Por que a Dona Nena não voltou para a escola?

Por Izabelle Ferrari

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O resumo dos últimos seis meses é esse: Dona Nena não voltou pra escola. Sei que é difícil de acreditar, mas é isso.

Em novembro do ano passado, o caso dessa senhora de 65 anos, semianalfabeta, moradora de Foz do Iguaçu, que procurou a escola municipal do bairro para estudar com as crianças se espalhou pelo país. Com a ajuda dos meus amigos jornalistas e dos meus seguidores nas redes sociais, Dona Nena viralizou na internet (leia aqui).

Prova de que as pessoas gostam de boas histórias. Mas dona Nena frequentou as aulas do 1º ano do ensino fundamental por apenas DOIS meses. O ano virou – foguetes no céu – compra de material escolar – crianças com mochilas nas costas… e dona Nena não cruzou a porta da sala de aula da Escola Municipal Monteiro Lobato, do bairro onde mora.

Dona Nena

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Isso gerou muita tristeza. Pra ela, para os filhos, pra mim. A equipe da escola ficou sem saber direito o que fazer. Tinham acolhido dona Nena como amiga da escola, com a permissão do Conselho Escolar (ela frequentava aulas duas vezes por semana, só por meio período), mas o Conselho Municipal de Educação deu parecer contrário à presença de dona Nena na sala de aula com as crianças. Não era uma determinação, mas esse parecer pesa nas decisões da Secretaria Municipal de Educação.

A recomendação oficial foi de que dona Nena procurasse a Educação de Jovens e Adultos – EJA (que ela já tinha frequentado por dois anos seguidos e não se adaptou) ou que ela fosse matriculada numa série mais adiantada do Ensino Fundamental (era o que indicava o histórico escolar dela – apesar de dona Nena mal conhecer todas as letras). A partir de agora, a presença de dona Nena na escola primária precisaria de matrícula, frequência, provas, boletim, diploma.

Também parti com dona Nena para algumas “peregrinações” em busca de outra sala de aula pra ela. Depois de uma palestra, a chefe do Núcleo de Educação de Foz recomendou que eu levasse dona Nena ao Centro de Educação Básica para Jovens e Adultos – CEEBJA, mas os estudos, lá, começam a partir do 6° ano. Muito adiantado pra ela. Talvez fosse possível alfabetização individual…

Na saída, perguntei:

– E daí, dona Nena?

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– Sinto saudade da minha escolinha, das crianças…

– Mas, pelo menos é uma possibilidade, né, dona Nena?

– Sim, Izabelle. Se não tiver outro jeito, venho pra cá mesmo. Não me importo de vir de ônibus lá do bairro.

– Ok, então vamos ver o caminho que a senhora vai ter que fazer quando descer do ônibus.

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Seriam umas quatro quadras de caminhada. Dona Nena tem limitações graves de locomoção. Pra caminhar uma quadra, ela para umas quatro ou cinco vezes.

– Izabelle, eu gostaria de falar com o pessoal do Conselho Municipal de Educação.

– Não sei se dá, dona Nena…

– Então, eu gostaria de falar com o pessoal da Prefeitura.

Dona Nena estava inconformada. Para não deixá-la desanimar, levei-a comigo a algumas palestras sobre a importância da escrita e da leitura. Mas, lá se vão quase quatro meses desde que as aulas começaram. Ela mora perto da escola. Vê os coleguinhas irem pra lá todos os dias.

Fiz contato e a equipe da Secretaria Municipal de Educação recebeu dona Nena, na quinta-feira passada (01/06). Enquanto eu caminhava com ela pelos corredores: acenos, sorrisos, surpresa. Alguns pediram pra abraçá-la. Outros, quiseram tirar foto.

– A senhora tem minha admiração e meu respeito, dona Nena – disse uma das funcionárias.

Na reunião estavam: o secretário de educação, a diretora do Ensino Fundamental, a responsável pelos trâmites legais da secretaria…

Na simplicidade de dizer o que queria, dona Nena DISSE:

– Eu só quero explicar pra vocês que nunca ninguém me deixou estudar. Eu só quero aprender a ler…

Dona Nena

A equipe da secretaria sabe que tem normas pra cumprir. Mas também sabe que se trata de um caso incomum. Não há registros de algum outro idoso que tenha ido à escola municipal do bairro pedir pra estudar com as crianças. Não há relatos de algum outro idoso que tenha deixado a equipe da escola sem coragem de dizer não. Não há informação de algum outro idoso que tenha dado a uma professora à beira da aposentadoria estímulo para ainda transformar vidas pela alfabetização.

Não há.

O caso da dona Nena segue para análise mais detalhada.

– Se der certo, a senhora vai ter que frequentar as aulas todos os dias – o secretário de educação explicou.

– Não tem problema – disse dona Nena.

– Vai ter que fazer prova e vai ter direito ao diploma, como os outros.

– Tudo bem. O diploma não me importa muito, mas eu aceito, porque o que mais quero nessa vida é aprender a ler.

Dona Nena continua esperando.

A resposta deverá sair até as férias de julho. Eu também espero, dona Nena. Espero um dia vê-la lendo – com seus próprios olhos – esse diploma!

(Enquanto isso, agradeço imensamente à estudante de pedagogia voluntária da Uniamérica que NÃO ESPEROU. Ela se comoveu com a história e se dispôs, por conta própria, a ensinar dona Nena a ler – pelo menos uma vez por semana – enquanto a questão não se resolve. Quando eu digo que acredito no bem, vcs entendem por que?)

Segue abaixo, na íntegra, posicionamento do secretário municipal de educação de Foz do Iguaçu, Fernando Ferreira de Souza Lima, sobre o caso da dona Nena:

“Ficamos muito felizes em conhecer a história da ‘Dona Nena’, sobretudo pela garra e força de vontade por ela apresentadas em sua busca por educação formal.

Salientamos que estamos empreendendo esforços para regularizar a situação escolar da aluna, vez que o acolhimento inicial realizado pela Escola teve aspecto comunitário, mas sem embasamento legal.

É importante destacar que a legislação atual impõe a matrícula da estudante na modalidade de Educação para Jovens e Adultos, e que o histórico escolar de D. Nena a habilita para matrícula na 3a etapa deste atendimento.

Sendo assim, iniciamos um processo de apuração de equivalência, que determinará com exatidão a etapa de ensino regular que a estudante poderá ser matriculada.

Enquanto o processo se aperfeiçoa, a D. Nena permanecerá recebendo atendimento domiciliar, em ‘Fundamentos da Alfabetização’, ministrado por profissional voluntária encaminhada em parceria com instituição de ensino superior da cidade.

No mais, elogiamos grandemente os esforços empreendidos pela estudante, e nos colocamos ao seu lado para que cumpra com excelência sua caminhada estudantil e alcance sua tão desejada formação no ensino fundamental.”

Fernando Ferreira Souza Lima

Secretário Municipal da Educação

Se vc ajudou a compartilhar o caso da dona Nena em novembro, que tal fazer o mesmo agora? E segue a corrente do bem! #somostodosdonanena

Fotos: Izabelle Ferrari

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