A história mais bonita que você lerá hoje

Li outro dia numa coluna do The New York Times sobre John e sua esposa, Judite. Casados há 50 anos, ele lê um diário que escreveu pra ela contando como eles se conheceram até o dia anterior, tudo detalhado e destacando fatos cruciais sobre a vida dos dois, desde que Judite foi diagnosticada com o mal de Alzheimer. Além disso, ele faz tudo por ela: troca suas roupas, lhe dá comida, canta suas músicas preferidas e lhe lembra – “Esse é seu blues preferido, meu bem!”

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O artigo fazia um apanhado sobre o que seria um exemplo de amor. Pra mim, esse não deveria ser um exemplo. Isso deveria ser cotidiano.

Não estamos acostumados em sermos cuidados, especialmente hoje em dia em que andamos de um lado pro outro percorrendo cada uma de nossas obrigações numa cobrança sem tamanho, olhando para as horas com medo. Judite e John vem de outra geração, em que o cuidado de se estar presente quando o outro vai chegar do trabalho, era sublime. Recebê-lo com os brioches e espaguete ao alho e óleo, pois eram seus preferidos, era singular. Acompanhar o outro até a esquina para comprar balas de açúcar, era fascinante. Hoje a exigência é terrivelmente maior: queremos mais, não uma simples caminhada até a esquina, precisamos de um motel no primeiro encontro e muitos orgasmos. Queremos um beijo ardente logo de cara, não precisa dizer seu nome! Podemos nos pegar depois de você me dizer onde mora?

John e Judite me trouxeram a lembrança um amor puro, que existe neles desde que se conheceram. Aquele amor preocupado, instantaneamente preso nas necessidades que o outro tem, esperando ser forte o bastante para suportar as adversidades que virão.

Escrevo para fazer com que todos se lembrem desse amor, que é o mais genuíno. Aquele que esbarra as mãos devagar, que fala com o olhar doce, que deixa recadinhos na geladeira pela manhã, que traz uma flor meio murcha num passeio de volta da cidade. Que faz o outro ler um trecho bonito de um livro, que mostra fotos engraçadas num fim de tarde, que manda mensagem pra dizer que lembrou de você e já comprou o pão do jantar. Aquele mesmo amor que faz com que o outro olhe pra você de onde quer que esteja, que cura você com apenas uma palavra, que te chama pra comer pão com mortadela numa tarde fria e te espera sair do trabalho mesmo que passe muitas horas.

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O quanto você está disposto a amar? O quanto você se comprometeria a ver a vida com mais simplicidade? Você estaria disposto a abrir seu coração ao meio e permitir-se costurar ao coração de outro? Leria todos os dias trechos de uma vida simples, lembrando o quanto foi importante que aquele alguém estivesse perto de você ali, naquele instante? Você se permitiria ser cuidado por outro alguém em meio a um mundo desordenado?

Esse não é mais um texto romântico que você lê por aí. Quero falar de amor. Um amor sem parâmetros, sem padrões, um amor que recolhe os pés do outro devagarzinho no sofá quando percebe seu sono profundo. Um amor que pensa, discorre e avalia as necessidades do outro sem pestanejar.

Todas as vezes que John termina de ler o diário para Judite, ele nunca tem certeza se ela realmente prestou atenção em tudo. Mas ele vê nos seus olhos a mesma menina por quem um dia se encantou e percebe que não haverá dias bons se ela não estiver com ele.

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