Professora ajuda jovem da periferia de Belém a passar no vestibular e dá lição inspiradora

“Se eu tivesse aceitado o celular ou isentado ele de toda a mensalidade, ele não seria a história que ele é hoje.”


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Faça o que estiver ao seu alcance e o universo colocará no seu caminho pessoas que irão ajudá-lo a dar o próximo passo: o passo da conquista. É sobre isso a história de uma professora e de um jovem que sonhava em passar no vestibular.

Ela aconteceu em Belém, no Pará, e está comovendo os internautas por tudo o que acabamos de falar. A professora Joana Vieira tem um curso de redação concorridíssimo, considerado o melhor no estado. Sabendo disso, o jovem Jairtom Oliveira Filho, 22 anos, foi assistir a uma aula inaugural para conhecer o curso.

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Ficou encantado e, no final da aula, chamou a professora Joana de canto e disse que queria muito fazer o curso. Porém, não poderia arcar com a mensalidade. Em vez de pagar a mensalidade, com os olhos cheios de lágrimas, ofereceu seu celular em troca. Mas a professora teve uma ideia melhor.

“‘Se eu te disser para não vender o celular e vir estudar de graça, vou tirar de ti a parte da tua história e tu vais viver isso para ter o que contar aos teus filhos e amigos mais tarde!’. Ele chorou. ‘Se é verdadeiro o que me dizes, vende o celular e vem estudar. Faz tua parte dignamente e vai dar certo!’”, relatou Joana no seu Facebook.

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Joana e Jairtom

Jairtom poderia começar as aulas de imediato, mesmo que não tivesse vendido o celular. Isso era o de menos para a professora: era só uma forma de Jairtom fazer valer a pena a oportunidade que estava recebendo. As aulas aconteciam aos sábados.

Toda manhã, Jairtom amarrava sua bicicleta no estacionamento e entrava na sala de aula com a professora. Três semanas depois, bastante alegre, deu para Joana a notícia que não via a hora de dar.

“Entramos, eu assinei o desconto e vi quando ele pegou tudo o que tinha e efetuou o pagamento. Não dava, mas eu pedi para a atendente quitar a conta e colocar o resto no meu nome. ‘Dá como quitado e pede para descontarem de mim o resto’. Ele ficou feliz e me fez chorar ao me agradecer: ‘Obrigada por me adotar e por acreditar em mim!’”, lembra.

‘Adotar’ não é força de expressão: Jairtom chamava Joana de mãe, que tratava Jairtom como um filho. Ela conta que sua história de vida pesou na decisão de dar essa oportunidade a Jairtom.

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“Por ser do interior, eu entendo o que é ser de escola pública e não ter oportunidades. A minha história de vida acabou me trazendo mais pra esse lado humano da educação. E o que eu aprendi com o tempo? Que eu não vou poder isentar todo mundo. Eu tenho o curso que mais aprova, mas eu não vou poder isentar todo mundo. E também porque eu descobri com o tempo que são as nossas grandes derrotas que nos fazem maiores. Hoje, quando alguém me pede ajuda, eu me pergunto qual é a possibilidade e vou até aonde a pessoa pode ir. Se eu tivesse aceitado o celular ou isentado ele de toda a mensalidade, ele não seria a história que ele é hoje”, contou Joana ao Razões para Acreditar.

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E Jairtom fez valer a oportunidade! Abdicou de tudo para focar nos estudos. Acreditou quando Joana disse que tudo daria certo a partir do momento em que se dedicasse. “Só bastava eu acreditar no meu potencial. Deu tudo certo, batalhei, acreditei todos os dias que aquilo era possível”, afirma.

Jairtom fez o vestibular de educação física da Universidade do Estado da Pará e foi aprovado, na quarta tentativa. Um dos cursos mais concorridos da instituição e o que ele realmente queria. Joana foi fundamental para isso, segundo ele. O sentimento de gratidão será eterno.

“É um sentimento inexplicável, é muita emoção. Ela representa muito, vou ser eternamente grato por Deus ter colocado essa mulher na minha vida. Ela foi a pessoa preponderante para eu chegar onde eu estou. Sem ela eu não me tornaria uma pessoa melhor. Ela me ensinou a ter compaixão pelo outro, que o valor da vida é muito além do que a gente imagina e que é preciso ter confiança para vencer. O curso mudou a minha vida. Sou grato a ela e também a todos os corretores que persistiram no meu desenvolvimento.”

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Filho de pedreiro e de uma comerciante, o futuro educador físico compartilhou com Joana a aprovação no vestibular aos prantos. “A gente construiu uma relação muito bonita. Ele mandou pro grupo do curso e depois no particular pra mim, chorando, dizendo que me amava. O maior aprendizado é: primeiro, ajude, segundo, conquiste, lute e, terceiro, reverbere isso. E essa não é minha história, eu sou coadjuvante. A história é dele, ele é o protagonista dessa história.”

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Filho de um pedreiro e de uma comerciante, Jairtom realiza o sonho da faculdade

As aulas de Jairtom estão previstas para começar no dia 4 de março. Ele inicia o curso já com o plano de realizar um intercâmbio e espera se tornar um ser humano melhor, espelhando-se no exemplo da professora Joana, quem tanto lhe ensinou, sobre fazer uma boa redação, acreditar no seu potencial, saber que as grandes conquistas vêm com muita luta e ser generoso com o próximo.

“Eu me vejo num futuro bem próximo feliz na área que eu escolhi. Eu amo essa profissão. Espero que lá dentro eu possa me identificar ainda mais. Agora que eu vou iniciar uma nova caminhada, um novo ciclo da minha vida. São novas portas se abrindo. Espero ser um excelente educador. Vou me identificar o máximo possível. Também para ser um ser humano melhor.”

“A minha pretensão é me formar e fazer especializações no exterior. Desde já tô procurando me informar sobre como posso fazer intercâmbio em relação aos meus estudos no exterior.”

Confira o relato da professora Joana:

“Foi no estacionamento da escola que a gente se encontrou pela primeira vez: eu, no carro; ele, montado na sua bicicleta seminova. Era um garoto assíduo, não faltava aula nem em dias de dores e cansaço. Queria vencer na vida. Havia nascido em bairro carente e pobre. Vinha de uma família humilde. Era um sonhador. Seu desejo era ser aprovado em uma universidade pública e seu destino se cruzou com o meu ali, naquele primeiro encontro quando eu descia do carro para a primeira aula de Redação na Alcindo Cacela. Era a aula inaugural do nosso curso e qualquer pessoa poderia assistir se quisesse conhecer. Ele tinha ouvido falar de mim, uma amiga havia dito que eu era “a melhor” em redação. Ele era péssimo na disciplina. Foi lá. Assistiu a aula. Ouviu tudo e, como qualquer desconhecido, não foi percebido.

Na saída da sala, no final da aula, ele me chamou no corredor com os olhos vermelhos tentando não chorar: “Professora Joana, acabei de assistir sua aula e estou muito emocionado e decidido a ficar, mas não tenho dinheiro para pagar a mensalidade!. É caro para mim e eu sei que o seu trabalho vai me ajudar a realizar o meu maior sonho que é o vestibular”, ele me disse chorando. Eu paralisei ao vê-lo ali, daquele jeito, tão sincero e honesto. Era um homem. Um menino, despojado de todo o seu machismo, que estava ali pedindo algo tão digno: oportunidade de vencer na vida. “Amor, como tu queres que eu te ajude?”. Eu perguntei. “Não quero de graça!”, ele respondeu tirando o celular do bolso. “Tenho esse celular que é meu único bem depois da minha bicicleta. Quero vendê-lo para pagar o curso completo. Ia vender a bike mas se eu vender não vou ter dinheiro para pagar o ônibus para vir assistir as aulas! Ganhei esse celular, ele está novinho, eu sei que vai fazer falta, mas o meu sonho de passar é maior. A senhora pode comprar o celular de mim e eu frequento o curso. A gente faz uma troca!”. Eu olhei para ele emocionada. “Achas mesmo que o teu celular vai pagar o ano todo de curso?”. “Eu acho que dá pelo menos para a metade, depois eu me viro e pago o resto. Só não posso ficar sem estudar”. “Quanto achas que pegas em dinheiro se venderes o celular?”. “Uns mil reais!”. Eu fiz a conta rápida na cabeça e vi que o valor não ficava longe dos dez meses de curso se eu desse o desconto que a escola me permitia: 100 por mês mais o material, 250.

Olhei para ele fixa nos seus olhos: “Queres estudar de verdade?”. Ele chorou. “Sabes que tenho como te ajudar, né?”. Ele chorou. “Eu tenho como te isentar de tudo porque sou dona do curso, mas se eu fizer isso, vou impedir que uma linda história se realize e eu não posso interferir no teu destino dessa forma. Se eu te disser para não vender o celular e vir estudar de graça, vou tirar de ti parte da tua história e tu vais precisar viver isso para ter o que contar aos teus filhos e amigos mais tarde!”. Ele chorou. “Se é verdadeiro o que me dizes, vende o celular e vem estudar. Faz a tua parte dignamente e vai dar certo!”. “E se eu não conseguir vender logo, como eu ficaria sem as aulas? Eu vou vender, mas e se demorar para pagarem, eu vou perder as aulas?”. “Não. Pode vir para as aulas que eu libero a tua entrada! Chega cedo e me espera que entras comigo!”. E assim ele fazia todo sábado de manhã. Chegava cedo. Amarrava a bicicleta no portão do estacionamento e esperava eu chegar para entrar e assistir a aula. Três semanas depois, quando eu cheguei ele me deu a notícia todo feliz: “Vendi, professora, já estou com o dinheiro!”. Entramos, eu assinei o desconto e vi quando ele pegou tudo o que tinha e efetuou o pagamento. Não dava, mas eu pedi para a atendente quitar a conta e colocar o resto no meu nome. “Dá como quitado e pede para descontarem de mim o resto!”. Ele ficou feliz e me fez chorar ao me agradecer: “Obrigada por me adotar e por acreditar em mim!”.

Naquele mesmo dia, quando saímos da aula e eu o vi desamarrando a bicicleta do portão de ferro, eu fiz a foto dele saindo pedalando. “Esse menino vai vencer na vida e será exemplo, pode anotar o que estou dizendo!”, falei para os corretores que iam comigo de carona no carro. Fiz três fotos dele saindo da escola na sua bicicleta. Fiz porque sentia que Deus sabia a dor desse menino. Fiz porque vi no seu olhar que ele merecia ser feliz com dignidade. Fiz porque eu o amei desde aquele primeiro encontro. Fiz porque todo ser humano merece que a gente acredite nos seus sonhos. Fiz porque tenho uma história parecida. Fiz porque sabia que o final seria esse.

Dez meses se passaram e ontem ele me mandou a foto da comemoração do listão da Uepa. Ele passou em um dos cursos mais concorridos, educação física. Era o que ele queria e deu certo. Eu havia dito que essa era a história que tinha que ser dele. Cada um de nós tem a sua história e é vivendo-a que a gente consegue ser feliz. O sofrimento é parte de todo o processo de mudança e crescimento. Eu podia ter isentado esse menino de toda a dor, mas ele não seria grande, não seria exemplo, não seria quem um dia ainda será quando formado.

Sinto amor e muito orgulho! Vai, menino, o mundo é teu. Obrigada por não ter desistido. Eu te amo, meu filho. Sinto a maior honra desse mundo por ter sido a sua mãe durante esse ano de 2018, no período do teu vestibular. Parabéns.”

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professora ajuda jovem periferia belém passar vestibularcrédito das fotos: Jairtom Oliveira Filho/Arquivo pessoal

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