A guerreira que luta por direitos e contra a violência em bairro carente de Campinas (SP)

Carmen teve que superar a violência em sua vida para fazer o mesmo na comunidade fundada por ela


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(Por Ingrid Vogl)

Carmen Sousa é figura conhecida na região do Campo Belo, Sul de Campinas/SP. Baixinha com cabelos encaracolados na altura dos ombros, a líder comunitária da Comunidade Menino Chorão está sempre em movimento pelas causas ligadas à luta pela igualdade de gênero ou direito das mulheres. O sorriso no rosto de expressões fortes mostra uma das marcas dessa mulher que muitos não conseguem imaginar as superações pelas quais já precisou passar: a luta contra a violência.

“Os dentes eu perdi defendendo uma companheira de um agressor”, diz com naturalidade ao entrar na oficina Cultural da Mulher, uma área aberta e construída com madeiras, telhas e outros materiais reutilizados onde rola de tudo: desde oficinas culturais até festas, reuniões e churrascos da comunidade. Ali, um grupo de mulheres preparava uma faixa para representar a comunidade no ato que aconteceria no centro da cidade no mesmo dia, 8 de março, para celebrar o Dia Internacional da Mulher.

Enquanto conversava comigo em um banco de madeira, Carmen orientava o grupo de mulheres que preparava a faixa com letras feitas em tecidos estampados e coloridos com o nome da comunidade. A mesma acolhida que ela sempre recebeu durante sua trajetória, ela replica para quem vai até ela.

Força

Resiliência, luta e superação são palavras que sempre permearam a trajetória de vida dessa cearense, que em 2004, aos 34 anos, caiu no conto do vigário. Ela veio de Fortaleza para Campinas batalhar por emprego e uma vida melhor, especialmente para os 7 filhos que ficaram em sua cidade natal. Deixando para trás um casamento abusivo, decisão que fez com que quase toda a família a condenasse, ela veio parar no Itatinga (área de prostituição), vítima de tráfico de pessoas. Lá ela permaneceu por 40 dias, quando conseguiu fugir com outras três amigas que também vieram na mesma situação.

“Jamais imaginamos que cairíamos em uma cilada dessas, mas nunca tínhamos ouvido falar de tráfico de pessoas. Conseguimos fugir e denunciar nossa situação e fomos acolhidas pelo SOS Ação Mulher e Família, que ajuda e defende mulheres. Sofri muito, fiquei com trauma de mulheres brancas e loiras, porque foi uma pessoa com essas características que inventou toda uma história de vida melhor para que eu chegasse até o Itatinga. Por um período, eu entrava em pânico toda vez que via uma mulher assim. Foi a equipe da instituição que me acolheu e me ajudou a superar esse trauma. Hoje uso o cabelo pintado de loiro por ideia da psicóloga de lá, que é um símbolo de resistência e de superação, que significa que qualquer um pode ser loiro e isso não significa que a pessoa é do mal”, explica Carmen.

Após todo o processo de acolhimento que Carmen recebeu do SOS Ação Mulher e Família, quando ficou 4 meses em um abrigo, ela decidiu ficar em Campinas. “Fortaleza é uma cidade machista e violenta, só sabe quem vive lá. Eu só queria trabalhar e sustentar meus filhos que ficaram no Ceará sendo cuidados por minha tia. Além disso, eu não queria voltar com fama de que vim ser prostituta em São Paulo e nem pra isso eu prestei. Não queria voltar com uma mão na frente e outras atrás. Eu via em Campinas a oportunidade que não tinha lá, e senti muita força com o apoio da equipe do SOS Mulher para seguir com meu sonho”, diz.

Carmen ficou e superou mais essa situação. Recomeçou sua vida com o apoio da instituição social. Alugou uma casa, trabalhou como faxineira e fez curso de cabeleireiro, ofício que já tinha prática, mas não a técnica. E assim, Carmen se reergueu e empreendeu, montando seu próprio salão na Avenida Pastor João Prata Vieira, no Jardim Vista Alegre, onde permaneceu por quatro anos. “Fui feliz naquele período. Eu pagava dois aluguéis: do meu salão, de casa e ainda mandava dinheiro para minha família no Ceará”, contou.

Nesse período, Carmen se envolveu com um homem que segundo ela, era acima de qualquer suspeita, em um relacionamento harmonioso, respeitoso e sem brigas. “Em 2008 precisei enterrar meu filho que morreu de dengue em Fortaleza. Fiquei dois meses por lá e quando voltei não tinha mais nada em casa e no meu salão, nenhum móvel, nenhuma toalha. Não sobrou uma tesoura de cortar cabelo, ele me deu um golpe. Ele disse para os vizinhos que estava fazendo minha mudança. Além da morte do meu filho, fui roubada e tomei outro baque”, lembra entristecida.

Ocupação

Mais uma vez, Carmen precisou reunir forças para seguir em frente. Para isso, teve o apoio dos amigos e assim recomeçou trabalhando em salões de conhecidos. Aos poucos conseguiu comprar secador de cabelo e outros equipamentos, alugou uma casa e novamente foi trabalhar sozinha como cabeleireira. Mas os tempos eram difíceis e ela mal conseguia se sustentar.

No início de 2009 surgiu uma ocupação de moradias no Jardim São Domingos. Carmen fez parte do grupo, mas em pouco tempo foi despejada. “Ficamos na rua sem ter para onde ir. A gente parecia zumbis andando sem destino, a maioria mulheres e muitas com crianças pequenas. Minha primeira atitude foi procurar comida com mais algumas pessoas para essas mulheres com filhos. Na primeira casa fomos recebidos com uma jarra de água gelada na cara, mas não desistimos. Na próxima tentativa, conseguimos comida”, lembra. A partir daí uma rede de solidariedade foi crescendo e muita gente ajudou alimentando o grupo despejado.

“Meu sofrimento maior era ver aquelas mulheres com crianças passando fome. Meu coração estava amargurado porque eu já tinha passado por muito sofrimento, mas nunca por aquela situação. Meus filhos tinham casa e apesar de estar na rua, sabia que eles estavam protegidos. Me coloquei no lugar delas e minha preocupação era acolher e arrumar comida, porque quando se está com fome, você não tem coragem de pedir porque se sente humilhado. É muito mais fácil pedir por alguém que está com fome do que para você mesmo”, explica.

Foi aí que começou a chover. Carmen se lembra que entrou em desespero quando viu uma mãe com uma lona preta embrulhando os filhos que ficaram cobertos, mas a lona não era suficiente para cobrir a mulher. “Aquilo me marcou muito e comecei a procurar um lugar para colocar as mulheres e crianças. Encontramos um vigia do bairro e ele avisou que tinha 49 casas abandonadas”, afirmou. As casas em questão são do residencial Jardim Marisa, que fica próximo de onde o grupo despejado estava.

“Nós entramos pela janela, arrebentamos as portas e entramos. Fiquei quase um ano lá, até ser a primeira a ser despejada, porque fui flagrada pela equipe de um jornal arrombando uma das casas”, conta.

Mais uma vez despejada, Carmen conta que alguns amigos ajudaram a guardar seus pertences e saiu sem destino, até chegar onde hoje é a Comunidade Menino Chorão. “Olhei da rodovia Santos Dumont e só vi o colonião alto”. Ela conta que havia uns cinco barracos montados por ali, e que conversando com uma das moradoras, descobriu que a invasão não tinha líderes e nem organização.

E foi ali mesmo o lugar escolhido por ela para montar seu barraco. Mais uma vez com a ajuda de amigos, ela se instalou no local e encorajou os colegas que ainda estavam no Jardim Marisa a irem para onde estava já que o despejo era uma questão de tempo. Aos poucos, os amigos foram chegando, e apesar de Carmem ainda não se entender como líder comunitária, ela já estava se tornando uma.

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Chorão

Até então, a comunidade que estava sendo formada não tinha uma liderança. Em uma reunião com as cerca de 50 famílias que já estavam no local, essa questão foi decidida. “Eu me dispus a correr atrás dos direitos e lutar pela comunidade. Mesmo analfabeta, eu correria atrás de quem pudesse nos ajudar, e pedi para quem concordasse, que levantasse a mão”, diz. A votação foi unânime.

Carmen lembra que o interesse do grupo era por moradia e por vizinhos que se apoiassem e se ajudassem, porque a maioria que chegava, não tinha emprego e casa. Em sete meses, a comunidade passou de 50 a 200 pessoas, a maioria (80%) era mulheres.

O nome Menino Chorão foi uma homenagem muito especial e significativa. A Comunidade leva o nome de Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista da banda de rock santista Charlie Brown Jr, falecido no dia 6 de março de 2013. “Chorão foi o primeiro homem a nos ajudar e apoiar. Ele e os amigos chegaram até aqui porque apoiavam um projeto que acolhia moradores de rua, e um desses assistidos estava aqui. Foi ele quem nos deu as primeiras cestas básicas e marmitas, deu madeira e telhas para construirmos as casas, fogão, cama, guarda roupa. Ele nos orientou na demarcação de ruas, sobre os locais que deveríamos deixar livres para futuras praças e escola. Não sabíamos que ele era cantor e famoso no início. Não tínhamos energia elétrica, TV, jornal. Um dia um menino reconheceu. E ele disse que era cantor, mas que estava aqui como amigo para nos apoiar e nunca quis que a gente fizesse alarde sobre a ajuda que ele nos dava”, afirma.

Carmen lembra com carinho do voluntário ilustre que se tornou um grande amigo. “Quando ele chegava aqui, era uma correria para receber o Chorão. Ele montava uma tenda debaixo daquela árvore ali e servia alimentos em um panelão de comida”. Isso aconteceu durante cerca de um ano, até a morte de Chorão. .

Segundo a líder comunitária, Chorão sempre lembrava que a luta por moradias era legítima e encorajava a comunidade que estava se formando a seguir unida na luta por seus direitos, além de exigir respeito e não aceitar humilhações. “Ele foi um anjo que Deus nos enviou para ajudar. Temos um respeito enorme e somos eternamente gratos por tudo que o Chorão fez para a comunidade. Não temos nenhuma foto com ele, mas em nossa memória ele estará sempre vivo”, disse emocionada.

Olho por olho

Com o passar do tempo, a comunidade foi crescendo, e as mulheres começaram a trazer os companheiros, e assim um novo problema surgiu: a violência contra a mulher. Carmen conta que ela e mais um grupo de amigas começou a ficar atenta às gritarias e bates bocas. “No início era eu e mais algumas amigas, depois fomos crescendo e formamos um grupo de defesa enorme, com mais de cem mulheres da comunidade. Procuramos conversar com o agressor e mediar o problema, mas isso não adiantava e a violência continuava a acontecer. A polícia não tomava providências. Então, não tivemos dúvidas: começamos a descer a chibata e demos muita porrada nos agressores”. Carmen admite que recebeu muitas críticas pela decisão de combater violência com violência, mas não demonstra arrependimento. “Porque eles podem nos bater e nós não? Também sabemos bater”, diz categórica.

Outra tática antiviolência adotada pela Comunidade foi a lei do apito. “Aqui apito não é brincadeira de criança, é pedido de socorro”, diz. A ação consiste na comunidade sempre estar atenta a indícios de violência e usar o apito para alertar sobre o ato. Mesmo assim, os casos de violência contra as mulheres ainda aconteciam. Segundo Carmem, o que de fato resolveu a situação foi greve de sexo, uma ideia que Carmen trouxe de uma Marcha Mundial das Mulheres da qual havia participado.

“Nesse encontro falavam que o homem transar com mulher a força era estupro. Cheguei e passei a informação para o grupo de mulheres: vamos usar isso contra eles. Isso se espalhou pela comunidade e em pouco tempo, todas estavam usando essa tática em qualquer ato de violência contra elas. Os homens ficaram muito bravos comigo e até hoje têm medo da greve do sexo”, conta. Foi assim que os casos de violência contra a mulher zeraram durante dois anos.

União e respeito

Carmen fala com orgulho da comunidade como um espaço em que as mulheres têm papel de destaque. E na qual as regras são definidas por elas. “Aqui respeitar mulher é lei. Homem entra aqui sabendo que essa comunidade é feminista e que é preciso ter respeito acima de tudo. Tudo tem dedo da mulher, aqui o homem não resolve nada sozinho, todos devem concordar e tudo é decidido em grupo”, diz.

Hoje, após 10 anos de sua criação, a Comunidade do Menino Chorão possui 381 famílias que crescem com a consciência de que é preciso ter respeito e união. “Aqui até as crianças já crescem sabendo que não se pode cometer nenhum tipo de violência contra a mulher, porque isso é crime”, avisa.

Com erros e acertos, Carmen comandou um movimento na comunidade que hoje tem resultados admiráveis e que também alcançou os homens, que hoje apoiam a causa feminista. “Tivemos um caso de violência no fim do ano passado, depois de dois anos. Todos ficaram abalados e chamei os homens para conversar. Muitos vieram e fiquei muito surpresa com a atitude deles, porque eles estão dispostos a combater a violência. Muitos são filhos de pais violentos e não querem que isso se repita. Foi incrível e vejo que nossa rede de proteção e conscientização só aumenta”, conta.

Com esse resultado, a comunidade agora foca em conquistas estruturais. Segundo Carmen, a água e a energia elétrica chegaram em agosto de 2018. A expectativa é pela regularização fundiária que deve ser oficializada até o fim de março. “A gente quer asfalto, esgoto, escolas e tudo que a gente tem direito, porque o sonho é ver esse bairro construído”, diz empolgada.

Quando pergunto se ela tem noção de que todas as conquistas da comunidade aconteceram porque ela começou tudo isso, ela leva um susto. “Ahnnnn??? Não…nunca parei para pensar nisso. Mas sinto que cumpri minha missão. No começo a luta foi pesada pela moradia, contra a violência. Me sinto honrada porque tudo valeu a pena. Sofri muito, mas também tive muitas vitórias. Se eu for embora ou morrer, não tem problema, porque eu fiz algo pelas mulheres que vai ficar na história dessa comunidade”, diz orgulhosa.

Mudar não está nos planos de Carmen que só quer o seu cantinho – onde me levou para conhecer e oferecer água em uma manhã quente de março – para morar em paz. “Meus filhos já são casados e têm suas vidas e sempre que é possível, eles vêm me visitar. Então, não quero muito além do que já tenho, porque quando eu morrer, não vou levar nada dessa vida”, ela fala, sem se lembrar de que o que levamos é a vivência de dias de luta e de glória, como foi a trajetória dela até aqui e como escreveu Chorão em uma de suas composições.

*Essa publicação faz parte da rede RPA, onde abrimos espaço para quem quiser contar sua história. 

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