Estilista traz pessoas consideradas ‘fora dos padrões da moda’ para desfilar na passarela

Estou reproduzindo na íntegra um  texto da excelente Valéria Brandini, da qual tive aulas de Antropologia durante minha pós no IED há algum tempo atrás e que me fez mais do que olhar, e sim enxergar mais as pessoas ao meu redor:

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Há 10 anos escrevi na minha tese de doutorado que a coisa mais subversiva da moda nunca foi mostrar o nú, o sexo explícito, a miséria ou a violência e sim mostrar GENTE NORMAL, em especial, gente GORDA. A moda se sustenta no desejo do consumidor de fazer parte do grupo das pessoas IMPOSSIVEIS – impossivelmente magras, impossivelmente lindas, impossivelmente jovens, impossivelmente felizes e impossivelmente ricas e ainda dizer que nada disso importa com um ar blasé. Nada mais choca na publicidade, nada mais é subversivo ou inovador, a não ser expor o consumidor ao duro enfrentamento do COMUM, esta a palavra mais subversiva de todas, na era do individualismo voraz em que todo mundo tem que ser especial. Pois bem, Rick Owens conseguiu fazer algo inovador, colocou gente FEIA (para os padrões do mercado) num desfile em Paris, gente feia fazendo o que o consumidor acha que só gente bonita faz bem – dançar e se expor. Mesmo as “gordinhas da Dove” não tem nas propagandas um traço de celulite, estria, barriga caída ou culote sequer, quer dizer o GENTE NORMAL que o mercado expõe é sempre trabalhado no padrão vigente. Vivemos a ditadura das PESSOAS IMPOSSIVEIS, naquele mundo perfeito das propagandas Diesel, onde não existe envelhecimento, nem gordura, nem feiúra, nem infelicidade. Todas as culturas e civilizações usam a fabricação estética para marcar socialmente seus valores, desde o padrão de beleza das mulheres girafa birmanesas até as jovens do Kirgiquistão, submetidas ao ‘gavage’, uma prática de engorda a base de alimentacão forçada de um mingau horrível, pois eles vivem no deserto, com pouca comida e gordura é signo de beleza para uma esposa. O problema é que a ditadura estética da civilização ocidental contemporânea é contrária `as possibilidades da natureza. Nós vamos envelhecer, nosso corpo tem imperfeições, os rostos não são simétricos nem correspondem ao padrão hollywoodiano e não se é linda, arrumada, impactante, feliz e com sucesso o tempo todo, como no seriado Sex and the City. Nancy Etcoff dizia de uma forma bem humorada na obra “A lei do mais belo”, relacionando a neurosciência com a percepção de beleza, que as top models são aberrações da natureza, pois não são o NORMAL, são exceções extremas e tentar se tornar uma é como nascer pato e querer se tornar cisne – o que as mulheres orientais já fazem, se submetendo a uma cirurgia para aumentar a altura em 5 centímetros quebrando e reconstituindo as pernas. E estamos adoencendo como sociedade ao tentar a impossibilidade, fisicamente, emocionalmente, eticamente. Eu vivi muito a Semana de Moda Masculina de Milão durante meu doutorado. E vivi ‘bem’ (:P), mas no fim das contas, todos aqueles homens impossíveis eram iguais, faltava aquele defeitinho, uma gordurinha sobrando de lado, uma assimetria na face, alguma imperfeição que me fizesse sentir que, como no livro O Pequeno Príncipe, aquela rosa era diferente de todas as outras, lindas e perfeitas, pois era ‘a minha rosa’. Naquele roseiral perfeito, em algum momento eu deixei de enxergar beleza e comecei a enxergar só mais do mesmo, mas um dia numa festa pós desfile no clube Gasoline, conheci um rapaz de óculos, bem ‘normalzinho’, meio barrigudinho. Na terra dos homens lindos, meu namorado Mauro foi o menos bonito de todos os homens com quem estive na Itália. Foi por quem mais me apaixonei.
Rick Owens mostrou o óbvio e na sociedade do espetáculo, curiosamente, o óbvio é mais impactante do que qualquer super produção, pois mostra que o encantamento não está explícito no ‘objeto observado’, mas no olhar capaz de encontrar valores, beleza e encantamento do observador.

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