Homem que cumpriu 20 anos de prisão hoje alimenta milhares de pessoas carentes nos EUA

Quase 30 anos depois de cumprir pena em um dos presídios mais perigosos da Califórnia, Manny Flores, um ex-chefe de facção carcerária, devolve em bondade para sua comunidade todo o mal que lhe causou.

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Enquanto cumpria sua pena de 20 anos, Manny descobriu que um membro de uma facção rival pretendia matá-lo para tomar seu lugar. Não estava em seus planos ficar parado enquanto tramavam contra ele, então o criminoso agiu primeiro, a ponto de quase matar o conspirador.

De início, ele ficou convencido de que, depois de esfaquear seu inimigo, seria condenado à prisão perpétua. “Achei que nunca mais veria meus pais”, relembra.

“Graças a Deus”, desabafa o californiano cujos pais são latinos, o conspirador sobreviveu e nunca o acusou formalmente. Assim, o destino dava mais uma chance para Manny. Era hora de nascer de novo e deixar o passado criminoso para trás.

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E, de fato, hoje ele é um outro homem.

Manny, 50 anos, trabalha como diretor da North Valley Caring Services (NVCS), uma organização sem fins lucrativos que alimenta, apoia, educa e protege milhares de famílias desabrigadas na área de San Fernando Valley, no condado de Los Angeles.

Em entrevista à BBC, ele contou que muita gente na Califórnia está correndo risco de perder suas casas e se tornar pessoas em situação de rua. “Não sei se poderei consertar todos os danos que fiz à minha comunidade, mas, na medida do possível, quero trabalhar duro, ser honesto e dedicar minha vida ao bem“, completou.

Para as autoridades do condado, o trabalho de Manny é um exemplo de melhoria e conversão para toda a sua comunidade.

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Milhares de famílias atendidas todos os dias

Por meio da North Valley Caring Services, Manny atende cerca de 4.500 famílias, a maioria desabrigados, vítimas de uma grave crise de mendicância que afeta o estado da Califórnia, um dos estados mais ricos dos EUA.

“A realidade é que o custo de vida está fora de controle. Isso está levando muita gente a pedir esmolas”, contou o ativista. “Famílias de renda média são as que mais precisam de ajuda. São aquelas em pior situação agora, as mais frágeis”.

Muitas dessas pessoas Manny se propôs a ajudar todos os dias pelo mal que afirma ter-lhes causado no passado. “Alimentamos um total de 4,5 mil famílias por semana. Só por nossa agência, atendemos cerca de 1,5 mil. Depois, por meio de igrejas e centros de distribuição, chegamos a esse total de 4,5 mil”.

“Causei muitos danos à minha cidade, Los Angeles. É meu dever servir e usar para o bem todo o mal que fiz”, completou.

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Passado problemático

Toda vez que cita sua comunidade, Manny se emociona. Arrependido, ele explica que não compreende porque tinha tantas motivações criminosas no passado.

“Não sei como fui para o crime. Era filho único e minha casa nunca foi problemática ou abusiva. Cresci em uma família onde recebi princípios de valor, amor e respeito pelos outros”, diz. Assim assim, na adolescência, se envolveu com gangues e crimes afins.

Apoiado por más influências, Manny mudou sua personalidade – para pior – e adotou um estilo de vida diferente. Subitamente começou a vender drogas, roubar, extorquir dinheiro, carregar armas, atirar em gangues rivais…

De pouco em pouco, ele acabou se tornando um dos maiores gângsters de Los Angeles nas décadas de 80 e 90. “Era uma figura do alto escalão. Eles contavam comigo para a logística da gangue. Movia dinheiro, manipulava pessoas e recrutava jovens”.

Aos 23, no entanto, decidiu levar um estilo de vida mais pacífico. Se casou e teve dois filhos. Mas não demorou muito para tudo dar errado de novo. “Tentaram me assassinar e fui atrás deles. Procurei quem atirou em mim, atirei e bati em uma pessoa.”

Aquele seria seu último delito em liberdade: a polícia o prendeu e a Justiça o condenou a 20 anos de prisão por tentativa de homicídio.

Presídio da Califórnia.

Anos no presídio

Manny foi encaminhado para uma das prisões mais violentas de toda a Califórnia, onde vigora, informalmente, a lei do mais forte.

“Estava envolvido na prisão com a máfia mexicana, mas havia outras facções, como afro-americanos, brancos americanos, skinheads ou os da Nação Ariana”, contou.

Pouco tempo depois de entrar, ele mais uma vez se estabeleceu como líder – agora, dentro da máfia mexicana.

“Mas alguém queria a minha posição e mandaram-no para me esfaquear. Disseram-me que isso ia acontecer, mas não podia deixar acontecer. Tive de mostrar que era homem e que resolvia os meus problemas sozinho.”

Foi quando Manny se antecipou e apunhalou a pessoa que queria atacá-lo. “Achei que eles (Justiça) iriam me dar prisão perpétua, mas o cara sobreviveu e nunca me acusou. É muito raro isso acontecer”, contou.

Conversão e nova vida

Um “encontro com Deus” mudou o rumo da vida de Manny enquanto ele estava na solitária. “Eles me controlavam 24 horas por dia. Não via o sol, não tinha visitantes, não tinha contatos ou acesso ao telefone. As pessoas lá enlouquecem.”

O isolamento permitiu que ele pudesse refletir – e resgatar os ensinamentos de sua família.

Hoje, ele acredita que os erros e deslizes do passado se devem à baixa autoestima e à necessidade de ser aceito impondo medo e respeito.

“Foi a primeira vez que fui honesto comigo mesmo. Muitas das coisas que fiz foram por puro medo e não porque era o mais corajoso. É engraçado, porque o mesmo aconteceu com outras pessoas na mesma situação”.

Assim que concluiu o cumprimento de pena, Manny mostrou a seus pais que poderia mudar e aplicar todos os bons ensinamentos que recebeu quando criança. E assim tem sido nos últimos anos.

Desafios da ressocialização

Manny bateu em muitas portas pedindo oporturnidades desde que saiu da prisão, em 2014.

A primeira ‘portada’ na cara foi da igreja que o ajudou em sua conversão na prisão. “Não fui aceito. Tinham medo do meu passado. Pensaram que talvez minha conversão não fosse real e que poderia prejudicá-los. Me falaram para procurar outra igreja.”

Foram meses experimentando todas as dificuldades pelas quais passa um ex-presidiário para se reintegrar à sociedade.

“Quando estava na prisão, todos me pediram para mudar. Mas quando mudei e saí, me dei conta de muitas coisas. As pessoas, sua família, sua comunidade, sua igreja, eles querem que você mude, mas quando você lhes pede uma chance, as coisas são muito diferentes. ”

Uma a uma, mais e mais portas eram fechadas. “É difícil encontrar oportunidades para pessoas como eu. Com antecedentes criminais, é muito difícil arranjar um emprego.”

Certo dia, já quase sem esperanças, Manny conheceu a ONG North Valley Caring Services (NVCS). O diretor da entidade tinha um amigo em comum com Flores. Ele foi aceito em uma entrevista de emprego e, em seguida, conseguiu a vaga.

No ano passado, ele foi nomeado diretor ao implantar um programa de alimentação que aos poucos começou a impactar a vida de muitas pessoas. “Estou muito grato. Não tive nenhuma experiência, apenas minha educação na prisão e o que aprendi na rua.”

Comida para quem está passando por necessidades

Um dos principais programados implementados pelo NVCS é a entrega de comida para famílias em situação de vulnerabilidade.

Os ativistas e voluntários da causa fornecem estacionamento para as famílias que moram em seus carros, segurança, alimentação e banho.

A organização também educa crianças e as ensina a usar computadores e navegar na internet. “Muitas famílias que imigram aos EUA não sabem usar o computador e não podem ajudar os filhos nos deveres de casa. Por isso, montamos uma sala onde oferecemos ajuda”.

E a entidade vai além: também ensina habilidades de empreendedorismo para indivíduos, fomentando a criação de microempresas e transmitindo conceitos de negócios.

“Várias pessoas conseguiram bons contratos e agora estão em outro nível econômico. Por meio de nossos programas, conseguimos impactar 20% das pessoas na área de San Fernando”.

“Nosso objetivo é criar um sistema coletivo e cooperativo por meio do qual a comunidade compreenda a força que tem quando trabalhamos juntos”, disse Manny.

Uma vida feliz – enfim.

Recentemente, o ativista se casou novamente. Sua atual esposa é a primeira mulher com quem ele diz ser completamente honesto. “Contei a ela sobre tudo o que passei e me apresentei como sou. E ela me aceitou.”

Pela primeira vez feliz – e sempre grato pela oportunidade de ter mudado seu caminho, – Manny exalta à Deus “pelas portas abertas”.

Ele também pôde se redimir com seus pais, que puderam ver a mudança em sua vida e tudo o que ele faz pela comunidade. “Meu pai faleceu há um mês, mas tive o privilégio de me ver colocando em prática todos os ensinamentos que ele me deu. Não sei se o que faço pode reparar o dano que fiz, mas vou trabalhar muito para tentar.”

Junto à Stone, viajamos o Brasil para mostrar negócios que muita gente acha que não daria certo na nossa terrinha – e dão! Veja o 1º EP da websérie E se fosse no Brasil?

Fonte: BBC Brasil
Fotos: Arquivo pessoal

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