Após 60 anos, fotos confiscadas de casal gay são finalmente reveladas

Em 1957, um jovem rapaz foi a uma loja de fotografia próxima ao bairro onde vivia, na cidade da Filadélfia (EUA), para revelar suas fotos de casamento.

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As fotos capturadas mostravam o que a tradição de uma cerimônia como esta exige: a troca de alianças diante de testemunhas, o primeiro beijo, a dança, o corte do bolo e a abertura de presentes.

No entanto, o jovem nunca mais veria estas fotos. Isso porque elas mostravam uma cerimônia de casamento com outro homem, e sem que ele soubesse, o gerente da loja tinha uma política de reter fotos reveladas se as considerasse “inapropriadas” – o que ele fez.

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Naquele tempo, a homossexualidade era amplamente reprimida, condenada e desencorajada pela sociedade norte-americana sob a chancela dos três poderes.

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As fotos do rapaz, no entanto, não foram destruídas. O gerente da loja de fotografia tinha uma outra política: seus funcionários podiam fazer o que quisessem com as imagens confiscadas.

Uma funcionária decidiu levar as fotos para casa, onde as guardou por incríveis 62 anos. Neste ano de 2019, sua filha encontrou os filmes de revelação após uma faxina na casa da mãe, que falecera recentemente.

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“Minha mãe tinha uma memória fotográfica dos rostos das pessoas cujas fotografias eram retidas na loja. Ela costumava entregar às escondidas para os clientes as fotos que o gerente confiscava”, escreveu a moça para a ONE Foundation, um arquivo LGBTQ de Los Angeles. Ela não quis ter seu nome divulgado.

Infelizmente, a antiga funcionária da loja não conseguiu encontrar o rapaz para entregar a ele as fotos de seu casamento. Décadas mais tarde, sua filha vendeu as fotos no eBay para um homem que mais tarde doou as fotografias para o Arquivo da ONE Foundation.

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Desde então, a organização tem procurado os noivos, seus amigos ou familiares. Nas fotografias, o casal de rapazes e seus amigos parecem ter entre 20 e 30 anos, isto é, hoje teriam entre 80 e 90 anos, se estiverem vivos.

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Os arquivistas entraram em contato com proprietários de empresas locais e idosos LGBTQ da Filadélfia. Mas até agora, seus esforços foram infrutíferos.

“Existem tantas pessoas não identificadas em nossa coleção… é uma parte frustrante da nossa história”, diz Michael Oliveira, que cuida do acervo da ONE. “Havia pessoas que temiam a violência; temiam que suas casas fossem incendiadas se tivessem seus nomes estampados nos jornais, que chamavam homossexuais de “pervertidos”. Retaliações eram comuns na época e tinham o aval do governo.”

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“É uma agulha no palheiro – há muitas perguntas não respondidas e poucas informações sobre essa coleção de fotos”, diz Michael. “Podemos especular sobre onde e como elas foram tiradas, mas não sabemos absolutamente nada sobre quem são essas pessoas”, afirma o arquivista, desapontado.

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Como as comemorações do 50º aniversário das revoltas de Stonewall no mês passado deixaram claro, a história de pessoas LGBTQ está em alta, principalmente nos Estados Unidos.

John Anderies, diretor do Wilcox Archives no William Way LGBT Community Center, um centro comunitário para pessoas da comunidade, diz que os idosos LGBTQ estão mais dispostos a doar e preservar sua coleção pessoal de fotografias do que qualquer outro grupo etário, e tanto a ONE Foundation quanto o Centro Wilcox têm fotos “culturalmente e historicamente relevantes, emocionantes e efêmeras”, em suas palavras, “verdadeiros recortes da vida dos LGBTs que viveram ao longo do século XX”.

No Instagram, existe até uma conta, o @lgbt_history, que tem quase meio milhão de seguidores, que mostram imagens de indivíduos dessa época.

Por mais pessoais que sejam essas fotografias de casamento, elas também revelam muito sobre o período em que foram tiradas. As fotos foram capturadas no que parece ser um apartamento privado, a cortinas e persianas fechadas, fora dos olhos do público – certamente por medo da discriminação e violência alheias.

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Ainda assim, as imagens apresentam uma celebração alegre, regrada à dança e sorrisos. As imagens também contêm algumas pistas: há uma reunião de homens gays que pode indicar que o casal trabalhou em profissões onde a homossexualidade era mais aceita, como em salões de cabeleireiro, teatro ou televisão.

A busca pelo casal feliz também é uma forma de os pesquisadores obterem mais informações sobre a vida LGBTQ de meados do século 20 – melhor ainda se coletarem depoimentos de pessoas vivas dessa época.

“A história da década de 1950 está se tornando rapidamente inacessível porque trata-se de uma geração excluída. Há apenas um pequeno punhado de homens gays da Filadélfia em seus 90 anos que estão vivos”, diz Oliveira. “As trocas inter-geracionais que temos durante essas pesquisas e levantamentos são inestimáveis. É uma incrível transferência de conhecimento entre gerações. Adoro minerar suas experiências, mesmo que não possamos devolver essas fotos aos homens ou a um membro da família deles”, conclui.

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Fonte: The Philadelphia Citizen/Fotos: Reprodução/ONE Foundation

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