Como viajar por um ano pode, de repente, traduzir o que é felicidade

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Sem pompas nem visões nem excitação maior que já sentida outras vezes nesta vida, ontem alguma coisa mudou em mim. Foi de repente. E decidi ser feliz. Feliz de verdade. Pela estrada empoeirada de Flores, janela aberta e vento quente no rosto, a pena saia mundo afora e diante daquela paisagem encantadora, ia se evaporando. A partir de agora serei feliz para sempre. Simplesmente feliz. Feliz da maneira mais simplória que se pode ser: feliz por existir. Feliz por nada. Feliz por tudo. Na saúde e na doença. Na alegria e na tristeza. Na riqueza e na pobreza. Até que a morte nos perpetue, serei feliz. Numa promessa em que nada foi prometido. Sem contrato, nem testemunhas, nem festa, uni-me com a vida. Esta minha vida mesmo. De agora. De antes. De sempre.

Foi lentamente. Lentamente fui me desprendendo até enxergar a felicidade como ontem. Com muita dor, toneladas de amarras, ilusões e equívocos foram ficando pelo caminho. E foi aqui, do outro lado do mundo, no ponto mais distante que vim até hoje, que a vida ganhou outras cores. Outra dimensão. Foi em Flores, e não poderia ser em outro lugar senão na Indonésia. Talvez meu amor desmedido por esta terra esteja agora explicado. Aqui sinto meus olhos mais abertos. Meu coração, mais vivo. Todo o amor que deixei aqui há 2 meses é quem sabe a semente deste despertar. Por causa deste amor, voltei. Nada na Indonésia acontece como imagino, mas tudo parece estar tão certo. Perfeito na sua imperfeição.

Uma alegria arrebatadora e sutil, sem explicação, sem motivo, sem porque, veio e explodiu num sorriso bobo que demorou a sair do meu rosto. Campos de arroz. Palmeiras. Montanhas. Vulcões. Mar. Crianças correndo. Estar naquela estrada, naquele carro, naquela ilha, naquele momento eram a razão da minha felicidade. E mais nada. Nada mais importava. Não importava a conta no banco. Não importava o peso do passado. Não importava o coração machucado. Não importava a incerteza do futuro. Não importava a saudade. Falta de planos, de grana, de amor, de sexo. Nada mais me impediria de ser feliz. Nem nada nem ninguém nem eu mesma. Não haveria tristeza suficiente. Eu era feliz independente de qualquer expectativa frustrada ou sonho não realizado.

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E por estar numa ilha de maioria católica, digo: que assim seja. Amém.

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