Ex-catadora de latinhas vira a primeira mulher negra latino-americana a chegar ao topo do Everest

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Desde pequena, no bairro de Jardim Capivari, na periferia de Campinas (SP), Aretha Duarte aprendeu a buscar diferentes maneiras para superar as dificuldades e conquistar seus objetivos. Enquanto o pai se deslocava toda semana para trabalhar na capital como ferreiro-armador e a mãe atuava como faxineira e cozinheira, a caçula de três irmãos já ajudava à sua maneira na renda da família: aos 10 anos, por exemplo, passou a vender chocolate e bala na escola.

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Foi mais ou menos nessa época que, olhando para as latinhas que se acumulavam no lixo, ela teve uma ideia: catar e vender material reciclável para conseguir comprar os patins que tanto queria. “Muitas vezes, quando meus pais não podiam comprar algo que eu desejava, eu me inspirava na força de trabalho deles. E parti para a reciclagem, catando latinhas de alumínio, para alcançar os recursos de que necessitava.”

O desejo contínuo de superar obstáculos a levou a mais uma conquista anos mais tarde: ela se tornou a primeira da família a passar no vestibular e fez faculdade de educação física, que a alçaria a lugares que ela nem podia sonhar.

No topo do mundo

Às 10h24, do dia 23 de maio de 2021, Aretha Duarte se tornou oficialmente a primeira mulher negra latino-americana a chegar ao topo do Everest, a montanha mais alta do mundo. Esse foi o auge de uma jornada que começou ainda na faculdade, em 2004, quando ela conheceu o universo do montanhismo em uma palestra e caiu de amores pelo esporte.

A paixão logo virou prática e profissão. Interessada, Aretha se aproximou da empresa de trekking que realizava o evento, fez cursos e aprendeu as técnicas do montanhismo. Em 2011, foi contratada como vendedora, se tornou assistente de guia até, finalmente, virar guia especializada em altas montanhas. Daí em diante, ganhou o mundo: acompanhou grupos pelas montanhas de Nepal, Rússia, Tanzânia… Mas o desejo de encarar o Everest só surgiu em 2019, quando ela viu a foto de um colega de trabalho.

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“Era uma parte do Everest chamada Vale do Silêncio. Eu achei linda e pensei: ‘um dia, estarei lá’. Decidi que minha próxima ida ao Nepal seria para tentar chegar ao topo da montanha”, conta. A aventura, porém, era cara: cerca de R$ 400 mil. Como arrecadar esse dinheiro? Aretha decidiu voltar ao que tinha feito na juventude: recolher resíduos para reciclagem.

500 kg de material reciclável por dia

Em março de 2020, passou a rodar por Campinas e arredores, de domingo a domingo, a bordo de uma caminhonete velha – tudo em meio à preocupação por conta da pandemia de covid-19. Com o apoio de parentes e amigos, durante doze meses e onze dias, ela recolheu quase 500 kg de material reciclável por dia, chegando ao volume total de mais de 130 toneladas.

A verba arrecadada, no entanto, ainda não era suficiente. Mas a perseverança de Aretha começou a chamar atenção: enquanto ela recorria a alternativas como bazares e financiamento coletivo, patrocinadores se aproximaram para somar à sua meta, e ela participou inclusive de um jogo no programa do apresentador Luciano Huck para angariar fundos.

Ao mesmo tempo, a alpinista contou com uma extensa rede de treinadores, médicos e mentores para se capacitar para a aventura que vinha pela frente. “Eu não trabalhei sozinha. A conquista era coletiva.”

Poder Interno Bruto

Finalmente, com a verba em mãos, em abril de 2021, Aretha embarcou para o Nepal e, em 23 de maio, entre rajadas de vento e muito frio, chegou ao topo do mundo. “Eu senti que estava representando muito mais do que uma mulher negra, muito mais do que a Aretha. Eu representava toda a minha família, toda a periferia”, lembra ela.

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O topo do mundo ainda é só o início para Aretha: seu sonho é inspirar jovens da periferia a transformar suas vidas e descobrir o potencial que ela apelida de PIB – Poder Interno Bruto. Para isso, quer montar escolas de escalada em que jovens sejam impactados por meio de esporte, arte e tecnologia, a começar pela periferia de Campinas.

Enquanto luta para tirar o sonho do papel, segue com a agenda lotada, se dividindo entre o trabalho como guia e palestras em escolas públicas. “O maior legado que posso deixar vai muito além de uma conquista individual. O que mais importa é a conquista coletiva: é ver mais negros, mais mulheres, mais pessoas, ver a periferia alcançando os seus próprios ‘Everests’.”

Texto: Gabriel Oliveira
Foto: Marcus Steinmeyer

Conteúdo publicado originalmente na TODOS #45, em setembro de 2022.

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