Ex-viciada em drogas encontra na reciclagem um propósito de vida e dá lição de resiliência

Assim como milhares de outros brasileiros, Anne Caroline Barbosa também sonhava com o universo de oportunidades da imensa São Paulo. Criada em Corumbá – Mato Grosso, depois de se formar em design gráfico, em 2017 e aos 25 anos, ela decidiu tentar a vida na maior cidade do Brasil.

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Sem emprego e tampouco um lugar para morar, Anne acabou nas ruas e viciada em drogas, mas deu a volta por cima. Atualmente, ela não somente encontrou na reciclagem um propósito de vida, como nos ensina o verdadeiro signficado de ser resiliente.

“Tenho 28 anos de idade física e um pouquinho mais de idade espiritual, mas não encare isso como algo negativo, é só um tanto de experiências vividas em tão pouco tempo que acredito ter amadurecido algumas vidas”, com esta frase que ela se apresenta já temos uma ideia do tanto de experiências que ela viveu desde que decidiu sair da zona de conforto e viver em São Paulo.

anne caroline antes do vício
Foto: Instagram

Acontece que este “tentar a vida na cidade grande” carrega uma infinidade de incertezas, afinal, não é tão simples quanto parece conseguir um emprego quando não se conhece ninguém e bancar o estilo de vida na cidade mais cara do país.

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Logo que chegou, Anne foi morar em um albergue da prefeitura, no bairro do Canindé e foi lá que conheceu o seu grande amor – Lucas, com quem teve uma filha, maior motivo de sua superação.

O vício

Foi no albergue que Anne conheceu algumas pessoas, que lhe apresentaram a cocaína. Para sustentar o vício, ela passava longas jornadas sem dormir sentada na calçada da faculdade de direito do Largo São Francisco aguardando alguns trocados. No final do dia, ela tinha sempre entre 150 e 300 reais, que iam diretamente para uma amiga que comprava as drogas.

“Muitas vezes passei a noite em claro, tinha taquicardia e acabei desenvolvendo uma síndrome do pânico por causa da cocaína. Hoje mal posso tomar café que tenho crise – cafeína desencadeia a ansiedade”, relembra.

anne caroline grávida nas ruas
Foto: Instagram

Nesta época Anne conheceu Lucas, atual marido e a pessoa que lhe apresentou o crack. No entanto, ele não gostava da prática de “pedir esmola” nas ruas e ensinou aquilo que viria a mudar sua vida: a reciclagem!

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O salário era bom, o dobro, muitas vezes o triplo, do que ela costumava tirar quando trabalhava em uma estamparia lá no Mato Grosso. Mas para ganhar bem era preciso trabalhar muito e por isto eles decidiram sair do albergue.

Em busca de mais liberdade e mais dinheiro para sustentar o vício, eles foram viver nas ruas. Ao mesmo tempo, Lucas tinha o sonho de ser pai e Anne chegou à conclusão de que um filho salvaria o casal do vício.

Depois de alguns meses tentando, ela engravidou: “Um dia normal, segui a rotina mas me senti muito mal, fui ao posto de saúde e: grávida! Agradeci a Deus e, reunindo minha gratidão, abandonei todos os tipos de vício e lutei ao lado do meu marido até que ele conseguisse também”, conta.

anne caroline e o marido lucas
Foto: Instagram

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A reciclagem

Mellissa Luz foi o nome que o casal escolheu para a filha, já que a menina foi a grande catalizadora da nova fase de Anne e Lucas, sem vícios, longe das ruas e com um propósito maior. Apesar de simples, hoje eles têm a própria casa, na favela da Zaki Narchi, zona norte paulistana.

Anne e Lucas representam uma classe de trabalhadores extremamente marginalizada. Responsáveis por manter a cidade limpa, eles costumam ser invisíveis e precisam se acostumar com olhares de reprovação, muitas vezes por causa da sujeira.

“A nossa profissão já é marginalizada, as pessoas acham que somos ladrões. A sujeira faz parte do nosso trabalho, é natural quando se trabalha com lixo”, explica Anne.

anne caroline agradecendo a entrevista na marie claire
Foto: Instagram

Segundo a catadora, devido à pandemia o preconceito aumentou. “Dia desses um rapaz parou o carro simplesmente para xingar a mim e ao meu marido. Disse que catador tinha que morrer porque atrapalhava o trânsito, a sociedade. Falou que éramos sujos, um estorvo. Respondi que gosto do que eu faço e pedi que respeitasse a minha profissão. Ele respondeu: ‘Qual profissão?’”, diz relembrando um episódio recente.

A maternidade

Mellissa tem 1 ano e 10 meses e nasceu com uma cardiopatia congênita (Tetralogia de Fallot). A bebê faz tratamento no hospital Dante Pazzanese e está na fila para ser operada, mas foi morar com a avó de Lucas no interior paulista durante a pandemia. De acordo com Anne, na favela tem muita gente contaminada, o que poderia ser fatal para sua filha.

Ex-viciada em drogas encontra na reciclagem um propósito de vida e dá lição de resiliência 3
Foto: Instagram

Anne descobriu a gravidez quando já estava de 2 meses e na época ainda usava drogas. Apesar de ter parado completamente quando confirmou, as drogas afetaram a saúde de Mellissa, que possui certas dificuldades motoras e cognitivas e precisa ser operada o quanto antes.

Uma vida de lutas

Depois de vencer o vício nas drogas, Anne hoje esforça-se para mostrar que os catadores lutam diariamente para construir um mundo melhor. “A gente não pode pensar em natureza sem pensar que nós somos a natureza. Estamos cuidando do futuro dos nossos filhos”.

catadores de lixo na cidade
Foto: Instagram

E foi esta luta que a inspirou a escrever que o preconceito contra os catadores dói mais do que a fome, no Instagram de um amigo. Em poucas horas a postagem viralizou e ela foi chamada para gravar dicas de reciclagem no perfil Bate Papo Sustentável.

A repercussão tem sido muito grande, talvez porque agora as pessoas estejam com mais tempo, ou simplesmente porque compreenderam a importância da reciclagem para um mundo mais sustentável.

“Muita gente tem o hábito de descartar o vidro dentro de caixinha de leite e deixar um aviso que tem lixo alí. Mas muitos catadores não sabem ler, não adianta escrever que tem vidro. Tem que colocar dentro da garrafa pet”, explica Anne entre centenas de dicas valiosas que ela tem publicado.

 

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Oi gente, tudo bem? Meu nome é Anne Caroline (@anneluca.s), eu e meu marido somos catadores de recicláveis desde 2017. Fomos moradores de rua, viciados em crack e começamos a reciclar inicialmente para sustentar nosso vício, engravidei na rua e graças a isso, e claro muita fé em Deus, conseguimos vencer as drogas. Começamos a reciclar com uma carroça emptestada do ferro velho, mas onde trabalhávamos sofriamos muitas humilhações e não era isso que queríamos pra nós, perder o prazer de trabalhar por causa disso, então com muito suor conseguimos comprar nossa carroça! Ficamos um mês com ela, e estávamos ansiosos para participar da edição 2019 do Pimp My Carroça, desde que soubemos o dia que seria, começamos a contar os minutos! Fomos dormir, para então amanhecer e ir pro evento. Quando acordamos… Ué? Cadê a carroça? Tivemos nossa carroça roubada da porta de nossa casa. Desde então, estamos trabalhando com uma carroça emptestada por um amigo, e quando ele precisa usá-la, é um dia de trabalho perdido, quando não conseguimos emprestar um carrinho de mercado para continuar a luta. E um dia de trabalho perdido pra nós é uma linha tênue entre ter uma refeição ou não. Por isso, hoje estamos aqui pedindo a sua ajuda, sabemos que está difícil pra todos, mas se você puder, vamos ser eternamente gratos pois não vamos só conseguir ter nosso própria carroça, vamos ter a dignidade e a liberdade de conquistar nosso pão sem a dúvida e angústia de pensar que talvez hoje não seja possível trabalhar porque o dono vai precisar usar a carroça… Desde já, agradeço a todos que contribuírem, um imenso abraço em cada um de vocês! Link para contribuir: vaka.me/1156054

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Anne viveu uma vida em 3 anos e tem sido inspiração para muita gente que vive situações parecidas. E para quem duvida que ela seja feliz, a catadora deixa um recado: “Fico muito feliz em poder valorizar nossa profissão, descobri nela meu propósito de vida”.

 

Fonte: Marie Claire

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