Índia supera fome, abusos e preconceito e se torna empreendedora criando suas próprias bonecas

Quando Luakam, da etnia anambé, tinha apenas 7 anos, ela se apaixonou por uma boneca que estava à venda na festa do Círio de Nazaré, em Viseu (PA). Sem dinheiro para comprar o brinquedo, a pequena Luakam colocou na cabeça que quando crescesse teria suas bonecas. E esse dia chegou!

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Porém, até Luakam se tornar uma costureira de mão cheia e vender por todo o Brasil suas bonecas inspiradas na cultura indígena brasileira, passou por muitas provações e batalhas. Fome, abuso e preconceito cercaram a sua história, mas a força desta paraense nunca permitiu que ela desistisse.

Infância perdida

Luakam, 53 anos, veio de uma família humilde de Viseu (PA). Os 11 irmãos – três homens e oito mulheres – precisaram trabalhar desde pequenos para levar comida e dinheiro para casa. Filha de pai da etnia anambé e mãe com raízes nigerianas, aos 7 anos foi trabalhar em uma fazenda com suas irmãs e a mãe.

A função da família de Luakam na fazenda era cuidar dos filhos do proprietário de terras. Então, o único boneco que ela tinha era, na verdade, um bebê.

“Nessa casa eu não tinha direito de brincar. Tinha um bebê de 4 meses e eu não tinha direito de brincar.”

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Após meses trabalhando na fazenda, Luakam foi estuprada por funcionários do local. Ela contou à esposa do dono das terras, que nada fez para ajudar. Pior: tempos depois, na festa do Círio de Nazaré, o episódio de abuso foi usado como motivo de deboche pela mulher.

“[A esposa do dono da fazenda] falou que não dava para comprar [a boneca], porque eu não brincava, eu já tinha com quem brincar”, contou Luakam, que só depois de adulta entendeu que aquela frase seria uma alusão ao estupro que havia sofrido.

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Neste mesmo dia, Luakam viu a boneca dos seus sonhos. Cabelo preto e comprido, faixa na cabeça. Era assim a forma do brinquedo que viria a ser a obsessão da paraense nos anos seguintes e a ideia de negócio no futuro.

Casamento aos 14 anos e a coragem para se separar

Com apenas 14 anos, Luakam foi obrigada a se casar com um homem de 36. A paraense era constantemente humilhada pelo marido – com quem teve seus dois filhos – por ser uma mulher indígena.

“Ele me humilhava ainda mais por eu ser indígena. Ele dizia que eu era um animal, que eu tinha que apanhar mesmo. […] Isso afetou muito meu psicológico, porque, desde quando a gente se separou, eu nunca mais casei.”

A separação que ela conta chegou aos 19 anos. Luakam, mulher inspiradora desde jovem, pegou seus filhos e decidiu ir para Belém (PA), onde pela primeira vez teve contato com uma televisão. No aparelho, passava o programa do alfaiate Ronaldo Esper, influência para uma paixão que ela havia acabado de descobrir: a costura.

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Nos anos seguintes, passou a fazer vestidos à mão para a filha. “Tinha festinha na escola e eu fazia vestido para ela participar. Às vezes, eu dizia para ela: ‘Lia, não te mexe muito’. Eu tinha medo do vestido descosturar! Quando eu finalizava a costura, dava um nó bem forte para quando ela se mexer (sic), o vestido não se desmanchar”, contou Luakam, aos risos.

Do Pará ao Rio: uma nova chance para recomeçar

Em 2010, Luakam tomou uma das maiores decisões de sua vida: decidiu deixar o estado onde nasceu e cresceu e viajou por oito dias de carona em um caminhão com um desconhecido. Ela atravessou Pará, Maranhão, Tocantins, Goiás, Minas Gerais e São Paulo até chegar ao Rio de Janeiro.

Segundo a mulher, que deixou a filha na casa de parentes e foi ao Rio para morar de favor na casa de uma conhecida, a viagem com o caminhoneiro foi repleta de histórias, sorrisos e lágrimas. Durante a entrevista ao Razões, ela ressaltou o quanto era grata à ação do motorista de caminhão.

Ao chegar na rodoviária do bairro de Campo Grande, na capital do RJ, Luakam logo notou que os olhares eram todos para ela. Afinal, seus cabelos negros de 80cm eram bem diferentes do estilo carioca!

“Eu me sentia um peixe fora d’água!”

Em suas primeiras horas no Rio, Luakam não conseguiu fazer contato com a conhecida que iria abrigá-la. Precisou, então, dormir na rodoviária de Campo Grande junto com pessoas em situação de rua. Somente 24 horas depois, conseguiu falar com a mulher que a receberia e, assim, abandonar a rodoviária.

Nas semanas seguintes, Luakam conseguiu seu primeiro emprego no Rio em uma fábrica de moda praia. A paraense rapidinho aprendeu a fazer biquínis que, diga-se de passagem, ela nunca havia costurado na vida! “Índia sabe costurar?”, era o que pessoas preconceituosas da fábrica perguntavam. E ela mostrou que sim! 💪

Mesmo com todo preconceito cultural, Luakam não deixou suas raízes de lado

Luakam veio ao Rio para morar em uma casa de cristãos protestantes fervorosos. Ainda assim, a paraense encontrava um espacinho para agradecer e rezar para Nhanderu, o deus-luz da cultura guarani.

Após receber seu primeiro salário, Luakam mandou dinheiro para o Pará para trazer a filha Lia para o Rio de Janeiro. A jovem começou a trabalhar na fábrica de roupas de moda praia com a mãe, quando ambas foram surpreendidas por um despejo inesperado.

Segundo Luakam, a mulher que abrigava as duas afirmou que elas precisavam sair da casa, pois o pastor de sua igreja afirmava que elas faziam rituais para o “demônio”. A paraense e sua filha reuniram o pouco que tinham, acharam uma quitinete, que sequer havia porta, e se mudaram.

Luakam comprou uma torradeira elétrica onde fritava ovos para que elas comessem com pão. Sem colchão ou cama, as paraenses recolheram papelão nas ruas da zona oeste do Rio para forrar o chão onde dormiam.

Lia entendia que ela e a mãe não precisavam passar por esse tipo de dificuldade, mas Luakam via de outra forma. “A gente vai ficar aqui. Isso aí é para a gente aprender a dar valor quando chegar lá em cima, porque a gente vai crescer aqui nesse lugar. Nosso limite vai ser o céu”.

“Quando a gente crescer, a gente vai criar uma boneca para nós”

Ainda durante a infância de Lia, Luakam prometeu para a filha que elas criariam juntas uma boneca. Cerca de 20 anos depois da promessa, em agosto de 2013, as paraenses criam as bonecas Anaty. E claro, o primeiro modelo celebrava a cultura dos anambés!

As bonecas com traços indígenas foram um sucesso! Sempre que as paraenses levavam exemplares para vender na feira do Parque Lage, no Rio, não voltava uma boneca para casa. Isso fez com que, em 2019, as empreendedoras Luakam e Lia investissem todas suas economias no crescimento da produção dos brinquedos, mas elas não contavam com a pandemia.

Sem dinheiro para sequer comer, Luakam e Lia ganharam a força da pequena Luiza. Foi dela a ideia de filmar a produção artesanal das bonecas da vovó e da mamãe. O vídeo, obviamente, viralizou em poucas horas e tornou a história das bonecas Anaty nacionalmente conhecida.

Após virar matéria do Fantástico, as vendas explodiram! As bonecas Anaty contam com exemplares de três etnias indígenas diferentes e Luakam já planeja o lançamento da quarta.

Costureira quer iniciar projeto para ajudar jovens paraenses

As origens de Luakam estão presentes em suas bonecas e em toda sua história de vida. Sem virar as costas para o seu passado, a costureira decidiu criar o projeto Mãos de Fadas para ajudar mulheres paraenses que passam dificuldade a ter um ofício.

“Na minha cidade, em Viseu, ainda existe muitas mães novinhas que são mãe solo, que foram espancadas pelo marido, que não têm expectativa de vida ou renda”, contou Luakam.

A ideia é levar o material para a produção das bonecas Anaty até o Pará, onde elas serão costuradas pelas integrantes do Mãos de Fadas. De acordo com Luakam, 20% do valor das bonecas Anaty são revertidos para o projeto, que terá sua sede construída ainda em 2021.


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