Reposta de escolinha viraliza nas redes sociais por defender professor trans em Salvador

"Não negociamos nossos sonhos!"


Escola de Salvador é aclamada nas redes sociais por defender professor trans e valorizar representatividade
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Uma mãe à procura de uma escola para o filho consultou a Escolinha Maria Felipa de Educação Infantil, em Salvador (BA), para matriculá-lo. Assim que descobriu que havia um professor trans lecionando na instituição, ela questionou ao diretor se a presença do docente “não estava diminuindo o número de matrículas” da escola. Como resposta, o diretor ponderou: “quem acha que uma pessoa trans, apenas por ser trans, não pode educar seu filho não merece a nossa instituição”.

A escolinha foi inaugurada no ano passado, inicialmente promovendo palestras e atividades pedagógicas. Neste ano, abriu suas salas de aula para dezenas de crianças da capital baiana.

A instituição surgiu de um anseio do professor de história Ian Andrade Cavalcante e sua esposa, Bárbara Carine, que atua como professora de química. Em 2017, o casal planejava em qual escola matriculariam a filha, que estava prestes a chegar após longos dois anos de processo de adoção.

Ian e Bárbara queriam prover uma escola de qualidade para a filha que ao mesmo tempo compartilhasse os princípios e valores defendidos pela família. Um ano depois, nascia a Escolinha Maria Felipa de Educação Infantil.

Escola de Salvador é aclamada nas redes sociais por defender professor trans e valorizar representatividade
Entrada da Escolinha Maria Felipa de Educação Infantil, no bairro Rio Vermelho, em Salvador. Foto: arquivo pessoal.

História viral

Sobre a publicação, Ian, sócio-diretor da escola, afirma ter sido pego de surpresa pela grande repercussão. “Viralizou de uma forma sem precedentes. Postamos conteúdos relacionados às relações etno-raciais, sobre negritude, sobre os ameríndios e algumas questões relacionadas à gênero – mas nunca havíamos alcançado tantas pessoas assim.”

 

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Ele diz que a equipe pedagógica como um todo ficou bastante desapontada com a pergunta, que serviu como um “tapa na cara” para lembrá-los do quão arraigada a discriminação e o preconceito contra pessoas trans ainda está em nossa sociedade. Abordamos sobre uma história similar de um garoto trans, relembre aqui.

Ao mesmo tempo, a escola comemorou o feedback positivo da comunidade com a publicação nas redes sociais, o que mostra que muitos estão engajados na luta contra a transfobia. “Ver quanta gente pensa como nós, quanta gente está lutando como nós estamos lutando, por uma sociedade mais justa e equânime é muito gratificante,” afirma o diretor.

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Apoio

Protagonista não-convocado desta história, o professor Bruno Santana, inicialmente muito ofendido com a pergunta, afirma ter ficado feliz com o apoio recebido de milhares de usuários na internet e de amigos e colegas de profissão no trabalho.

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“Acredito que a postagem viralizou justamente por conta das que resistem.  Das pessoas que seguem… Ao contrário do que pensam, somos maioria e tem muita gente que assim como eu, acredita no poder transformador da educação, que apoia e luta por uma educação para além do capital, dos retrocessos e dos fascismos. Pessoas que existem e resistem em meio a todos os descasos e retiradas de direitos e que por mais difícil que a conjuntura possa parecer, seguiremos de mãos dadas na luta por um mundo que seja capaz de contemplar todas as pessoas”, diz.

Escola de Salvador é aclamada nas redes sociais por defender professor trans e valorizar representatividade
O professor de capoeira Bruno Santana. Foto: arquivo pessoal.

Capoeira & Diversidade

Bruno começou a trabalhar na Escolinha Maria Felipa desde o começo do ano letivo, e dá aulas de capoeira.

Ian o classifica como “um professor brilhante, que planeja suas aulas muito bem e que sabe adaptá-las quando necessário. As crianças o adoram.”

O professor é formado em educação física pela Universidade de Feira de Santana (UEFS), e continua se especializando na área, sendo um perito na arte da capoeira.

Questionado sobre o que a escola tem a dizer aos pais que afirmam que as crianças serão influenciadas por terem um professor trans, Ian argumenta: “A essas famílias eu diria que elas perderam a oportunidade ou sequer a tiveram de lerem, de ampliar seus horizontes, de aprenderem a respeitar e valorizar a diversidade – então às famílias que acreditam que as crianças podem ser influenciadas, eu fico muito triste por isso. Contudo, essas famílias geralmente não procuram a Maria Felipa. Somos uma escola que levanta suas bandeiras de luta e deixa isso muito evidente para quem quiser ver e nos conhecer.

Metodologia de ensino

São pilares da instituição, duas teorias: a pedagogia histórico-crítica, desenvolvida pelo professor Demerval Saviani, da Unicamp, muito inspirada na pedagogia freiriana, do sociólogo Paulo Freire – uma pedagogia revolucionária, que visa a socialização igualitária de todos os conhecimentos, para todas as pessoas, e a teoria da decolonialidade dos saberes, que argumenta que por sermos uma sociedade que foi colonizada, nós carregamos aspectos ainda coloniais – dessa forma valorizamos tanto a cultura e estética europeia e inferiorizamos nossas raízes ameríndias e africanas. Essa teoria busca que nós, como sociedade, nos “descolonializemos”, e aprendamos a valorizar a nossa cultura, estética e história.

Esses conceitos são aplicados no dia a dia com literatura infantil, com o resgate das histórias de grandes personalidades do passado e do presente, além de diversas oficinas de desconstrução de conceitos retrógrados junto às crianças. “Promovemos, por exemplo, as ‘oficinas de desprincesamento’ para mostrar às meninas que princesas não precisam ser frágeis, nem de um príncipe para ser salva; muito pelo contrário, nossas princesas são guerreiras, são cientistas, são líderes,” explica Ian.

“Além destes trabalhos, mostramos que o povo negro não veio ‘de escravos ou escravas’ – termos equivocados de serem utilizados, mas de pessoas negras que foram escravizados – pessoas estas que atuavam em suas terras como reis, filósofos, cientistas, agricultores, guerreiros etc.,” complementa.

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Da esquerda para a direita, Naiara Santos, coordenadora pedagógica, Ian Andrade, diretor do colégio e Bárbara Carine, consultora pedagógica. Foto: arquivo pessoal.

“Outro dia chegou um menino na escola usando um vestido rosa, e aí duas outras crianças começaram a zombar dele. Intervimos alterando o planejamento pedagógico do dia especialmente para debater essa questão. A roupa define se somos homens ou mulheres, ou ela serve apenas para nos vestir?”. Nesse dia, a equipe pedagógica mostrou às crianças de uma maneira simples e singela que a questão de gênero transcende a roupa que vestimos.

“Há um combate diário ao racismo, a misoginia, a homofobia e a heteronormatividade nesta sociedade patriarcal e arcaica. […] Nosso interesse é lutar e construir pela via da educação o mundo que acreditamos. Não negociamos nossos sonhos!”, conclui o diretor.

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