Ex-doméstica brasileira é nomeada conselheira sênior do governo dos EUA

Natalicia Tracy, uma ex-empregada doméstica brasileira que se mudou para os EUA em 1989 em busca de melhores condições de vida e se tornou líder trabalhista e acadêmica foi recentemente nomeada para trabalhar em um alto cargo do governo norte-americano.

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Antes de se tornar conselheira sênior da Agência de Saúde e Segurança Ocupacional (Osha), vinculada ao Departamento de Trabalho, Natalicia percorreu um longo caminho de trabalho, estudos e também luta por justiça.

Isso porque, pouco depois de chegar em Boston, há 32 anos, para trabalhar na residência de uma família brasileira, ela começou a ser submetida a jornadas abusivas de trabalho.

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Natalicia tinha apenas 19 anos quando foi recrutada em São Paulo (SP) para acompanhar uma família brasileira numa temporada de 2 anos em Boston, no estado de Massachusetts.

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A doméstica cuidava de um bebê de 2 anos e limpava a casa sozinha. Sua jornada de trabalho ia das 6 da manhã às 11 horas da noite! 😱

“De acordo com as leis trabalhistas dos Estados Unidos, eu estava num trabalho considerado escravo“, disse à BBC Brasil em uma entrevista de 2016.

E não havia conforto algum, nem na hora de dormir: Natalicia disse que dormia numa “varanda fechada com cimento grosso no chão” e que não podia usar o telefone nem receber cartas.

Muitas vezes sequer sobrava comida após cozinhar para os patrões. “Fiquei doente e não me levaram ao médico. Era um ser humano que estava sob a responsabilidade deles: não falava inglês, não tinha família aqui.”

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E o salário era extremamente injusto: US$ 25 por uma jornada de 90 horas semanais, valor muito abaixo do salário mínimo local.

Ao final dos dois anos de “recrutamento”, seus empregadores voltaram ao Brasil, mas Natalicia resolveu permanecer nos EUA. Lá, casou-se com um americano e começou a se dedicar aos estudos.

Foram diversos passos largos: ela concluiu o ensino médio, cursou Psicologia e Sociologia até obter mestrado e PhD, com um estudo que relaciona imigração, raça, família e classe.

Em 2006, no governo Bush, Natalicia se inscreveu como voluntária no Centro do Trabalhador Brasileiro, grupo de defesa de direitos trabalhistas do qual se tornou diretora-executiva em 2010.

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Na região em que atua está a maior população brasileira nos Estados Unidos – muitos em situação irregular.

Apoiada pela American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations, a maior central sindical do país, Natalicia passou a articular com outras organizações a aprovação, em Massachusetts, de uma das mais avançadas legislações estaduais sobre trabalho doméstico dos Estados Unidos.

O projeto virou lei, sancionado em julho de 2014, e exige que os domésticos – mesmo os indocumentados – tenham um contrato de trabalho escrito, sejam pagos pelo total de horas trabalhadas, garante dias mínimos de descanso e cria canais para denunciar abusos.

A nova legislação virou manchete nacional: a partir daí, Natalicia começou a ter interlocução com políticos democratas, como o ex-presidente Barack Obama e a senadora Elizabeth Warren.

Tive acesso a espaços que antes não eram abertos nem a americanos de cor. Foi poderoso“, afirmou a agora conselheira sênior.

“Essa consciência de ser mulher, imigrante e negra, eu uso isso como uma arma, de forma que sei quem sou e sei da minha capacidade. E se você disse que eu não posso fazer alguma coisa, eu vou te provar o contrário, completou.

Veja também:

Fonte: BBC News Brasil
Fotos: Arquivo pessoal

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