Sonho de criança transforma a vida de milhares de jovens


Sonho de criança transforma a vida de milhares de jovens 1
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Por Sofia Esteves

Desde criança, meu sonho era cuidar de crianças e não permitir que elas sofressem. Esse desejo surgiu muito cedo no meu coração. Eu morava na Zona Leste de São Paulo e via muitas crianças abandonadas e maltratadas. Quando eu estava com mais ou menos quatro anos de idade, tinha uma vizinha que espancava muito o filho e isso me deixava muito revoltada. Um dia pulei o muro e fui lá, de dedo para cima, dizer que ela não podia fazer aquilo. Chorei muito, fiquei muito nervosa e minha mãe me conta que nesse dia eu disse que não iria deixar crianças sofrerem. Aquilo mexia muito comigo. Mas é claro que naquela época eu não sabia que essa se tornaria a minha causa. Não era consciente. Eu só sabia que eu queria ver as pessoas felizes.

Conforme eu crescia, fui amadurecendo essa ideia dentro de mim e decidi fazer Psicologia para trabalhar com escolinha, educando criança, aprendendo a lidar com criança, para depois ter um orfanato. Mas eu me dei conta de que não adiantava só saber cuidar de crianças, além de fazer faculdade eu precisava de dinheiro para ter um orfanato. Então determinei para mim mesma que juntaria esse dinheiro até os 50 anos de idade. E fiz um planejamento das etapas que eu precisava cumprir para chegar lá. Porém, depois descobri que nem sempre adianta se planejar, a vida te carrega de outro jeito.

Trabalhei como recepcionista em uma clínica e como vendedora de móveis para custear a faculdade. Esse período foi muito difícil. Acho que o mais difícil de toda minha trajetória.  Eu sofri discriminação porque não tinha roupa, não tinha dinheiro para tomar cafezinho. Eu morava há quase seis quilômetros da faculdade e às vezes ia à pé. Mas uma coisa que eu sempre pensava era que chorar nas adversidades não resolve problema. E falo sempre isso para as pessoas. Depende mim, depende de cada um fazer diferente. As dificuldades que eu passei foram muito importantes para mim, me deram força.

Meus pais sempre me disseram: “faça por merecer”. E foi isso que eu fiz, corri atrás de tudo que queria. Quando saí da faculdade, ainda não tinha nenhuma experiência na minha área. Nem sabia que poderia trabalhar em consultoria de RH, muito menos que um dia teria a minha própria. Fui procurar emprego, vi um anúncio de uma consultoria que fazia recolocação de profissionais e então liguei dizendo assim: “bom dia, eu tenho 23 anos, um alto potencial a ser desenvolvido, vocês não querem me dar uma chance?”

Eles acabaram me recebendo para uma entrevista e me perguntaram se eu tinha alguma pretensão salarial. Eu respondi: “não, estou pagando para quem me deixar começar a trabalhar”. Imagina, tinha duas calças, três blusinhas, mas fui lá com a cara e com a coragem. Fui contrata ganhando menos de um salário mínimo para ser assistente dos consultores. Em menos de um mês eu era consultora, seis meses depois eu era consultora sênior, um ano depois eu era gerente, responsável por uma nova divisão da empresa. Não era o caminho que eu tinha imaginado para mim, a princípio, mas não importa o que eu fizesse, eu queria fazer bem feito. Eu acho que tudo que se faz tem que ser feito com paixão, senão torna-se muito chato.

Depois disso passei por um curto período em outra consultoria de seleção de profissionais, onde me desenvolvi lá até um dia que um dos sócios queria que eu fizesse um trabalho que eu achava que não batia com os meus valores. Como minha mãe me ensinou que os incomodados que se mudem, foi o que eu fiz. Ainda desempregada recebi uma proposta para tocar um projeto de seleção de profissionais de maneira independente. Eu teria que abrir a minha própria empresa. O executivo de uma multinacional que atendia na consultoria da qual me desligou me propôs o trabalho e disse: “eu gosto muito do jeito que você pensa RH. Abre a tua empresa que vai dar certo!”

Eu acreditei e fui em frente. Foi assim o nascimento do grupo que atualmente tem mais de 200 funcionários, escritórios na Argentina e no México e um currículo de projetos desenvolvidos em mais de 44 países no mundo inteiro.

Quando completei 48 anos, estava pronta para começar a concretizar o sonho do orfanato. Eu e meu marido fomos procurar um terreno para a construção do orfanato, que demoraria uns dois anos e quando eu fizesse 50 anos a gente poderia começar a receber as crianças. Fui procurar minha advogada para montar o estatuto, a ONG, e essa mulher me contou que não existe mais orfanato no Brasil. Eu falei: “então eu já vou te avisar que eu vou fazer um clandestino. Porque você não está entendendo, eu tenho uma promessa pro cara lá de cima e não tem como eu ligar. Eu não tenho o celular dele para renegociar a dívida.”

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Uma conversa com uma especialista da vara da infância e da juventude me mostrou um outro caminho para eu realizar meu sonho. Em um determinado momento do nosso papo ela me disse: “você não percebeu que teu orfanato é outro? Você não precisa desistir do teu sonho do orfanato. Só que teu órfão é outro. Por que você não adota os milhares de órfãos do mercado de trabalho?” E aí caiu um caminhão de fichas em cima de mim – só quem é da época do orelhão que sabe o que significa isso. Ficou tudo muito claro.

Depois disso, com trabalho e dedicação, tudo conspirou a favor do nascimento do Instituto Ser +. Trabalhamos na qualificação de jovens em situação de vulnerabilidade social para o mercado de trabalho com a receita de tudo que eu e minha equipe aprendemos em mais de vinte anos lidando com a orientação de carreira e seleção de jovens para programas de estágio e trainee de grandes empresas. Tenho muito orgulho da metodologia que desenvolvemos baseada no desenvolvimento do autoconhecimento, da autoestima e do talento, além de conhecimentos técnicos para a conquista do primeiro emprego. O nosso objetivo principal é que o jovem que passe pelo Ser+ saia convicto de que pode chegar aonde ele quiser.

Não apenas eles, mas todo mundo pode. Faça por merecer, faça a tua parte e colha as transformações que você quer para o seu mundo. Não vai dar para mudar o mundo inteiro? Não vai. Mas muda na tua casa. Muda no teu emprego. Muda na tua família. E você vai contaminar as pessoas em volta de você.

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Sofia Esteves é fundadora e Presidente do Grupo DMRH e Cia de Talentos. Graduada em Psicologia com Pós Graduação em Gestão de Pessoas. Professora de MBA e Especialização da FIA e FGV. Pesquisadora sobre temas como: Tendências de Gestão de Pessoas e Liderança Feminina. Comentarista de Carreira da GloboNews, Valor Econômico e Exame. Autora dos livros: “Carreira – Você está cuidando da sua?”, “Virando Gente Grande – Como Orientar Jovens em Início de Carreira”. Membro do movimento Capitalismo Consciente Brasil e Rede de Mulheres Brasileiras Líderes pela Sustentabilidade do Ministério do Meio Ambiente e Presidente do Instituto Ser +.

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