Como vou deixar você, se eu te amo?

Antônio estava na frente do estacionamento. Eu atravessei a área até ser surpreendida pelo seu ímpeto. Me parou já pedindo desculpas, e eu, constrangida, o pedi também. Foi um desses esbarros assustados. Ele estava com fome, parecia estar inebriado. Perguntei se ele aceitava dividir um sanduíche. A cocaína e o crack ajudam a distrair o estômago. Ele me confessou já imaginando um ar de rejeição. Eu disse a ele duas palavras que o fizeram desmoronar: – Eu entendo.

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Entende mesmo? – ele questionou meio assustado. Como se eu precisasse passar fome pra saber. Como se eu precisasse usar crack a noite pro frio ser menor. Mas a gente não precisa. Não precisaríamos se tivéssemos consciência de nossas almas.

A alma transforma paradoxos em contextos parecidos. Talvez, algumas pessoas adoeçam por não estarem preparadas para ver um mundo do avesso. Ouso dizer que há mais sobre isso em crises depressivas do que imaginamos. É um desmanchar-se diante de uma imagem bonita, um desmerecer-se diante de algo que requereria julgamento. Há um lampejo de força nessa coisa de fechar os olhos físicos e prestar atenção com a alma. Os sociólogos, psicólogos e antropólogos chamam isso de empatia.

E essa coisa de alma ainda leva a gente pra um outro patamar. Foi assim que fui alavancada sem me mover um palmo. Fui surrupiada sem sentir minhas pernas saírem do lugar. No dia em que ouvi um cantor de rap chamado Gog contar minha história. No dia em que essa música me tirou do chão, mesmo estando eu presa a um cinto de segurança. O amor tem dessas. É uma essência que me leva e me liga. Essa essência de mim deve ter cochichado pra ele sobre um pai doente e pobre que cuidou dos filhos com tanto amor e com tanta força que seu corpo físico não suportou. Gog deve ter visto o dia em que meu pai me disse que não tínhamos nada, a não ser um ao outro. Ele deve ter visto com a alma dele. Minha essência deve ter levado pra ele essa música. Não sei o que se passa nesse plasma fluido chamada tempo, mas há algumas horas meu coração ainda permanece pairando sobre essa letra, sobre a voz do rapper e sobre meu pai, que deve ter deixado esse mundo quando viu que não cabia mais nele.

Do outro lado da vida, tem sempre alguém se enganando com suas vaidades. Desfilando na calçada, calçando um Jimmy Choo ou não. Eu descobri que nem sempre a vaidade vem vestida de Dior. O traficante de drogas tem tantos vazios existenciais quanto um milionário vaidoso e soberbo. Ambos se parecem nessa poeira fria. São a mesma coisa, nessa tal essência de alma. Paradoxos que se tornam semelhantes quando vistos daqui, da visão empática.

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Quando se vê assim, parece absolutamente essencial amar. A empatia é uma nudez necessária, um ser sem rótulos, sem marcas, uma visão mais escancarada. Quintana, um dos meus escritores preferidos, disse – Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas. As pessoas se escondem atrás de pessoas. Essa gente tem uma máscara, que tem o mesmo formato do colega, do vizinho ou daqueles que um dia lhe esbofetearam com julgamentos. Quando estamos na frente uns dos outros, estamos nos escondendo na sombra do que o outro representa pra nós. Isso é reafirmação social. Isso é o que provoca a busca pelo significado.

Foi quando meu pai disse “nada mais importa” que eu caí em mim. E o que de fato importa? Onde estão esses significados quando a gente precisa restaurar o vazio que temos encontrado nessa existência? O que importa está impregnado na alma desnuda. Olhar pra Antônio me fez reconhecer que estamos programados pra aceitar ou não conceitos. Estamos buscando sempre um rotulo. É uma briga de gênero, uma cor de pele, uma necessidade de provar que somos imbatíveis. Quando no fundo no fundo, basta abrir essa alma e ver com um pouco mais de empatia que nada tem significado suficiente quando compreendido na esfera racional. Quando meu pai me fez aquela menção, ele não estava desistindo de tudo, ele estava aceitando a vida.

Ser o que somos nos custa muito caro. Gog escreveu uma música chamada “Quando o pai se vai” que não consigo superar e jamais vou traduzir em crônica. “Evitando o trágico, disse não ao tráfico e no tráfego, trafegou, testando seu ego” mostra o paradoxo que é ser quem somos, e o quanto estamos aplainados num mesmo nível, todos. Antônio tem as mesmas necessidades que eu tenho, meu chefe possui uma arrogância por precisar sobreviver a uma sociedade medíocre tanto quanto eu. Meu vizinho é tão solitário quanto eu, mesmo vivendo em casas distintas. Nós temos a mesma essência, estamos procurando pela mesma coisa. Talvez ainda não entendemos que só o amor responde as nossas questões mais profundas.

Descobri que Antônio foi preso três horas depois de conversar comigo. Um pedaço de mim também foi, amarrado numa incompreensão de mente pequena. Só o amor pode responder a causa de nossas dores. Talvez, eu sentada num batente, comendo um sanduíche frio de tahine com peito de frango tenha sido o amor que Antônio experimentou.

(Este post foi publicado por colaboradores do Razões, seja um parceiro também!)

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