Jovem trans dá aulas de inglês gratuitas para transexuais em igreja inclusiva no RJ

Thiago Peniche, 21 anos, proporciona a pessoas menos favorecidas um futuro com mais oportunidades no mercado de trabalho, em um ambiente de respeito e acolhimento mútuos.


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Uma igreja abriu as portas para o Thiago Peniche dar aulas de inglês gratuitas para pessoas como ele: transexuais. Filho de uma família de classe média, o carioca de 21 anos reconhece que tem privilégios. Mais do que isso, porque reconhecer não basta, Thiago usa seus privilégios para proporcionar a pessoas menos favorecidas um futuro com mais oportunidades no mercado de trabalho.

As aulas de inglês começaram em março e têm uma média de 12 a 15 alunos. Estudante de jornalismo, Thiago oferece as aulas na Igreja da Comunidade Metropolitana. A ideia veio logo após Thiago voltar de um intercâmbio no Canadá. Também foi inspirada em uma professora defensora de causas sociais.

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“A proposta do curso é ser um ambiente onde essas pessoas têm a oportunidade de aprender inglês, sem se preocupar com o preconceito, porque temos uma taxa de evasão muito grande de pessoas trans na educação. Elas não conseguem terminar o ensino médio, quanto mais fazer um curso de inglês”, disse Thiago em conversa com Razões para Acreditar.

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Foto: Thiago Peniche/Arquivo pessoal

Thiago batizou o curso de Es(trans)geiros e contou com a ajuda do pastor Luís Gustavo para que se tornasse realidade. Luís é pastor da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), no Centro do Rio de Janeiro, desde 2017: a igreja foi criada em 2006. Uma pessoa marcou o pastor no post de Thiago pedindo espaço para oferecer as aulas, e foi assim que os dois se conheceram. Sem pensar duas vezes, Luís abriu as portas da igreja.

“O foco principal da ICM é atrais LGBTs que foram excluídos das suas igrejas. Mas também pessoas LGBTs que não participam de nenhuma religião. E as aulas têm tudo a ver com a nossa visão de mundo, com o que eu chamo de missão espiritual: além de incluir as pessoas na igreja, é incluir as pessoas na sociedade”, explica Luís.

“Porque a igreja, além de tudo, é um centro social pra pessoas LGBTs, além de um centro espiritual. A gente abre até para ateus, desde que a gente tenha uma pauta em comum, principalmente os direitos humanos”, acrescenta.

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O pastor Luís Gustavo (centro) cedeu a igreja para Thiago ministrar as aulas de inglês. Foto: Luís Gustavo/Arquivo pessoal
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Foto: Luís Gustavo/Arquivo pessoal
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Foto: Luís Gustavo/Arquivo pessoal

O convite mudou a visão negativa que Thiago tinha da igreja, de maneira geral. Isso porque historicamente LGBTs não são aceitos nem bem recebidos nesses espaços. Mas a bandeira do arco-íris ao lado de um crucifixo jogou por terra a visão negativa de Thiago sobre a igreja. “Duas coisas que implantaram no nosso imaginário como sendo opostas. A proposta da ICM é muito bonita porque mostra que a igreja pode ser um espaço de acolhimento.”

E acolhimento é uma palavra que a gente associa intuitivamente às aulas de inglês. Por ser um espaço de pessoas com histórias de vida diferentes, mas ao mesmo tempo semelhantes. A empatia é quase que natural: Thiago e os alunos se reconhecem um no outro, pois todos ali passaram, ou estão passando, pelo processo de transição, ou de reconhecimento de quem eles realmente são. Mais difícil em alguns casos, mas difícil em todos eles, pela dificuldade de aceitação da família e da sociedade: em casa e na rua.

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Talvez por isso mesmo houve quem criticasse o fato do curso ser exclusivo para pessoas transexuais e travestis. Na prática, dizer que essas pessoas são como as outras (cisgêneros, pessoas que se identificam com o gênero designado no seu nascimento) é apenas teoria. Na verdade, não são: a transfobia impede que sejam.

“Quando eu tive a ideia fui criticado por pessoas que não entenderam a proposta. Tipo, ‘ah, você vai fazer um curso voltado para pessoas trans, todo mundo sofre, todos somos iguais’. Ok, todos somos iguais, mas a partir do momento que a sociedade não nos trata de forma igual, como eu vou ignorar isso? Eu preciso oferecer a essas pessoas o que a sociedade não oferece”, afirma Thiago.

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Foto: Thiago Peniche/Arquivo pessoal
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Foto: Thiago Peniche/Arquivo pessoal

Thiago oferece o que tem, e deseja que mais pessoas ofereçam. Não quer ser o primeiro nem o único que usa seus privilégios para preencher um vazio na vida de pessoas que tiveram poucas oportunidades.

“A minha transição teve problemas, nunca é fácil para ninguém. Mas é diferente pra mim porque eu fui um cara muito privilegiado. Eu sou um cara de classe média, tenho meus dois pais, não moro na periferia, eu fiz um curso de inglês, estudei em escolas privadas. Não fui expulso de casa. Eu tenho diversos privilégios. E um dos maiores privilégios, além da classe social, é o privilégio de ter minha família perto. Meus pais nunca deram as costas para mim. Isso é um fator que muda, pois quando você tem seus pais ao seu lado, você fica muito forte”, reconhece Thiago.

Ele conta que não precisou de muito para criar o Es(trans)geiros. Thiago teve a ideia das aulas de inglês e só precisava encontrar um lugar. Claro que a ajuda do pastor Luís Gustavo foi fundamental. Ele pode usar a igreja uma vez por semana e tem o básico para ensinar seus alunos. O curso pode ser melhor? Não existe nada que não possa ser melhorado: inclusive, apoiadores e parceiros são bem-vindos. Mas reconhecer privilégios é a coisa mais importante que ele fez: difícil para uma grande parcela das pessoas, em tempos marcados pelo mito meritocrático.

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“Falando em termos mais práticos, essas pessoas vão ter um currículo melhor. Elas vão poder florescer, ter mais oportunidades no mercado de trabalho. É muito bom ver que a gente está fazendo a diferença. Eu espero que mais pessoas possam conhecer essa história, e mais pessoas continuem fazendo outras coisas parecidas.”

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“DIREITOS TRANS SÃO DIREITOS HUMANOS”. Foto: Thiago Peniche/Arquivo pessoal

O Es(trans)geiros curso já tem lista de espera para o próximo semestre! Para se candidatar a uma vaga, a pessoa pode falar com Thiago pelo Instagram pessoal dele: @thiagopeniche. A Igreja da Comunidade Metropolitana fica na Rua do Senado, 222A, no Centro do Rio de Janeiro. Para mais informações, acompanhe a ICM no Instagram e Facebook.

A marca Opaloka é parceira do Razões e apoia a causa LGBT, conheça e siga o perfil.

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