Quem são e o que pensam as mulheres da 3ª Marcha do Orgulho Crespo de São Paulo

“Eu, mulher negra, resisto” foi um dos gritos que ecoaram pelas ruas de São Paulo no último sábado (5), durante a Marcha do Orgulho Crespo.

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O movimento independente debate, entre outros temas, a cultura afro e a representatividade negra, estendendo-se pelas madeixas crespas e cacheadas, pelos traços e a cor da pele presente em pelo menos 54% da população brasileira. Ainda assim, em pleno 2017, a gente precisa reforçar a ideia.

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Mas olha, não é tão difícil notar a importância da marcha, do movimento negro ou de quaisquer circunstâncias que ambos envolvam. Vou propor aqui uma reflexão bastante simples e didática: nos seriados ou filmes que você gosta, quantos personagens negros ou negras têm? Quais papéis eles exercem no enredo? Será que é só para cumprir protocolo? De alguma maneira eles foram colocados ali para servir uma pessoa branca ou ser inferior à ela?

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A mesma análise vale para revistas, propagandas, novelas, no seu emprego, na rua da sua casa, na sua escola, e até no supermercado que você frequenta. Comece a reparar nisso, lembrando sempre do dado citado acima: 54% do Brasil é negro. Mas onde estão essas pessoas? Por que não são representadas? Acredite, isso pode mudar toda a sua rotina, porque eu já não sou mais a mesma desde que comecei a reparar nessas sutis porém gritantes diferenças. Aliás, uma série como “Dear White People” (Cara Gente Branca, na Netflix), formada por um elenco e temática negra, incomodou a tal gente branca. Por que será, né?

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Falando em estética, quantas vezes você já teve o tal “bad hair day” na sua vida? Se você é uma mulher branca de cabelo liso, provavelmente vai reclamar do dia que o cabelo estava escorrido demais ou com fios “fora do lugar”. Se é uma mulher branca de cabelo cacheado, vai dizer que teve alguns dias difíceis e até dilemas com a chapinha…agora se você é uma mulher negra de cabelo crespo, provável que sequer pode trabalhar com o cabelo natural, que é seu, simplesmente porque não era “bom o suficiente” para os padrões. E é aí que um fio da cabeça se estende pelo árduo fio do racismo. É um fio que impede, entre outras coisas, oportunidades, respeito, liberdade.

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A dor de uma vida se transforma então em força e dela brota a resistência para lutar por direitos, inclusive o de ser livre para ser quem é. Nessa luta, mulheres se reuniram para celebrar, literalmente, suas raízes e se unir. Criado em julho de 2015 pelo projeto Hot Pente e pelo Blog das Cabeludas – Crespas e Cacheadas, o movimento nacional de valorização da estética afro-brasileira reúne pessoas em oito estados brasileiros e, segundo os próprios, “expande suas origens para o debate racial, com o intuito de transcender o campo da beleza e evidenciar o cabelo crespo/cacheado como símbolo de resistência aos padrões historicamente difundidos e de afirmação de identidade e autoestima, especialmente de mulheres negras”.

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A estudante de sociologia e política Bianca Guimarães, convidada para fazer poesia no começo da marcha, resume o quanto a questão estética é capaz de refletir em escolhas. “Eu, como mulher negra periférica, acho interessante ver organizações que reúnem mulheres negras para fazer algum projeto seja ele qual for. Isso é muito significativo. Estou vendo aqui várias crianças que já vão ter uma referência, sabe. No começo sempre temos a treta de alisar ou não o cabelo…é bom a gente ver a representatividade crespa e mostrar que isso é possível. Uma criança precisa ter essa chance, de ver que pode ser assim. Se ela quiser alisar o cabelo depois, é uma coisa dela. Mas é preciso plantar essa consciência de que não há nada errado com ela e com seu cabelo”, contou ao Razões para Acreditar.

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As youtubers Beatrice Oliveira e Carol Silvano, parte do canal Estaremos Lá, foram as responsáveis da vez por puxar a marcha e, não só isso, criam diversos vídeos que falam sobre a mulher negra em diversos aspectos. Para Bia, participar da terceira edição do movimento já é histórico, pois mostra quando o povo negro se junta e consegue prosseguir. “O que me motiva é essa unidade que a mulher negra precisa ter uma com a outra, essa empatia, essa sororidade; é exaltar a beleza e mostrar que a mulher negra não é só o cabelo diferente, não é só o style, mas que temos muito para falar e para fazer uma pelas outras. Uma sobe a puxa a outra. Fortalecer o movimento negro, as mulheres negras, a mulher em si, e as questões femininas envolta dela.

Para Carol, quem ainda não consegue entender a importância e o peso de movimentos do tipo precisa, talvez, se olhar no espelho para perceber que cabelo todo mundo tem. “É muito triste quem não consegue assimilar as coisas…a gente nem deveria se juntar para falar sobre cabelo, isso deveria ser natural, porque é do ser humano. Cabelo, unha, olhos…mas, se estamos aqui para juntar. Vamos unir forças e invadir todos os lugares”.

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Sobre o racismo em si, presente tanto quando uma mulher é forçada a alisar os fios para conseguir um emprego quanto em ofensas gratuitas na rua ou nas redes sociais, Bia ressalta que combater é fundamental, mas sem o uso da violência. “Para nós, como coletivo, temos a visão do racismo ser educacional. A gente gosta de tratá-lo com educação, sem discurso de ódio. Estamos aqui para ensinar. Se a gente vai com pé no peito, não há mudança. Quando você mostra, explica, ensina, pelo menos sob a nossa experiência com nossos vídeos, de fala racista, de comportamento racista, a pessoa reconhece certas atitudes e se transforma.”

Ela também ressalva que para a mulher branca reconhecer seus privilégios basta olhar as capas expostas em uma banca de jornal. Mas sua causa não é por uma mulher ser mais do que a outra e sim estarem no mesmo patamar. “A gente quer igualdade. Não queremos segregar. Da mesma forma que as mulheres brancas têm, nós também queremos ter esse espaço. Se for assim, já está ótimo ”.

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E as coisas estão melhores hoje, Bia? “Estamos caminhando muito para melhorar, porque isso precisa ser natural um dia. A diversidade é uma palavra bonita, empoderamento é uma palavra bonita, mas na hora do vamos ver…não acontece. Então as coisas precisam ser naturais. Se vai fazer um comercial, precisa ter não só negros, como os orientais, os ruivos, os brancos…mas isso precisa ser verdadeiro. Não basta colocar lá uma pessoa e dizer que está ok. Melhorou, claro. Mas ainda falta muito!”, pontuou.

No caminho certo para a evolução, elas e tantas outras mulheres encaracoladas e crespas, homens e crianças seguiram rumo à Unibes Cultural, onde houve mesas de debate, oficinas e show de encerramento da MC Soffia, uma das grandes vozes da nova geração, que desde os seis anos de idade canta e faz rap sobre empoderamento negro e feminino.

Como diria Chico Science, “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”. E assim as mulheres negras, crespas, cacheadas e cheias de atitude, seguem na luta diária pela liberdade de estarem felizes e livres em sua própria pele. Que as madeixas sejam o fio condutor da mudança.

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Todas as fotos: © Brunella Nunes para o Razões para Acreditar

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