Como venci minha deficiência

Por Hilton Júnior

Entardeceu, já é dia 3, o último três do ano, ah… o dia 3. Hoje, quando acordei, pensei: “Deveria escrever um texto sobre a minha deficiência.” Sobre quantos percalços tive de superar para chegar até aqui, chegar até este rapaz que vos escreve: um rapaz de sorriso largo e autoestima intacta, que sonha em mudar o mundo.

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Tenho que confessar que deveras foi difícil. É difícil viver em um país de preconceito velado, mascarado e incentivado. Um país de gosto duvidoso e indignação seletiva. Mas, não estou aqui para falar do meu país, estou aqui para expressar aquilo que estou pensando.

Nunca sofri bullying, mas, para mim, foi difícil, ainda criança, ter de aguentar
apelidos como “garrincha”, “perna de alicate”, “perna torta”, entre tantos outros, mas sempre soube tirar isso ‘de letra’. Sempre tive uma guerreira ao meu lado, me ensinando a amadurecer mais rápido.

Aos seis anos, eu já tinha aprendido a diferença do bem e do mal, e que, por mais que você goste muito de uma pessoa, algum dia, ela vai te decepcionar bastante em um momento de raiva. Não importa se você vai colocá-la no mais alto pedestal da sua vida, ela vai continuar sendo humana. E humanos são propícios a errar.

Aos seis anos, aprendi que, por mais que você abomine, existem pessoas que sentem prazer com o sofrimento alheio. Nessa idade, já sabia o significado de
morte, e já sentia o medo dela, confesso que hoje o medo ainda permanece, porém em quantidade muito menor.

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Aos seis anos, sabia que, por mais que detestasse isso, teria que me acostumar em ser o centro das atenções quando chegasse a um lugar pela primeira vez. Era louco demais olhar para trás e todo mundo estar olhando para você (para suas pernas).

Aos seis anos, aprendi o significado de enciclopédia ao ser chamado, pela minha médica, de enciclopédia de doenças, de uma forma bem bacana e descontraída.

Apesar de ter se engajado na igreja tardiamente, descobri o significado de Deus muito cedo, no caminho para a escola, ao me encontrar com o saudoso Senhor Ambrósio. Desde então, passei a enxergar Deus nas pessoas.

Via-o no meu amigo imaginário que brincava comigo todos os dias e sempre me ajudava a ganhar do Goku. Via-o também nos meus amigos que, mesmo sendo crianças, nunca tiveram pena de mim e sempre me trataram como uma pessoa normal. Via-o no amor que meu pai sentia por mim.

Via Deus nos ensinamentos e caridades da minha mãe. Via Deus em cada hospital que passava. Via Deus no Dr. Emir Mendonça Lima Verde, quando ele decidiu me acompanhar, mesmo quando minha família não passava por um bom momento financeiro. Foi ele que me acompanhou e tratou da minha doença durante um bom tempo sem receber nada por isso. Via Deus na minha irmã, Monalisa Melo, que sempre foi minha confidente e, mesmo sendo ‘chata pra caramba’, sempre cuidou de mim.

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A todas essas pessoas, a minha gratidão por ter me apresentado Deus no início da minha vida. Quando nasci, tive suspeita de Hidrocefalia, que é o acúmulo de líquido no crânio. Acho que foi só suspeita mesmo, mas devido a várias doenças que apareceram em mim, alguns médicos chegaram a falar que, sendo otimista, eu só viveria até os 21 anos.

Mas, olha só. Eu continuo aqui: lindo, bonito e novo, aos 24 anos.
Recentemente, passei no Curso de Direito da Universidade Estadual da Paraíba, e pretendo ser o primeiro advogado do Brasil (e talvez do mundo) com raquitismo hereditário hipofosfatêmico.

Hoje, estou aqui pra lhe dizer que, independente de sua condição financeira, social, física ou psicológica, nunca perca a esperança! Você é capaz de tudo, só basta querer, não deixe as pessoas rotularem ou determinarem seu prazo de validade. Só você e Deus sabem o seu real valor. O vento nem sempre vai soprar a favor, o mar nem sempre vai estar ‘pra peixe’, mas você sempre vai ser você, e isso ninguém pode mudar.

Neste dia, também não poderia deixar de agradecer, parafraseando o discurso de Brad Cohen: “O professor mais duro e mais dedicado que eu já tive em minha vida, meu companheiro constante, meu raquitismo, alguns de vocês podem achar bem estranho agradecer uma deficiência. O que eu poderia aprender com uma deficiência? Eu aprendi a continuar, a não deixá-la me impedir, aprendi a não deixá-la vencer, enfrentar a minha doença me ensinou a lição mais valiosa que alguém pode aprender, que é de nunca deixar alguma coisa impedir que vá atrás do seu sonho, de trabalho, de lazer ou até mesmo de amor”. É isso.

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Bem, meus amigos, a todos aqueles que tinham curiosidade e sempre tiveram vergonha de perguntar, eu tenho um tipo de raquitismo raro que eleva a perda de cálcio e fósforo pela urina, causando, assim, o arqueamento e fraqueza dos ossos.

Hoje, agradeço a Deus por tudo e por cada dia que ele me deu. Todo bônus tem seu ônus, e todo ônus tem seu bônus, eu só escolhi viver o lado mais legal.

Foto de capa: Divulgação

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