Dona Marta, os livros e sua encantadora rede de leitores em escola de Campinas


PUBLICIDADE ANUNCIE

(Por Ingrid Vogl)

Quem vai pegar livro hoje? Com esta pergunta, a professora aposentada Marta Maria Sêda de Moraes, 72 anos, ou simplesmente Dona Marta, percorre duas vezes por semana as 18 salas de aula da Escola Estadual Prof. Luiz Gonzaga Horta Lisboa, no Jardim Miriam, em Campinas/SP. As visitas objetivam oferecer aos cerca de 500 alunos do ensino fundamental (1º ao 9º ano) um mundo de leitura e novos conhecimentos.

Sábia, simpática e sempre com um sorriso no rosto, Dona Marta é querida por toda comunidade escolar, onde há dez anos trabalha como voluntária responsável pela biblioteca adaptada. Para gerenciar o espaço, a professora criou uma ficha para cada um dos 500 alunos da escola, onde constam informações sobre os empréstimos e devoluções de livros.

Cada sala de aula tem uma caixa de livros adequados a cada ano, e uma vez por semana, sempre nas aulas de língua portuguesa, Dona Marta vai até as classes para que os alunos façam o empréstimo dos livros. E para incentivá-los à leitura, a voluntária tem uma tática especial: sempre pede que eles contem a ela a história que leram, no momento da devolução.

“Achei interessante pedir para que eles narrem as histórias porque assim é possível perceber como o aluno está usando o português e o que precisa ser corrigido, ver se ele realmente leu o livro e de que maneira a criança conta a história, porque alguns decoram o texto, outros sintetizam, e outros inventam. Com isso dá para perceber o nível de interpretação do aluno”, explicou Dona Marta, que sempre dá um retorno em sala de aula, junto aos professores, de como está a interpretação de cada um.

Além disso, Dona Marta faz um relatório que é entregue a cada dois meses aos professores, com informações de quantos livros e contações de histórias os alunos fizeram. Estas informações incrementam a nota final da disciplina de língua portuguesa. “Todos os alunos da escola emprestam livros comigo. O que varia é o número de leituras que chegam, bimestralmente, até a seis ”, disse.

E os alunos adoram Dona Marta e as publicações de que cuida. “Ela sempre tem livros novos e para mim, a leitura também ajuda nas matérias, porque quando leio, aprendo mais”, disse a pequena Eloáh dos Santos, aluna do 4º ano. Gabriely Zamachi Zanella, aluna do 6º ano, tem predileção pelos livros com textos extensos. “Eu gosto dos que têm mais letras, que são comédias e contam histórias incríveis. Percebo que quanto mais leio, mais escrevo e melhoro na leitura”, concluiu.

O trabalho de Dona Marta junto aos alunos também é reconhecido pelos professores da escola. “Na sexta-feira, a primeira atividade que a gente tem é a leitura individual, onde as crianças leem para a turma algo que escolheram e tiveram a oportunidade de treinar durante a semana com os pais. O que se percebe é que o tempo de leitura vai aumentando, com trechos lidos cada vez maiores. Nesse sentido, o trabalho da Dona Marta ajuda muito em sala de aula, inclusive com a questão da responsabilidade em relação ao livro emprestado e o enriquecimento pela leitura”, contou a professora Andrea Barcelos.

Redes de leitura

Para Ezequiel Teodoro da Silva, professor da Faculdade de Educação da Unicamp e professor-coordenador do Mestrado Profissional em Educação Básica da Universidade Alto Vale do Rio do Peixe em Caçador/SC, Dona Marta faz um trabalho primordial de incentivo à leitura e interpretação de histórias.

“Quando o aluno reconta a história, ele amplifica o que leu e isso provoca várias interações que levam à formação de redes de leitura, e quanto mais a professora construir redes de leitura, este movimento cria o hábito e o gosto por ler”, afirmou o especialista.

Alessandra Fiorini, assessora técnica do Departamento de Educação da FEAC, reforça a análise do professor Ezequiel, afirmando que o diálogo que se estabelece entre professor e aluno possibilita um intercâmbio de vivências em torno da leitura, que ao serem narradas, contadas, rememoradas, produzem sentido.

Segundo ela, estudos apontam que um sujeito, ao longo da vida, vai se configurando como leitor a partir das experiências de leitura que vivencia nas interações e da qualidade afetiva presente nas mesmas. “Estreitar as relações entre a literatura, a escola e o aluno, reforça não apenas o papel institucional de natureza instrucional e formativa da escola, mas apura sua qualidade educativa à medida que promove a possibilidade de o aluno refletir sobre sua condição humana”, avaliou.

Técnica apurada

Hoje, com 32 anos dedicados voluntariamente ao incentivo à leitura junto aos pequenos, Dona Marta é ainda uma especialista em restauração de livros. Foram recuperados por ela, pelo menos 24 mil livros ao longo de mais de três décadas. Sempre que vai à escola, ela leva para casa de 3 a 4 livros para recuperá-los, tarefa que desenvolve todas as noites, com prazer. Alguns livros são recuperados várias vezes, porque o uso os deteriora, mas sempre existe um jeito de recuperá-los, ao menos que seja rasgado ou rabiscado. “Do contrário, ele pode durar a vida inteira” ensinou.

PUBLICIDADE ANUNCIE

A recuperação das publicações é feita com uma técnica única desenvolvida por ela mesma ao longo dos anos. Com a prensa de madeira para livros que ela mesma criou em casa, as publicações são costuradas com barbante em diagonal, folha a folha, e coladas. “No caso em que os livros são grampeados, faço a costura com um fino tecido entre as páginas. Assim, a durabilidade do livro aumenta muito”, disse com prazer e a segurança de uma especialista no assunto.

O conhecimento para fazer encadernações e restauros ela obteve com o professor de encadernação da faculdade de biblioteconomia da PUC-Campinas, Silas Marques de Oliveira, doador de vários exemplares para Dona Marta, que levou tudo para sua biblioteca. “Eu queria ter uma guilhotina para meu trabalho de restauro, mas é um equipamento muito grande para se ter em casa”, lamentou.

Segundo o professor Ezequiel, a recuperação de obras, feita pela Dona Marta, também interfere no incentivo à leitura dos alunos. Segundo ele, o pedagogo francês Célestin Freinet (1896/1966) tinha uma proposta pedagógica denominada imprensa escolar. “Segundo essa teoria, quando se tem um livro e se trabalha com ele, seja por meio da recuperação ou da criação, esse objeto deixa de ser estranho e permite que a concretude do livro seja vivida pelos alunos”, explicou.

Trabalho completo

Além da recuperação dos exemplares, Dona Marta também faz todo o trabalho de catalogação e organização do material. Sua história de amor e dedicação aos livros e à leitura começou muito antes do trabalho na EE Prof. Luiz Gonzaga Horta Lisboa, no início da década de 80, na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Padre Francisco Silva, no Jardim Londres.

“Ainda atuava como professora efetiva de educação física na Emef, quando a diretora chegou com uma caixa pequena de livros e pediu minha ajuda para criar a biblioteca da escola. A partir daí, comecei o trabalho voluntário com os livros e nunca mais parei”, relembrou. Dona Marta se aposentou na rede municipal de ensino de Campinas em 1998, após 20 anos de trabalho em seis diferentes escolas de ensino fundamental, e permaneceu na escola Padre Silva outros 15 anos como voluntária na biblioteca, que possui hoje mais de 21 mil exemplares de livros. “Na Padre Silva, cheguei a emprestar livros para filhos e netos de alunos que tive quando ainda era professora de educação física”, relembrou orgulhosa.

Na EE Horta Lisboa, dona Marta começou a trabalhar voluntariamente em 2007, um ano depois de se mudar para o Jardim Miriam, onde a escola é localizada. A escola, inclusive, é parceira constante de ações realizadas pela FEAC, já que um de seus alunos foi vencedor do Concurso Minha Família na Escola em 2016 e a comunidade escolar participou de campanhas publicitárias do Compromisso Campinas pela Educação em 2014 e 2016, quando os temas foram Valorização do Professor e Plano Municipal de Educação, respetivamente.

Na época, a então diretora da Horta Lisboa fez o convite para que Dona Marta fosse para a escola, após descobrir um outro dom da voluntária. “A mãe de um aluno disse para a diretora que ela tinha uma vizinha, que ajudava o filho dela e outras pessoas do bairro no aprendizado escolar. E a diretora me chamou para ajudar a acompanhar as crianças com dificuldade na alfabetização do 1º ao 3º ano”, contou a professora aposentada, que desempenhou esse trabalho durante dois anos, antes de começar a atuar na biblioteca. Atualmente, o espaço pelo qual é responsável na unidade possui um acervo de cerca de 4 mil exemplares.

Incansável, a professora ainda ajuda e faz companhia a pessoas doentes e trabalho voluntário junto à igreja Nossa Senhora da Conceição Aparecida e à Casa de Repouso Bom Pastor, entidade parceira da Fundação FEAC, onde ajuda a restaurar as roupas que chegam para doação no bazar.

Mas a grande paixão de Dona Marta, é mesmo seu trabalho ajudando a alfabetizar e incentivando a leitura. “Sempre gostei de alfabetizar, eu acho bonito e é muito importante para a criança sair da escola sabendo ler e escrever e conhecendo melhor as coisas e conversando sobre tudo. É justamente nos anos iniciais do ensino fundamental que ela recebe um conhecimento que vai valer para a vida inteira, depois disso, só vai aperfeiçoar o aprendizado”, finalizou Dona Marta.

E assim, a professora voluntária desperta a empatia de quem quer que a conheça, e nos ensina que o prazer em ajudar se dá na troca de simples gestos do cotidiano, como cumprimentos cordiais, abraços, sorrisos e a gratidão pelo aprendizado que é levado para toda a vida.

Saiba mais sobre a EE Luiz Gonzaga Horta Lisboa: (19)3257.0552.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do Razões para Acreditar e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. 

PUBLICIDADE ANUNCIE


PUBLICIDADE ANUNCIE

Comentários no Facebook

Acessar

Resetar senha

Voltar para
Acessar