globo/Reprodução

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