Líder comunitária reúne vizinhos para evitar despejo e transforma bairro em exemplo de sustentabilidade

Em 2003, quando se mudou para a Vila Nova Esperança, no extremo oeste da cidade de São Paulo, Maria de Lourdes Andrade Silva, a Lia, de 58 anos, não imaginava que lideraria uma transformação na comunidade. Nascida em Itaberaba, na Bahia, ela chegou a São Paulo, em 1994, para recomeçar a vida após um casamento difícil.

Quatro anos mais tarde, já ao lado de um novo companheiro, Wagner, foi visitar a sogra, moradora da Vila. Não teve uma boa primeira impressão do local por causa de um tiroteio que começou quando estavam chegando. Mas, em 2003, a sogra de Lia adoeceu e, para ajudá-la, o casal decidiu comprar um terreno ali. Passados três anos, eles souberam de um processo para remover as famílias da Vila. Lia, então, tomou a frente da situação e, com o apoio de moradores, não só contribuiu para que permanecessem até hoje no local como fez dele um exemplo de sustentabilidade.

Ela conta que, em 2006, ao ouvir de uma líder comunitária da época que todos iam perder suas casas, questionou o fato. “Nem eu nem ninguém que eu conhecia tínhamos sido consultados sobre nada, por isso comecei a participar das reuniões de moradores e com representantes do governo. Aí descobri que a alegação era de que o terreno fazia parte de um parque e que estaríamos degradando uma área de preservação ambiental”, diz Lia.

“Povo degradava a natureza porque faltava conhecimento a ele”

Inconformada, passou a buscar informações para entender quais eram os direitos dos cerca de 3.000 habitantes da vila. Chamou quem quisesse se juntar a ela e iniciou sua luta. “Eu pedi ajuda a ONGs, estudantes, professores, advogados, aprendi o que é usucapião, conheci a escritura… Assim, em 2010, na primeira vez em que estive com a promotoria do meio ambiente como líder da comunidade, mostrei que a Vila era vizinha da área do parque, não ficava dentro. E que, se o povo estava degradando a natureza, era porque faltava quem levasse esse conhecimento a ele.”

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Até então, não havia abastecimento de água nem serviço de energia elétrica regularizados na Vila Nova Esperança, e nem mesmo um endereço postal. “Ainda não temos rede de esgoto, apenas fossas ecológicas. Mas acho que esse descaso é por interesse imobiliário. Nossas casas ficam em um morro com uma vista maravilhosa, rodeado por mata atlântica”, diz Lia.

Enquanto a Justiça analisava o pedido de interrupção da desocupação, era preciso mudar o comportamento dos moradores em relação ao meio ambiente e dar fim à sujeira que se espalhava pelo local. Lia então convocou uma reunião e disse: “A gente tem direitos mas também deveres. A primeira coisa é colocar o lixo no lugar certo, a caçamba na entrada da Vila. Como a frente da moradia é o retrato da nossa casa, cada um começa por aí. Depois fazemos mutirões de limpeza!”

“A própria natureza foi ensinando o que fazer”

O primeiro contou com a ajuda de estudantes da USP (Universidade de São Paulo). Mais tarde, a ONG Teto criou um fundo para construir um abrigo para o lixo porque a caçamba costumava ser revirada por cães. E como, mesmo assim, o espaço não era suficiente, alguns moradores começaram a separar o lixo para reciclagem. Mas ainda era preciso ensinar educação ambiental à comunidade. Veio daí a ideia de criar uma horta comunitária. “Ela ensina sobre respeito à natureza e também sobre educação alimentar, que ajuda o pessoal a ficar mais saudável”, diz.

A líder da Vila Nova Esperança conta que nunca havia plantado nada, mas que, ali, tudo funciona na base da sabedoria coletiva. “A gente junta quem tem algum conhecimento e faz. Para limpar, cercar e descontaminar o terreno onde fizemos os primeiros canteiros, tivemos a ajuda de voluntários. Depois, a própria natureza foi ensinando o que fazer.”

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Com o tempo, a horta ganhou um berçário de mudas e um banco de sementes. O valor antes destinado à compra delas foi revertido para outros projetos, como uma biblioteca de taipa. “Essa foi nossa primeira construção sustentável, feita com descartes de madeira de construção e barro”, diz Lia. Depois, vieram uma cozinha experimental, uma brinquedoteca e um miniteatro – além de diversos mutirões para plantio de árvores e construção de muros de contenção para evitar deslizamentos no período das chuvas.

Mudança beneficia até a saúde das crianças

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Cícera Marialino é voluntária na horta da Vila Nova Esperança, onde garante a alimentação da família. Foto: acervo pessoal.

São muitas as conquistas da comunidade. A Vila Nova Esperança, hoje, abriga até um Centro de Inovação e Tecnologia, que capacita moradores a desenvolver soluções para os desafios que enfrentam no dia a dia. Por meio do projeto, por exemplo, um garoto inventou um dínamo para as lâmpadas da sua bicicleta, para poder percorrer as ruas sem iluminação da vila. Tudo isso é resultado de parcerias, doações e voluntários, além, é claro, da união dos moradores.

Cícera Marialino, diarista de 55 anos, se mudou para a Vila Nova Esperança em 2002. Ela conta que, mesmo sem água tratada e sem energia, e com ruas de terra batida, um cantinho ali era o que podia ter. Mas temia a desocupação. Só ficou mais tranquila depois que Lia mobilizou a luta pela permanência de todos no local. “Antes de ela mostrar o que a gente podia fazer para ficar, eu nem conseguia dormir. Disse a Lia que ela podia contar comigo. Então, participei de quase tudo: os mutirões de limpeza, o plantio de árvores, a horta… Na pandemia, as faxinas pararam. E minha família só não passou fome porque sou voluntária na horta e posso trazer frutas, legumes e verduras para casa”, afirma. A união de esforços promovida por Lia beneficiou até a saúde dos filhos de Cícera. “Eles sofriam por causa de bronquite, mas, depois que nos juntamos para jogar concreto nas ruas, a poeira diminuiu.”

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Desde 2010 à frente da entidade, Lia agora precisa se dedicar mais à família. “Meu companheiro perdeu os rins, e eu doei um a ele. Então, tenho de contribuir mais nas despesas de casa. É tempo de outra pessoa assumir a associação.” Ela, que não ganha nada pelo trabalho na comunidade e garante seu sustento com um mercadinho que mantém com o marido no bairro, criou também um instituto que leva seu nome para ajudar outras comunidades, para além da Vila Nova Esperança. “Vou completar doze anos ajudando famílias a lutar por seus direitos. Esse trabalho é como uma missão.”

Texto: Romy Aikawa
Foto: Ilana Bar

Conteúdo publicado originalmente na TODOS #42, em março de 2022.

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